,Os Jogos Olímpicos de Verão de Londres 2012
Nadadora conquistou medalha de ouro em Londres aos 15 anos de idade Tim Wimborne/REUTERS

Do céu ao inferno em seis anos: o fim prematuro da carreira de Ruta Meilutyte

Lituana foi medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, com 15 anos de idade. Enfrentou uma depressão em 2016, que (quase) a levou a colocar um ponto final na carreira. Depois de ser punida com uma suspensão que a levaria a falhar os Jogos Olímpicos de Tóquio, a nadadora lituana afasta-se definitivamente do desporto que marcou.

Quando a jovem Ruta Meilutyte respirou fundo e levantou o olhar para conferir a sua prestação, ficou tão surpreendida quanto os espectadores que acompanhavam os Jogos Olímpicos de 2012. Com apenas 15 anos, a lituana tinha ultrapassado toda a concorrência — que incluía uma campeã olímpica e mundial na especialidade — em Londres e conquistado o ouro nos 100 metros bruços, naquela que seria a primeira medalha olímpica do país na natação. Sete anos depois, uma das maiores promessas do desporto põe fim à carreira, aos 22 anos de idade, depois de ter infringido por três vezes o regulamento dos controlos antidoping.

Esta é a história de uma nadadora prematura – a todos os níveis.

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Momento em que Ruta cantava o hino da Lituânia nos Jogos Olímpicos de Londres DAVID GRAY / REUTERS

Ruta nasceu em 1997 em Kaunas, segunda cidade na Lituânia. Em Março de 2001, quando tinha apenas quatro anos de idade, a mãe, Ingrida, faleceu num acidente de viação. O pai, Saulius, emigrara para sustentar o melhor possível Ruta e os dois irmãos. Na ausência do pai, as crianças ficaram sob a guarda da avó paterna, Aldonas.

Desde muito cedo que a pequena Ruta mostrava gostar de desporto. Jogou basquetebol, mas a natação, que começou a praticar com sete anos de idade, sempre foi a primeira paixão. “A maioria dos miúdos começa a nadar porque os pais querem que eles estejam seguros na água. Eu também comecei assim. A minha avó queria que eu soubesse nadar, porque vivíamos perto de alguns lagos e rios e por passarmos os verões perto do mar. Para mim foi aprender a nadar, não tinha de ficar depois disso. Acho que gostei muito da natação e acabei por continuar”, afirmou em entrevista à publicação especializada Swimspire.

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Nadadora conquistou título mundial de natação em 2013 Albert Gea / REUTERS

O que começou como um passatempo assumiu contornos competitivos quando Ruta tinha 12 anos. A primeira vitória numa prova despertou-lhe o interesse pela vertente competitiva da natação. O talento era evidente e o pai — que na altura trabalhava em Inglaterra — falou com Jon Rudd, treinador de natação na Universidade de Plymouth, sobre uma menina lituana cheia de potencial.

“[A primeira vez que a vi treinar] Ela tinha 12 anos, estava quase a fazer 13. Veio à piscina da Universidade de Plymouth. Disse-me que achava que era uma nadadora de estilo livre, o que é muito bom. Começámos a fazer uns exercícios e, quando vi os movimentos de bruços, pensei que tínhamos algo de especial ali. Ela detesta perder. Acho que tem motivação para ser o melhor que conseguir. Gosta de participar em novos torneios, representar o país dela. Tem muito orgulho quando o hino nacional da Lituânia toca e as pessoas nas bancadas abanam as bandeiras”, relembra Jon Rudd, primeiro treinador de Ruta na Inglaterra, ao canal oficial dos Jogos Olímpicos.

