Vista da caravana na viagem de Hugo e Jannika à Islândia.
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Vista da caravana na viagem de Hugo e Jannika à Islândia. Jannika Otte

Viajar sem fim com a casa, a filha e os animais atrás: é a vida de Hugo e Jannika

Hugo e Jannika não queriam um emprego de secretária, compraram uma caravana e puseram-se a caminho, sem rumo, há quatro anos. Pelo meio “estacionaram” em Sesimbra, mas agora, com a filha de dez meses e duas gatas, o casal iniciou nova viagem até à Alemanha (pelo menos).

Para muitas pessoas, viagens longas são um suplício. Viajar e dormir no mesmo espaço, a andar na estrada durante meses, é impensável. Imagine-se isto com um gato na caravana. Mais outro. Acrescente-se um cão. E, por último, uma bebé. Esta é a vida de sonho de Hugo Meneses e Jannika Otte, que por estes dias estão a viajar de autocaravana, uma Volkswagen Crafter, pelas estradas da Europa (no passado já andaram por Marrocos). 

Iniciaram no início de Maio uma nova viagem, a primeira com Clara, com dez meses. À boleia da carrinha vão ainda as duas gatas persas, Yuki e Lua. Vão passar por Espanha, França e Itália em direcção à Alemanha e registar tudo na conta do Instagram que têm, Travel Without Ends. No Verão, talvez sigam para Norte, em direcção a terras escandinavas, onde já estiveram anteriormente. Nem tudo é bonito quando se passa tanto tempo a viver na autocaravana: “A parte menos boa é definitivamente quando está mau tempo. Não é muito agradável passar vários dias de chuva seguidos dentro da van”, admite Hugo, acrescentando que nesses dias se lembra do sofá de casa “várias vezes”. E a melhor parte? “A melhor parte é arrancar.”

Nem a chegada da bebé manteve Hugo e Jannika fora da estrada durante muito tempo: o “baptismo de voo” da Clara foi logo aos três meses, ainda que com uma jornada curta. Não foram precisos muitos cuidados adicionais: “Tivemos de fazer algumas adaptações pequenas na van para [a Clara] ter lugar para dormir e tentamos não fazer muitos quilómetros seguidos”, revela Hugo, de 35 anos. Fora isso, andar a viajar até ajuda “a ter um dia-a-dia mais tranquilo com a bebé”.

Nesta nova viagem, Mia, a cadela, não está com eles. “Achámos que seria bastante exigente, junto com as gatas e com a bebé”, lamenta Hugo. Além disso, “nos países do Sul da Europa ainda é complicado entrar com cães em restaurantes, bares e outros estabelecimentos”, acrescenta. As gatas podem ficar várias horas dentro da caravana sem problema, mas com Mia isso não é o ideal, “tendo em conta que é uma cadela grande e precisa de espaço e movimento”.

Como preparação para a viagem, Yuki e Lua vão para a caravana dois dias antes “para se ambientarem”. Em dias de calor, precisam de ser borrifadas com água para se hidratarem e se forem deixadas na carrinha ficam sempre com o ventilador ligado. Sempre que possível, deixam os animais andar à vontade no exterior “e que comam a sua ervinha”, graceja Hugo.

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Jannika Otte

Uma aventura com ligações

A história de Hugo Meneses e Jannika Otte começa em Coimbra, em 2009. Janni, hoje com 30 anos, escolheu a cidade dos estudantes como destino para Erasmus e foi aí que conheceu o português. Apaixonaram-se e Hugo decidiu ir atrás da companheira no regresso à Alemanha. Arranjou trabalho em Heidelberg, cidade onde Jannika estudava, e em Hamburgo, três anos mais tarde, mas não se sentia feliz a trabalhar todo o dia em frente a uma secretária. Precisava de mudar.

Quando Jannika terminou o mestrado, em 2015, decidiram começar a viajar. “Nessa eu altura trabalhava numa empresa de jogos e lembro-me que não foi muito fácil deixar um trabalho estável e partir”, lembra Hugo, apesar do descontentamento com “a falta de flexibilidade” de um emprego com horário fixo. Mesmo com esse receio inicial, a aventura arrancou.

Compraram uma Peugeot J5 de 1989 por 3500 euros, “venderam uns móveis” e partiram sem destino previsto, “sem intenções, sem ideias preconcebidas”, numa “viagem sem fins”. A expressão dá nome à conta de Instagram que criaram para relatarem as viagens e “servirem de inspiração a muitas outras pessoas”.

Saíram em Maio de 2015 da Alemanha em direcção à Grécia, onde tinham o casamento de uns amigos, daí a três meses. Passaram por Áustria, Eslovénia, Croácia, Bósnia, Montenegro, Kosovo e Macedónia. Depois do casamento, ainda deram um saltinho a Albânia e Itália. A expedição inaugural durou um total de seis meses e, diz Hugo Meneses, foi “talvez a mais intensa”.

PÚBLICO - Despedida da primeira autocaravana.
Despedida da primeira autocaravana. Jannika Otte
PÚBLICO - O "escritório" de Hugo Meneses.
O "escritório" de Hugo Meneses. Jannika Otte
PÚBLICO - Uma das duas gatas que acompanham o casal nas viagens.
Uma das duas gatas que acompanham o casal nas viagens. Jannika Otte
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Jannika Otte

A viagem abriu o apetite ao casal e os meses na estrada começaram a acumular. “Desde então que temos viajado por períodos mais alargados com a nossa carrinha.” Hugo e Jannika não registam a distância, mas estimam que já tenham percorrido “talvez uns 60 mil quilómetros”, passando por 21 países. Pelo meio, venderam a primeira a Peugeot J5, “cansada e com várias histórias para contar”, compraram uma Volkswagen Crafter mais recente e transformaram-na numa autocaravana semiautomática. Trabalham remotamente na área do marketing digital e não conseguem imaginar-se a regressar a um horário de trabalho fixo.

Em 2016 marcaram uma viagem à Islândia, onde decidiram casar. Dois anos mais tarde, souberam que iam ser pais durante uma viagem “sensacional” à Noruega, das preferidas do casal por ser um país com uma natureza “incrível”. Resolveram passar o tempo da gravidez junto ao mar, em Portugal. “Pensámos nos Açores, de onde sou natural, mas decidimos que ficar perto de Lisboa também seria uma boa opção”, conta Hugo. Escolheram “estacionar” em Sesimbra, sem nunca terem lá estado antes. Apaixonaram-se pelo lugar, que é agora a nova casa para os momentos em que não estão em viagem: “Depois de longos períodos na estrada, sabe bem voltar a casa. E Sesimbra é desde o ano passado nosso porto de abrigo.”

Para o futuro, ainda há muito a visitar, “de carrinha, principalmente”, mas não só: “Um dia, gostaríamos de navegar. Se não o mundo, atravessar o Atlântico e explorar o continente americano já seria espectacular.” Uma coisa é certa: a viagem não tem fim.