Austrália pode fazer pisca à esquerda nas eleições mais renhidas da última década

As sondagens dão uma pequena vantagem ao Partido Trabalhista, mas é possível que nenhum partido alcance a maioria. Numa Austrália cada vez menos dividida em apenas dois campos ideológicos, os pequenos grupos populistas e de extrema-direita vão ganhando apoio.

Bill Shorten, líder do Partido Trabalhista, de centro-esquerda
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Bill Shorten, líder do Partido Trabalhista, de centro-esquerda Reuters/STRINGER

Ao fim de seis anos de uma governação de centro-direita na Austrália, marcada por divisões internas no Partido Liberal, uma economia em passo lento e políticas de imigração cada vez mais restritivas, os eleitores australianos parecem dispostos a devolver o poder ao centro-esquerda nas eleições legislativas deste sábado.

Pelo menos é essa a tendência das sondagens, ainda que a distância entre os dois maiores partidos seja tão curta que ninguém arrisca fazer apostas no jogo das certezas absolutas.

O cenário de grande incerteza pode também levar a um beco sem saída quando as previsões iniciais forem anunciadas, a partir das 20h de sábado (hora local, 11h da manhã em Portugal continental): é possível que tudo acabe num parlamento sem nenhuma maioria e com pouca vontade de fazer acordos.

E se isso acontecer, será apenas a terceira vez que em quase 120 anos que a Câmara dos Representantes australiana arranca sem uma maioria – ou do Partido Trabalhista (centro-esquerda) ou da velha coligação entre o Partido Liberal e o Partido Nacional Australiano (centro-direita).

Surpresas de última hora

Nos últimos dias da campanha eleitoral, a discussão sobre os grandes temas deu lugar a dois casos que podem ter influência na hora do voto, e que servem para ilustrar o actual ambiente conturbado na política australiana.

Num momento em que se discutia as propostas fiscais muito distintas dos dois maiores partidos – o corte de impostos do centro-direita contra o aumento dos gastos sociais do centro-esquerda –, o Partido Trabalhista viu-se no centro de uma campanha de desinformação amplificada pela extrema-direita. Nas redes sociais multiplicaram-se as acusações de que um governo trabalhista iria aplicar uma taxa de 40% sobre as heranças – uma proposta que não está no programa dos trabalhistas e a que o partido chamou “fake news”.

Mas é impossível saber que impacto terá este caso nas eleições, como salientou a editora de política australiana no jornal Guardian, Katharine Murphy: “Esta fake news está a circular muito pelo Facebook, aparentemente de forma orgânica, por isso não há muito a fazer. Se a refutam, estão a falar dela. Se não a refutam, ficam à mercê da invenção.”  

Do outro lado, o Partido Liberal viu-se no meio de um escândalo que abala a credibilidade do primeiro-ministro, Scott Morrison, perante o seu eleitorado anti-imigração.

Como ministro da Imigração e do Controlo das Fronteiras, entre 2013 e 2014, Morrison proibiu a entrada de barcos com requerentes de asilo em águas australianas e reforçou o plano de transferência dos que conseguem chegar a terra para centros de detenção em ilhas no Pacífico – uma política muito criticada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. No seu gabinete de primeiro-ministro, Scott Morrison tem um pequeno modelo de um barco de transporte de migrantes – com a inscrição “Eu parei estes”.

Mas na quinta-feira, o site norte-americano Politico revelou que o governo australiano fez um acordo secreto com os EUA, em 2016, que pôs o actual primeiro-ministro na defensiva nas últimas horas de campanha. Nesse acordo, a Austrália aceitou receber no país, como “imigrantes humanitários”, dois ruandeses acusados do assassínio de oito turistas no Ruanda, em 1999, incluindo dois cidadãos norte-americanos – o processo nos EUA chegou a um impasse quando um juiz norte-americano deliberou que os dois suspeitos, antigos membros de um grupo armado da maioria hutu, foram torturados no seu país.

O acordo foi feito pelo então primeiro-ministro, Michael Turnbull, mas o seu sucessor, Scott Morrison, viu-se obrigado a explicar que os dois ruandeses foram investigados de forma exaustiva antes de terem sido aceites – ao mesmo tempo que o seu governo se opõe à transferência de refugiados doentes dos centros de detenção no Pacífico para hospitais na Austrália, mediante uma avaliação de dois médicos aprovada por um painel de outros cinco médicos.

Eleitores de costas voltadas

Seja qual for o resultado das eleições de sábado, o maior problema político do país não vai desaparecer tão cedo. A desconfiança e a desilusão dos eleitores com os dois principais partidos, que tem aberto caminho ao aparecimento de pequenas formações e candidatos populistas, nunca foram tão vincadas desde o fim da II Guerra Mundial.

Numa sondagem feita antes das últimas eleições legislativas, em 2016, 40% dos quase 3000 inquiridos disseram que estão descontentes com a democracia australiana; 56% disseram que o governo do país apenas responde a um punhado de grandes interesses; e 74% disseram que os políticos no governo “só querem cuidar de eles próprios”.

A desilusão de muitos eleitores, num sistema que garante uma grande afluência às urnas porque o voto é obrigatório sob pena de multa, agravou-se na última década.

Em 2010, os trabalhistas só conseguiram maioria com o apoio de independentes e dos Verdes, uma solução de recurso que nunca tinha acontecido nos 70 anos anteriores, desde 1940.

E depois disso, o cenário ficou ainda mais complicado para o histórico bipartidarismo australiano. Desde 2010, o país já teve cinco primeiros-ministros, incluindo uma troca de chefes de governo na coligação de centro-direita, em Agosto do ano passado, quando Scott Morrison substituiu Malcolm Turnbull no auge de uma luta interna pela liderança do Partido Liberal.

No sábado, as atenções vão estar centradas na Câmara dos Representantes, onde a coligação de centro-direita agarrou a maioria à tangente em 2016, com os 76 lugares necessários para se governar sozinho na Austrália.

As sondagens indicam que o governo do primeiro-ministro Scott Morrison está em risco, e que os trabalhistas de Bill Shorten podem recuperar sete deputados e garantir os mágicos 76. Mas os analistas aconselham muita cautela.

“Há coisas que só podemos perceber na noite de sábado”, disse o director da empresa de sondagens Essential, Peter Lewis, num artigo publicado no jornal Guardian. “Ainda que os progressistas [trabalhistas] devam pôr o champanhe no gelo, também devem ter à mão algum whisky, à cautela.”