“Ninguém sabia quem eu era”

O treinador ficou impressionado e Ruta ficou a treinar em Plymouth. Com melhores condições de treino na Inglaterra, a lituana conseguiu fazer uma melhor gestão da vida académica e desportiva. Venceu praticamente todas as provas em que participou, garantindo a qualificação pela Lituânia para os Jogos Olímpicos de 2012, disputados em Londres. Apesar da inexperiência em grandes palcos, a jovem Ruta passou com distinção as fases que antecederam a final, mas, dado o estatuto das adversárias, poucos apostavam nela como candidata à medalha de ouro. 

“Quando fui aos Jogos Olímpicos, o meu objectivo era chegar à final e nada mais. Ninguém sabia quem eu era, nunca me tinham visto. Estava muito feliz com os meus tempos anteriores e o meu treinador disse que apenas os teria de repetir mais duas vezes”, relembraria. 

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Atribuição da medalha em Londres foi momento de grande emoção para a jovem David Gray / REUTERS

Ruta mudou a competição e deu a primeira medalha olímpica de natação à Lituânia. Durante algum tempo, não podia sair de casa na Lituânia sem ser imediatamente “engolida” por uma onda de fãs entusiasmados. O ouro amealhado nos Jogos Olímpicos de Londres concedeu-lhe um estatuto de heroína nacional que, devido à tenra idade, fazia prever muitos mais êxitos futuros para o país do Leste. Milhares de pessoas foram recebê-la ao aeroporto e até o Presidente se deslocou à capital inglesa para presenciar ao vivo a prova de natação. 

Os êxitos não iriam parar em Londres: no ano seguinte, em 2013, Ruta Meilutyte conquistou o título mundial, em Barcelona. Parecia que o céu era o limite. Mas, ao contrário do que se faria prever, esse seria o último grande título internacional da lituana. Nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, Ruta não foi além de um sétimo lugar na categoria que tinha dominado quatro anos antes.

Uma quebra de rendimento que, à primeira vista, parecia inexplicável. Mas, longe do olhar do público, Ruta sofria em silêncio.

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Prestação da nadadora nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro ficou aquém das expectativas Dominic Ebenbichler / REUTERS

Depressão colocou carreira em risco

A pressão e expectativa tornaram-se demasiado para a jovem atleta, que, em declarações ao site brasileiro Globo Esporte, admitiria os desafios que enfrentava diariamente ainda antes das olimpíadas no Brasil. “Tenho depressão e luto contra ela todos os dias. É uma batalha. Com a ajuda da minha família e dos meus amigos, encontrei maneiras de lidar com isto e sentir-me melhor. Mas não estou livre e sinto que ainda tenho de trabalhar para me libertar dela”, afirmou a lituana, então com 21 anos.

A medicação tornou-se uma necessidade para a nadadora desempenhar tarefas básicas. “Às vezes perguntava o que estava a fazer da vida, porque nada parecia fazer sentido. Era uma perda do sentido das coisas que me fazia descartar o lado positivo da vida e me levava a concentrar somente no negativo. Nesses momentos, não queria treinar nem ver pessoas”, prosseguiu.

Depois da prestação falhada no Rio de Janeiro, Ruta afastou-se do treinador Jon Rudd, voltou à Lituânia e tirou um período sabático. Mudou-se para Los Angeles, onde se preparava para os Jogos Olímpicos de Tóquio, que terão lugar em 2020. Por três vezes, a nadadora falhou controlos antidoping, enfrentando uma suspensão que poderia chegar aos dois anos, o que a afastaria da competição no Japão. Esta quarta-feira, Ruta anunciou que decidiu colocar um ponto final na carreira para se conhecer melhor e para conhecer melhor o mundo que a rodeia.

“Estou prestes a começar um novo capítulo na minha vida. Obrigada a todos os que me apoiaram neste caminho”, afirmou, em comunicado. Para trás fica uma carreira que, apesar de fugaz, deixou uma marca histórica no desporto. A “Phelps feminina” — como foi apelidada por um jornal russo após a vitória em 2012 — diz adeus a um desporto que regressará, certamente, ao estatuto de passatempo na vida da lituana.