LUSA/ARMANDO BABANI
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Megafone

Um jogo de extremos

Bruno Lage é um dos poucos que interessa ouvir nas habitualmente desinteressantes e repetitivas conferências de imprensa. Porquê? Porque fala do assunto que ali o leva e que quem o ouve espera que fale: do jogo.

O campeonato português está a aproximar-se do fim, estando a luta pelo primeiro lugar ainda em aberto. Mas, independentemente do desfecho que se vier a verificar, existem figuras que desde já merecem destaque. E uma delas, a principal, é Bruno Lage.

O treinador do Benfica representa, antes de mais, uma excepção ao habitual percurso do treinador oriundo de uma “chicotada psicológica” (expressão curiosa da gíria do futebol). Na maioria destes casos existe um forte impacto inicial que resulta em melhorias nos resultados e nas exibições, mas esse impacto acaba por se desvanecer com o tempo e chegamos à conclusão que as carências outrora identificadas afinal não desapareceram. Isso acontece principalmente quando as mudanças levadas a cabo com a chegada do novo treinador estão ligadas sobretudo a aspectos emocionais e motivacionais, não tendo depois continuidade em aspectos mais estruturantes, mais ligados à forma como a equipa joga.

No caso de Bruno Lage, mais do que aspectos motivacionais, o que se notou logo desde a sua chegada foi uma abordagem mais virada para o jogo propriamente dito, com reflexos imediatos no onze da equipa encarnada. Essa opção revelou desde logo ousadia e coragem, na medida em que se corresse mal logo choveriam acusações de experimentalismo e sobranceria.

Um outro aspecto que merece destaque é o próprio discurso do treinador, que ao contrário do que se possa pensar não é uma questão de forma pouco importante. Lage é um dos poucos que interessa ouvir nas habitualmente desinteressantes e repetitivas conferências de imprensa. Porquê? Porque fala do assunto que ali o leva e que quem o ouve espera que fale: do jogo, sem recorrer a teorias conspirativas inevitavelmente ligadas à arbitragem ou a lugares-comuns que ninguém suporta.

Nas últimas temporadas muito se tem falado da importância da comunicação no futebol e do quão assertiva (agressiva?) ela tem de ser. Um argumento quase sempre utilizado erradamente, confundindo-se comunicação com discursos inflamados que procuram arregimentar franjas de adeptos fanáticos sempre dispostos a fomentar o ódio pelo adversário. Pelo contrário, a verdadeira comunicação é aquela que tem como figuras centrais os principais intervenientes no jogo que são os jogadores e os treinadores, que não está escrita num guião de ocas frases feitas e tem o condão de aproximar os adeptos do jogo. Também por isso Bruno Lage merece ser elogiado.

Também nas últimas temporadas, particularmente após a atribulada saída de Jorge Jesus do Benfica, assistimos a uma tentativa de valorização, do meu ponto de vista forçada e pouco convincente, do papel e da importância das estruturas dos clubes (composição directiva, elementos de intermediação e ligação entre os vários segmentos do clube) nas suas conquistas, em detrimento dos treinadores. A mesma visão já tinha surgido em períodos de domínio do FC Porto e, no fundo, traduz-se na ideia de que as vitórias surgem não por causa do treinador, mas por causa da estrutura e em alguns casos até apesar do treinador. As rápidas e inequívocas mudanças operadas desde a chegada de Lage mostram exactamente o papel fulcral que o treinador (agora em geral) nunca deixou de ter na condução das equipas. Porque, por muito importante que a tão badalada estrutura possa ser, sem um bom treinador nada se ganha.

Até agora temos estado a falar do lado bom do futebol, das figuras que o tornam um desporto apaixonante. Mas também existe um lado mau no desporto-rei, o lado da violência e da bestialidade. Por estes dias, assinalou-se a passagem do primeiro ano sobre o ataque à Academia de futebol do Sporting. Durante todo este tempo, já tudo foi dito e escrito. Começámos por uma fase de indignação quase generalizada, passámos por um clima de guerra civil num dos principais clubes portugueses e, agora, o momento parece ser de normalidade. Mas esta normalidade não se pode confundir com esquecimento ou desvalorização. Deve alertar-nos para os perigos da obsessão com a vitória efémera que, em última análise, pode levar à destruição ou pelo menos à total descaracterização dos clubes que tanto gostamos. Se esse alerta estiver presente, os extremos deixarão de se tocar e, a partir daí, só a primeira parte deste texto fará sentido.