João Ferreira desafia PS, PSD e CDS: vão votar a favor do orçamento que corta fundos a Portugal?

Caravana da CDU está no distrito de Évora. João Ferreira critica as “lágrimas de crocodilo” dos candidatos que lamentam o abandono do interior mas contribuem para aprovar projectos como a linha de comboio Sines-Caia que não tem estação nem plataforma de carga na zona alentejana dos mármores.

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João Ferreira recebeu um grande envelope com as assinaturas de trabalhadores das pedreiras das redondezas que apoiam a CDU LUSA/NUNO VEIGA

Perante o “carpir de mágoas” e as “lágrimas de crocodilo” que os candidatos do PS, PSD e CDS não se cansam de deitar pelo abandono do interior e as acusações cruzadas sobre quem é que geriu da pior forma os fundos comunitários, o candidato da CDU lança-lhes um desafio. João Ferreira quer que Pedro Marques, Paulo Rangel e Nuno Melo digam, antes das eleições de dia 26, se vão votar a favor do próximo orçamento que vai cortar novamente nos fundos de coesão para Portugal – desta vez em 7%.

“Já lhes fizemos desafio: que assumam o compromisso do que tencionam fazer sobre o orçamento que prevê um corte para Portugal”, apela o candidato comunista. E garante: “Nenhum orçamento que representa um corte nas verbas para Portugal terá o voto dos deputados da CDU. Mas continuamos à espera da resposta de PSD, PS e CDS que clarifique agora qual vai ser a sua posição.”

Mas João Ferreira não tem grandes expectativas: “Quem aprovou sucessivamente quadros financeiros plurianuais que cortaram verbas… percebemos qual a posição que tencionam tomar.”

“Há anos que Portugal leva cortes – o actual, que vai até 2020, foi de 10%; o que ia até 2013 foi de 14%. Há décadas que três partidos se juntam no Parlamento Europeu para aprovar os orçamentos que determinaram esses cortes. E agora estão todos preocupados e fazem acusações uns aos outros sobre quem fez mais cortes. Têm razão quando se dizem uns aos outros que geriram mal”, apontou João Ferreira num almoço na aldeia de Bencatel, no concelho de Vila Viçosa.

A zona tem sofrido com a crise da construção desde há uns 15 anos. A exploração de mármores caiu bastante, o desemprego e a precariedade aumentaram, os mais jovens procuraram outras paragens. A zona saltou para as notícias em Novembro, quando parte da estrada que liga Vila Viçosa a Borba que passa entre as pedreiras ruiu e arrastou consigo duas viaturas e provocou a morte de cinco pessoas – três delas moravam precisamente em Bencatel.

Na primeira incursão ao Alentejo na fase de campanha eleitoral, João Ferreira almoçou com algumas dezenas de apoiantes num pequeno restaurante de Bencatel e recebeu um grande envelope com as assinaturas de trabalhadores das pedreiras das redondezas que apoiam a CDU. Lembrou que o PCP conseguiu fazer aprovar na Assembleia da República, no orçamento deste ano, uma reivindicação antiga para a antecipação da idade de reforma dos trabalhadores das pedreiras e serrações de pedra, com um regime igual ao dos trabalhadores das minas e das lavarias de minério. Mas esqueceu-se de mencionar o acidente de Novembro e a falta de segurança em que laboram muitas das pedreiras alentejanas.

O eurodeputado vincou que estas medidas de antecipação das reformas vão contra as recomendações da União Europeia de não se criarem novos regimes de acesso à reforma antecipada, de aumento da idade da reforma e da duração das carreiras contributivas. “Conseguimos dar condições de justiça para os que têm um trabalho particularmente penoso. Vale a pena a luta”, insistiu.

“Só não levaram os cemitérios”

A ida de João Ferreira a Bencatel, a escassos 20 quilómetros em linha recta da fronteira com Espanha, tinha sobretudo como enfoque o esquecimento a que o interior tem sido votado. “Nestas alturas [de eleições] é comum ouvirmos muitos discursos sobre o interior, muita gente a carpir mágoas e a chorar lágrimas de crocodilo. Alguns dos que o fazem deixaram o interior ao abandono e promoveram o despovoamento. Não canalizaram para aqui os recursos necessários ao desenvolvimento da região”, acusou o candidato.

O comunista defendeu que Portugal “não é um país pobre, foi empobrecido pelos sucessivos governos; mas os recursos estão lá”. E criticou: “Às vezes só faltou levarem os cemitérios - e não o fizeram porque não conseguiam. Levaram a escola, o centro de saúde, as freguesias, os correios, os centros de distribuição postal. Levaram tudo isso e agora vêm chorar lágrimas de crocodilo e fazer o discurso de carpir mágoas?!? Não é desses que podemos esperar uma resposta diferente da que deram durante tantos anos.”.

Para contrariar a ideia dos que dizem que as eleições europeias são “algo distante da vida de todos os dias”, João Ferreira afirmou que as populações do interior, como do concelho de Vila Viçosa, “confrontam-se diariamente com as políticas decididas no Parlamento Europeu”. Um exemplo? Os fundos para a ferrovia, como a da ligação Sines-Caia, que “se esqueceu das populações” ao não prever para Vila Viçosa uma estação e um cais de embarque para mercadorias nesta zona dos mármores.

Os fundos europeus têm que ser orientados consoante as necessidades de cada país – e as de Portugal serão com certeza diferentes das da França ou da Alemanha, apontou o candidato, dizendo que foi isso que os eurodeputados da CDU fizeram ao proporem alterações aos regulamentos destinados a Portugal – mas que os deputados do PSD, do PS e do CDS ajudaram a chumbar.

A somar a isso está a questão do deve e haver do que Portugal paga e recebe da União Europeia. João Ferreira salientou que o país recebe diariamente dez milhões de euros de fundos comunitários, mas paga 20 milhões de euros pela dívida – “em sete anos recebe 25 mil milhões de euros (no actual programa de fundos) mas pagará só em juros 60 mil milhões a países da União Europeia”.