A Companhia Nacional de Bailado à procura do transe e da invisibilidade

A companhia estreia esta quinta-feira, no Teatro Camões, duas novas criações: Victor Hugo Pontes propõe um momento de alienação em Madrugada, Rui Lopes Graça e João Penalva insinuam uma história oculta em Annette, Adele, e Lee.

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Não custa ver em Madrugada, de Victor Hugo Pontes, um cenário de discoteca HUGO DAVID

Victor Hugo Pontes mandou tapar os espelhos da sala de ensaios da Companhia Nacional de Bailado (CNB). Ao entrar no Teatro Camões, a fim de coreografar de novo para a CNB (aconteceu pela primeira vez em 2016, com O Carnaval dos Animais), levava consigo uma única ideia de base: incentivar estes bailarinos, “muito habituados a serem intérpretes dos outros, a dançarem para si mesmos”. “Quis pô-los em transe, num estado de alienação, de não-consciência”, explica ao PÚBLICO. É daí que parte Madrugada, peça que a CNB apresenta de 16 a 19 de Maio no Teatro Camões, em Lisboa, num programa partilhado com Annette, Adele, e Lee, de Rui Lopes Graça e João Penalva – passa depois pelo Teatro Municipal Joaquim Benite, Almada, a 25 de Maio.

Num cenário de escuridão em que não custa ver a recriação de uma discoteca, 13 bailarinos estão entregues a uma dança fechada sobre si, livre de movimentos do ballet clássico, deixados à solta, de olhos cerrados, a seguir apenas o prazer do momento. Dançam como se ninguém os estivesse a ver, livram-se de constrangimentos sociais, abandonam-se àquilo que Victor Hugo Pontes entende como um conjunto de solos interpretados em simultâneo, em que ninguém procura o protagonismo, apenas segue uma rota de hedonismo individual. “É um contexto social em que se sai para dançar com os outros, mas em que se acaba a dançar sozinho. O final da noite é sempre sozinho”, descreve o coreógrafo.

Esse isolamento, no entanto, não é constante. Ao longo de Madrugada, todos eles se envolvem com os outros, criam relações efémeras, procuram usar o corpo para despertar o desejo e a ele ceder, mas tudo é efémero e surge embrulhado numa aura de sonho. Para Victor Hugo, é isso que se passa na noite – “nunca se sabe se aquilo aconteceu ou não, como aconteceu”. Madrugada constrói, portanto, um espaço de ilusão. Quando as luzes estão baixas, quem está em redor pode parecer infinitamente mais atraente, a sala onde se dança pode tomar a forma de um lugar mágico. Só a claridade final põe à mostra a realidade, por mais suja e desinteressante que possa, afinal, ser. “Interessava-me também jogar com essa camada”, admite.

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Composta a partir de improvisações dos bailarinos que Victor Hugo Pontes dirigiu durante os ensaios, procurando extrair deles algo mais “mais livre e emotivo” do que aquilo que o reportório da CNB costuma exigir-lhes, Madrugada põe em cena as 13 viagens mentais em que cada um dos intérpretes embarca para atingir o tal estado de transe. Um transe que se estica numa peça que, para Victor Hugo Pontes, não tem início nem fim. Cada um vem já de um dia longo e ao dia regressará depois de as luzes se acenderem.

O som dos movimentos

Annette, Adele e Lee são os nomes de três bailarinos de sapateado que nunca vemos durante a peça de Rui Lopes Graça e João Penalva. Mas ouvimo-los o tempo todo. E, se não os vemos realmente, quase podemos imaginá-los a dançarem sobre o elenco da CNB, que executa uma coreografia de inspiração clássica sob o tropel do som produzido pelos pés daqueles três. São os seus nomes que baptizam esta nova parceria entre Lopes Graça e Penalva porque, diz este último (artista plástico com um passado na dança, enquanto bailarino de Pina Bausch e Gerhard Bohner), “eles é que começaram o processo”. E os dois criadores quiseram lançar esta pista na direcção do público, para que adira ao exercício de imaginação que consiste em fantasiar os movimentos destes três bailarinos que apenas se ouvem – enquanto o elenco da CNB apenas se vê.

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Depois de terem colaborado, em 2016, numa anterior peça para a CNB, Quinze Bailarinos e Tempo Incerto (que em Junho será apresentada na China), Rui Lopes Graça e João Penalva quiseram voltar a uma premissa não-narrativa e abstracta, mas escolhendo como ponto de partida a gravação destes bailarinos de sapateado realizada por David Cunningham especificamente para o espectáculo. A ideia foi, desde logo, alimentar esse jogo entre visibilidade e imaginação, entre clássico e popular, entre som e movimento. “Sem qualquer ligação, correspondência ou citação coreográfica do sapateado”, diz João Penalva.

Assim, ainda que voltem a dispensar a narrativa nesta parceria criativa em que não é exactamente claro quem faz o quê – “os territórios não são delineados e cruzamo-nos em tudo o que fazemos”, diz Lopes Graça, acrescentando que, às tantas, já nem sabem quem surgiu com determinada ideia –, Annette, Adele, e Lee propõe uma história. Uma história oculta, desses bailarinos que ficam na sombra e para os quais temos de criar corpos, rostos, gestos, como se pairassem o tempo todo sobre a coreografia que acompanhamos, desenhada com absoluto rigor, no palco.