Luís Bittencourt
Foto
Luís Bittencourt DR

Luís dá música aos desafios contemporâneos com um quarteto de lixo

Luís Bittencourt, artista brasileiro naturalizado português, quer o público a reflectir sobre questões como a globalização, a sustentabilidade, a política ou a economia, recorrendo apenas “àquilo que tem à mão”. Ciclo de concertos “Sons de Resistência” arranca em Coimbra.

“A música e a arte possuem a capacidade de atingir lugares na mente humana que a opressão não alcança”: quem o diz é Luís Bittencourt, músico que pretende chegar a estes lugares com o ciclo de concertos “Sons de Resistência”. Os espectáculos estreiam-se no Convento de São Francisco, Coimbra, a 16 de Maio, esta quinta-feira, pelas 21h30, e seguem para Braga, mais precisamente para o Theatro Circo, nos dias 18 e 20 de Maio. A última paragem é no Porto, a 24 de Maio, no Solilóquios​. Neles, o artista vai servir-se de um quarteto de lixo (formado por um bidão de combustível, uma palete de madeira, sacos plásticos e garrafas de refrigerante) para esbater as barreiras que separam os sons musicais de sons não musicais e a música do ruído.

Promover formas de resistência e instigar reflexões em torno dos alicerces disfuncionais que servem de base à actual sociedade, minada “pelos problemas sociais e pelas formas de opressão” existentes, é o objectivo de Luís. Para contrariar este estado, o artista sugere “novas produções de significados” que terminem com a “segregação de pessoas e culturas” e anulem a “opressão das identidades padronizadas”.

Dar vida a todas estas questões no palco pode parecer, à primeira vista, uma missão complicada. Para a simplificar, o brasileiro naturalizado português recorre  tal como tem sido hábito ao longo da sua carreira  a “instrumentos” tão insuspeitos como a água, fonte sonora percussiva. Os materiais e objectos referidos, usados e conhecidos a nível global, são os únicos elementos cénicos que transportam o público para as problemáticas que Luís pretende abordar, deixando a interpretação entregue “à subjectividade”. “Se eu compusesse canções, teria o artifício da letra para me ajudar a passar a mensagem. No caso da música instrumental, isso é um pouco mais difícil porque é atingido um grau de subjectividade mais profundo. A interpretação vai depender muito da predisposição do espectador.”

PÚBLICO -
Foto
Luís Marques

No que diz respeito às obras que vão ser interpretadas, estas são da autoria dos compositores Gabriel Prokofiev (Inglaterra), Pedro Junqueira Maia (Portugal) e Tan Dun (China). O primeiro emprestou ao também compositor luso-brasileiro Import/Export: Percussion Suite for Global Junk, a novidade do reportório proposto por se tratar da primeira vez que a peça é apresentada em Portugal. Esta, com uma extensão de 35 minutos divididos por sete movimentos, destaca-se pelo uso de processamento sonoro em tempo real. Trata-se de uma técnica que consiste na “captação dos sons, obtidos através da manipulação dos objectos, pelos microfones para posteriormente serem processados no computador” durante a performance. Este elemento confere uma vertente electrónica ao espectáculo, por via do processamento sonoro digital, que contraria a acústica dos outros instrumentos. Para além disso, o público fica perante uma maior variedade sonora proporcionada pela manipulação dos sons emitidos pelo quarteto de objectos-lixo.

O papel de Luís, não como artista mas como cidadão, fica mais perto de estar completo com a dinamização de iniciativas como “Sons de Resistência”. “Eu, cada vez mais, tenho pensado em usar o tipo de arte que faço para consciencializar as pessoas e tentar contribuir para um mundo melhor.” O alheamento do mundo das artes, na figura dos artistas, face às questões políticas e sociais é um perspectiva limitada na visão do percussionista, que vê a política como “uma espécie de convidado penetra que nós evitamos”. “Mas, quando vamos a ver, ele já está presente na nossa vida sem sequer ter pedido autorização para entrar.”

A questão da sustentabilidade entrou de forma ainda mais marcada na vida de Luís Bittencourt em 2009, durante um mestrado em Música centrado na utilização da água no reportório de percussão. A pesquisa que realizou despertou-o para a utilização, preservação, limitação e o acesso à água. Afinal de contas, “nós abrimos a torneira e estamos a consumir microplásticos”. Neste sentido, é com atenção e “choque” que o músico vê a actual situação do Brasil. “Nunca foi um país excelente nas áreas da educação e da saúde, por exemplo, mas estava num bom caminho há uns anos. Agora as coisas estão a ir para o fundo do poço e é difícil para mim, mesmo estando a viver em Portugal, não acompanhar e lamentar o que está a acontecer.”