Peixeira há 42 anos, Maria Eugénia sempre “deitou” PCP. “Mas de que me valeu?”

O negócio vai mal por causa dos hipermercados - não há dinheiro nem clientes -; a vida já lhe sorriu mas a violência doméstica tornou-a descrente na sociedade. Mas Maria Eugénia tem sempre uma graça picante para os clientes mais velhotes.

,António Costa
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João Ferreira foi ao mercado de Portimão para falar das dificuldades do sector da pesca da sardinha. LUSA/LUÍS FORRA

João Ferreira já tinha passado há vários minutos pela banca de peixe de Maria Eugénia e até haviam conversado um bocadinho. As frases de circunstância do apelo ao voto, do queixume de que a vida está má, e a peixeira até tinha dito que era pela CDU desde os 18 anos. Mas Damião Sequeira deixou-se ficar para trás, para ver se a convencia mesmo. E acabou por descobrir hoje, tantos anos depois de lidarem um com o outro, que até são do mesmo concelho, a 600 quilómetros de Portimão, onde tantas manhãs se encontram no mercado – ela como peixeira, ele como cliente. Mas já lá vamos.

O candidato da CDU tinha passado pelas bancas da fruta e legumes, falara com alguns comerciantes, recusara a ideia de quer “só poleiro” em Bruxelas, encolhera os ombros quando Manuela lhe pediu uma esferográfica em vez dos papéis que lhe estendia, abrira um sorriso largo quando ouvira que era de um partido “favorável aos pobres”, e até metera a papelada da propaganda no saco das compras de uma avozinha que não lhe deu grande troco.

Até que chegou à rua do peixe. Entrega um papel a Maria Eugénia e pensa que a banca vazia significa que já se vendeu tudo. Pergunta se a manhã correu bem e a peixeira puxa da ironia. “Uma maravilha! Isto está cada vez melhor. Até estou coberta de ouro e tudo”, atira, rindo e fazendo com a mão o gesto de quem se está a mostrar. “O que é que falta então?” “Falta pessoal para comer”, responde, a peixeira enquanto faz o gesto de dinheiro com os dedos, para a seguir dizer que as pessoas não têm dinheiro para comprar peixe. Aponta para a arca, diz que está cheia e que vai para casa “comer alface”.

Enquanto isso, João Ferreira multiplicava-se em argumentos de que é preciso aumentar os salários para as pessoas poderem comprar “peixinho”, mas que a Comissão não deixa aumentar, e que a “senhora” tem que fazer a escolha no dia 26, que tem que dar força à CDU. Ela interrompe-o constantemente e diz que “continua tudo sempre no mesmo”. Quando lhe consegue arrancar que é o seu partido desde os 18 anos, João Ferreira segue caminho.

Ainda não é meio-dia mas Maria Eugénia já leu o mercado e hoje não dá mais nada. Vendeu 30 euros de peixe. “O que é que estou aqui a fazer? O peixe na banca só se estraga. Os centros comerciais estão abertos ao domingo, ninguém vem ao mercado. Olhe lá em volta, há pouca gente e quem vem já é velhote. Mais uns anos e isto acaba…”

Aponta para a “miúda”, Elisabete Leitão, de 24 anos, sua vizinha de banca, com ar tímido – a anos-luz da desenvoltura tradicional das peixeiras. “Nem eu nem ela, coitadinha. Não se vende nada que se veja.” O polvo a sete euros, a pescada pequena a seis, os carapaus a 4,5. Mais uns minutos e segue tudo para o frio. Há semanas em que consegue tirar 200 euros, mas por mês paga 180 para a banca e o uso da arca do mercado. Aventurou-se no negócio há três meses, depois de um curso de organização de eventos. O pai comprou a banca, ela a carrinha para ir buscar o peixe à lota de Portimão. Se dantes ansiava pelo Verão por causa da praia, hoje é pelos clientes com que tenciona ajudar a amealhar para o resto do ano.

Esclareça-se que sim, Maria Eugénia sempre “deitou no PCP”. E não é com o partido que está desanimada quando suspira “O que é que me valeu?” É com o sistema todo. “Toda a vida fui maltratada. Toda a vida levei porrada. Fartei-me de trabalhar e tive que deixar a minha casa. Tenho amigos que me querem bem, mas do que me serve? Vivo numa barraca.”

As palavras até se atropelam com a indignação. Foi vítima de violência doméstica; fazia queixa e ninguém lhe ligava, diz, nem médicos nem GNR – “ia lá e não faziam nada”; foi a tribunal onde a filha única contou o comportamento violento do pai. Ele não foi preso. Maria Eugénia é que desistiu. “Tive que abandonar a minha casa, a casa que fui eu que paguei com a banca do peixe, que ele não queria trabalhar.” A dada altura a assistência social propôs mudar-se. “Ia agora para a Madeira ou Lisboa ou lá para o Norte? E vivia de quê? O meu sustento é isto, é aqui”, diz, uma mão na anca, a outra a apontar para a banca vazia onde os restos de gelo vão derretendo.

“Dizem que fazem, que fazem; mas não fazem nada. Eu é que levei sempre porrada. Isso que dizem tantas vezes na televisão, quando estão lá a falar, que vão proteger as mulheres e castigá-los? Nada, nada, nada.” Anos depois, o ex-marido ainda vai ao mercado fazer-lhe cenas. A casa, que tanto lhe custou a juntar o dinheiro, parece assombrada. O marido vendeu mobílias, as portas de alumínio, as persianas. Mas ele sofre de alguma coisa? “É maluco! Toda a vida se meteu no álcool, na droga, nas jogatanas”, queixa-se.

Fala do assunto com o mesmo à vontade com que se mete com os clientes mais velhotes, quando lhes pergunta, marota, quantas voltinhas deram na cama com a mulher. “Eles fartam-se de rir, às vezes envergonhados. E a mim o que me vale é ter boa disposição.”

O que ganha como peixeira às vezes mal chega ao ordenado mínimo. “O que hei-de-fazer? Continuo a viver numa barraca. Se for pedir uma casa à câmara é papéis e mais papéis. Se não tivesse trabalho já ma davam logo.” O que lhe vale é a ajuda recente: “Arranjei agora um homem que, graças a Deus, é meu amigo. Mas tem uma reforma de 320 euros. O que é que se faz com isso?”

Volta a queixar-se. “Lutei uma vida inteira para ter alguma coisa e agora olho para mim e é isto. E olhe que eu sou rija. Sou uma mulher de Amarante!” Com a bandeira da CDU colada ao ombro, Damião Sequeira quase dá um salto e quer logo saber de que freguesia. Damião – “sou Sequeira, quer queira, quer não queira” – ainda não se tinha calado: a cada queixume de Eugénia, contrapunha com o que o PCP defende, desde os “castigos” para os maridos violentos ao fecho dos supermercados ao domingo, passando por salários e reformas mais altas. Ela, ou não ouvia, entretida com a sua história, ou fingia que não ouvia.