Um ano depois do ataque a Alcochete: o terror, a debandada e a recuperação

Nove jogadores rescindiram após o ataque a Alcochete, três regressaram, mas os prejuízos materiais e desportivos hipotecaram muitas das ambições do Sporting para esta temporada.

Um dos detidos após o ataque à Academia do Sporting
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Um dos detidos após o ataque à Academia do Sporting LUSA/RUI MINDERICO

Foi com um misto de terror e irrealismo que os jogadores, equipa técnica e outros elementos do staff “leonino” assistiram impotentes ao ataque à Academia de Alcochete, no final da tarde do dia 15 de Maio de 2018. Depois das agressões no exterior das instalações, os 41 “invasores” irromperam pelo balneário, onde lançaram tochas e prosseguiram com a violência. No final, ficou um rasto de destruição e vários feridos, que levantaram uma onda de indignação nacional. Foi um dia de vergonha para o Sporting. E as consequências não tardaram a surgir com uma catadupa de rescisões unilaterais que deixaram o clube à beira do colapso financeiro e desportivo.

O polémico presidente Bruno de Carvalho (que é um dos 44 acusados neste processo) foi prontamente apontado pelas vítimas como responsável moral por este acto bárbaro. Nas semanas anteriores, o então líder “leonino” envolvera-se numa acesa guerra de palavras com os jogadores e equipa técnica. Um braço-de-ferro que muitos apontam como o factor que precipitou o ataque dos elementos mais radicais, ligados à claque Juve Leo, descontentes com os resultados desportivos da equipa principal.

A reacção dos jogadores foi fulminante e fatal para o anterior presidente. Nove jogadores fizeram chegar cartas de rescisão, alegando justa causa, entre eles alguns dos principais activos do plantel: Rui Patrício, Daniel Podence (que foi vítima de um dos episódios mais caricatos deste ataque, ao ser enfiado dentro de um cacifo do balneário), Gelson Martins, Bruno Fernandes, William Carvalho, Bas Dost, Rodrigo Battaglia, Rúben Ribeiro e Rafael Leão.

Impotente para travar as saídas, Bruno de Carvalho acabou por ser afastado da presidência, rendido por uma comissão de gestão, que procurou minimizar o desastre e preparar a nova temporada. Dos nove elementos do plantel, os novos responsáveis conseguiram inverter as saídas de Bruno Fernandes (que ainda é hoje o maior activo do plantel), Bas Dost e Rodrigo Battaglia. Para os convencer a regressar, a Sociedade Anónima Desportiva (SAD, que gere o futebol profissional) teve de abrir os cordões à bolsa e avançar com 5,6 milhões de euros.

Posteriormente, conseguiu-se também chegar a acordo com Rui Patrício (que entretanto assinara pelo Wolverhampton, de Inglaterra) e William Carvalho (que seguiu para o Betis, de Espanha). No primeiro caso, os “leões” receberam 18 milhões de euros e no segundo 16. Já esta terça-feira, a SAD do clube conseguiu chegar a acordo com o Atlético de Madrid, para onde se transferiu o jovem Gelson Martins, antes de ser emprestado ao Mónaco. O negócio irá render perto de 22,5 milhões de euros aos cofres de Alvalade.

Já com a presente temporada em curso, as eleições no clube (Setembro do ano passado) levaram Frederico Varandas, antigo médico da equipa, à cadeira presidencial. Para render o treinador Jorge Jesus, uma das vítimas dos “encapuçados” de Alcochete, que chegou a acordo para a sua saída nos derradeiros dias de Bruno de Carvalho, foi escolhido o experiente José Peseiro. Teve o mérito de recuperar um plantel deprimido e desmotivado, mas alguns desaires no arranque da temporada, acabaram por ditar a sua saída.

Expectativas superadas

Varandas surpreendeu com a opção para o banco: o relativamente desconhecido técnico holandês Marcel Keizer. A verdade é que as expectativas para esta temporada acabaram por ser superadas, face ao cenário dantesco do final da anterior. A equipa ainda prometeu lutar pelo título, conquistou a Taça da Liga e está na final da Taça de Portugal, tendo chegado à penúltima jornada do campeonato, no último fim-de-semana, com hipóteses de alcançar o segundo lugar. Mas o último posto do pódio, já assegurado, acabou por ser um mal menor.

Em termos criminais, o Ministério Público constituiu 44 arguidos neste processo, 37 dos quais em prisão preventiva há quase um ano. No total são 4441 crimes de sequestro, ofensas à integridade física qualificada, ameaça agravada (classificados como terrorismo), detenção de arma proibida, dano de violência, entre outros.

Bruno de Carvalho e Bruno Jacinto, antigo Oficial de Ligação aos Adeptos, são acusados de 98 crimes cada um. Também o líder da Juventude Leonina Nuno Mendes, conhecido por Mustafá (que não esteve pessoalmente presente na invasão), está acusado de 99 crimes.

Mais de uma dezena dos arguidos (entre os quais o ex-presidente) requereram a fase de instrução (uma espécie de pré-julgamento), cujo início voltou a ser adiado na última segunda-feira. Um novo incidente de recusa de juiz, o terceiro neste processo, levou o magistrado Carlos Delca a adiar pela segunda vez o início dos trabalhos.