Joachim B. Olsen/Facebook
Foto
Joachim B. Olsen/Facebook

Megafone

Política com bolinha vermelha

Depois da polémica campanha do candidato às eleições dinamarquesas, que publicou um anúncio num site pornográfico, estará a emergir um novo formato de campanha eleitoral?

Recentemente, a Internet foi agitada pela polémica campanha do candidato às eleições dinamarquesas de Junho, Joachim B. Olsen. O deputado do partido de centro-direita Aliança Liberal publicou um anúncio no site pornográfico Pornhub e, claro, fez corar os políticos portugueses que apenas têm arriscado dar beijos a velhotas nas feiras deste país. Coloca-se então uma grande questão: estará a emergir um novo formato de campanha eleitoral?

Partindo dos meus humildes conhecimentos sobre sites pornográficos (que não frequento), parece-me inequívoco que, se é política ambiciosa que se pretende fazer, anúncios ambiciosos se deve ter. E se há algo que, em geral, não falta a sites como o Pornhub é ambição. Sempre seguindo a máxima “Para grandes males, grandes remédios”, esta publicidade apresenta um tom épico, anuncia a satisfação dos desejos mais íntimos dos consumidores e está sempre de olhos postos no crescimento. Ou seja, requisitos básicos de toda e qualquer campanha eleitoral isenta de demagogia e avessa a populismos. Até aqui, nada de escandaloso.

Um segundo ponto importante é que este formato de campanha eleitoral permite poupar esforços. E não, não me refiro ao menor esforço empreendido pelos utilizadores do site numa modalidade sexual solitária. Refiro-me sim ao facto de Olsen conseguir, desta forma, segmentar o eleitorado e fazer chegar a sua decisiva mensagem política a quem realmente quer do seu lado. Segundo o Expresso, quase três quartos dos utilizadores dinamarqueses do site são homens. Estratégica e inteligentemente, Jokke (como é conhecido informalmente o candidato) exclui a camada acéfala, desprovida de sentido crítico e de ideias políticas pertinentes: nós, mulheres. Digo “nós” por uma questão de solidariedade feminina, uma vez que a nacionalidade portuguesa me excluiu logo no início deste processo. E ainda bem! Para mim e para elas, as dinamarquesas, já que nos libertou tempo para as tarefas domésticas e poupou-nos a ter de comentar esta polémica, confirmando assim a nossa falta de acutilância política.

Por fim, a genialidade de Jokke evidencia-se através da sua atenção às significativas melhorias no discernimento de uma pessoa, ao utilizar um site pornográfico. Não lhe bastando uma plataforma que permitisse uma espécie de depuração intelectual, como a que ditou a exclusão da facção feminina do eleitorado, Jokke ainda se empenhou na escolha de uma plataforma que proporcionasse orgasmos aos seus eleitores. Assumamos que a cada utilização do Pornhub os eleitores dinamarqueses alcançam alguma gratificação sexual. Ora, se isto acontecer, o seu cérebro ficará mais oxigenado e funcionará melhor, segundo o neurologista Barry Komisaruk. Maior oxigenação do cérebro é igual a melhor funcionamento do mesmo, que é igual a melhor capacidade de discernir, que é igual a melhores escolhas, que é igual a voto em candidatos-com-projectos-políticos-relevantes, que, neste caso, é igual a Joachim B. Olsen (para o caso português, substitua por quem bem lhe aprouver, porque eu, como mulher, não me meto nessas coisas).

Em suma, este novo formato de campanha eleitoral tem tanto de polémico como de promissor, respeitando assim a natureza dos anúncios publicitários do dito site. Talvez não passássemos das promessas, mas, numa época de intenso debate sobre o desânimo dos europeus com o projecto que os integra e representa, não seria importante que os candidatos às Europeias adoptassem esta estratégia?