O perigo de os abstencionistas serem recrutados por discursos de ódio

Coordenador do estudo sobre a abstenção nos Açores diz que é mau para a região perder representatividade no Parlamento Europeu e afirma que se tem de fazer apologia da democracia todos os dias, e não só por altura das eleições.

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Ponta Delgada RPS Rui Soares - colaborador

Álvaro Borralho, coordenador do estudo sobre a abstenção nos Açores, afirma que a região não apresenta uma realidade muito diferente da do resto do país no que respeita às características da abstenção. Uma realidade nacional, apontada por diversos estudos, é que quem está mais próximo da política e tem níveis mais elevados de escolaridade vota mais. Já os mais desfavorecidos e com menor escolaridade tendem a não participar

“Há uma tendência que é igual e que se acentua no número de abstencionistas pelo facto de os Açores manterem alguns locais com dinâmicas de subdesenvolvimento. Por isso é que, quando chegamos a sítios onde a pobreza é muita, a abstenção também é muita. Esses factores contribuem decisivamente. E não é só a pobreza de rendimentos, é também a pobreza de recursos sociais”, diz o professor do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade dos Açores, que tem como uma das áreas de investigação a participação política.

Álvaro Borralho aceitou analisar a situação eleitoral dos Açores sem fazer qualquer referência ao estudo sobre abstenção que coordenou, por este ser pertença do Parlamento Regional que ainda não o revelou publicamente. A conversa também decorreu antes de o PÚBLICO ter acesso ao referido estudo.

Os Açores são uma das regiões portuguesas que mais tem beneficiado dos fundos comunitários, até porque faz parte das Regiões Periféricas e Marítimas da Europa (CRPM). Só entre 2014 e 2020 a região terá acesso a uma verba que ronda 1,5 mil milhões de euros. Uma boa parte desta verba vai para o investimento público.

Não seria esta, só por si, razão para levar mais os açorianos a participar nas eleições europeias? Álvaro Borralho acha que não: “Em primeiro lugar não é líquido que toda a gente saiba isso, sobretudo os que mais se abstêm. A informação não chega a todos. A Europa ainda é muitas vezes uma realidade distante, muitas vezes até para pessoas informadas.”

E este distanciamento da União Europeia tem também a ver, segundo o sociólogo, com o facto de, após a integração, os portugueses verem “a Europa como um saco de dinheiro, e não como um espaço de integração política e de afirmação de cidadania”. “Que nós estamos ali de pleno direito e que aquilo não é apenas uma coisa para mandar dinheiro. Fez-nos falta um certo cosmopolitismo. Os partidos e a governação do país, logo após a integração, quiseram acentuar sobretudo os fundos, e não o espaço político”, acrescenta.

Borralho encontra ainda outras razões para o afastamento dos portugueses dos actos eleitorais, em especial nas europeias: “A primeira vez que tivemos eleições para o Parlamento Europeu, em 1987, foi no dia em que o PSD ganhou a primeira maioria absoluta para o Parlamento nacional. Nessa campanha a questão europeia estava completamente subsumida nas questões nacionais. Agora, nesta campanha, muitas das questões europeias estão mais uma vez subsumidas nas questões nacionais. Isto não chama a pessoas às urnas, confunde-as.”

Nos Açores, em especial na ilha de São Miguel, o dia da ida às urnas, tal como há quatro anos, coincide com o dia grande das festas do Santo Cristo, que reúne milhares de pessoas. “A maior parte das secções de voto está no centro de Ponta Delgada e o centro da cidade está encerrado quase todo o dia para deixar passar a procissão. Além de vir gente de toda a ilha, algumas com dias de antecedência”, conta  

O investigador imputa também algumas responsabilidades aos políticos pelo afastamento das eleições europeias em especial e dá um exemplo. “Os Açores têm tido, tradicionalmente, dois representantes em lugares elegíveis [nas listas de PS e PSD], o que é importante. Quando a região perde alguma representação, isso é algo que afecta a região como um todo. Algumas pessoas já tendem a ver a Europa como uma coisa que está longe, quando a sua região perde representatividade mais longe fica”, afirma.

Recorde-se que, para estas eleições europeias, o PSD optou por não colocar nenhum candidato açoriano num lugar seguramente elegível, o que pode fazer com que só o PS tenha um representante da região no Parlamento Europeu.

Álvaro Borralho diz ainda que a recente crise económica pela qual Portugal passou “também não ajudou a aumentar a participação política das pessoas”. “Nós não participamos mais por descontentamento, por protesto, mas sim pelo sentimento de recompensa. Quase como se fosse uma vingança contra os políticos. Tipo não obtive o quis, então também não vou votar.”

Para mudar o estado das coisas, diz o sociólogo, “tem de haver uma apologia da democracia todos os dias, e não só por altura das eleições: “Vivemos numa democracia representativa, mas os partidos têm de incorporar mais formas de participação das pessoas. Os políticos têm de prestar mais contas às pessoas. Adequar a linguagem para certos públicos. Uma pessoa com o ensino superior percebe o que é o PIB, mas uma pessoa com a 4.ª classe não. Temos que voltar a incentivar o voto. Acho que a solução não é voto obrigatório, porque acabaria por penalizar aqueles que já estão mais penalizados, mas levar a cidadania às pessoas.”  

Até que ponto é que abstenções de 80% beliscam a democracia? “Institucionalmente, nada. A eleição é legítima, nem que fosse só uma pessoa a votar”, responde Álvaro Borralho.

Há, porém, outros perigos: “Pode ser muito arriscado termos taxas de abstenção muito elevadas para todas as eleições, numa altura em que surgem cada vez mais partidos nacionalistas ou populistas, ou as duas coisas, com uma mensagem muito simples e geralmente de ódio. Porque o problema não é só as pessoas não votarem, é a sua despolitização. Não perceberem o que está em causa. E, de repente, porque têm um cartão que lhes permite legitimamente votar, serem recrutadas para alguns discursos perigosos como os que estamos a ouvir em alguns sítios.”

Marcelo, Soares e César são os mais “populares”

O inquérito do estudo do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade dos Açores para o parlamento regional pediu aos inquiridos que indicassem as três personalidades nacionais e as três internacionais com quem mais se identificavam. “Não sabe/não responde” foi, de longe, a principal escolha dos açorianos para os dois casos, com esta resposta a chegar perto dos 80%.

Entre os que apontaram personalidades nacionais, o mais indicado foi Marcelo Rebelo de Sousa que recebe 6%, seguido de Mário Soares, com 2,5% e Carlos César com 2,1%. Com valores mais baixos, surgem António Costa, 1,9%, e Vasco Cordeiro, com 1,7%.

A nível internacional a escolha com o valor mais elevado foi a de Barack Obama (11,4%), seguido de Angela Merkel (1,5%) e do português Durão Barroso (1,3%.)