Henrique Pavão, um artista inquieto no MAAT

Henrique Pavão é um dos protagonistas da exposição do Prémio Novos Artistas Fundação EDP que inaugurou esta quarta-feira no MAAT, em Lisboa. Até Junho, o PÚBLICO apresenta os seis finalistas.

Henrique Pavão, Isabel Madureira Andrade, AnaMary Bilbao, Dealmeida Esilva, Mónica de Miranda e Diana Policarpo: os seis finalistas da 13.ª edição do Prémio Novos Artistas Fundação EDP são os protagonistas da exposição que inaugurou hoje, 15 de Maio, no Museu de Arte Arquitectura e Tecnologia (MAAT)​, em Lisboa.

Os finalistas apresentam obras inéditas e foram seleccionados, entre mais de 530 candidatos, pelos curadores Inês Grosso, Sara Antónia Matos e João Silvério. O vencedor será anunciado no início de Julho — ainda sem data oficial, de acordo com a instituição — por um júri internacional cuja composição será anunciada na próxima semana.

Delfim Sardo, que já foi comissário do Prémio Novos Artistas Fundação EDP em anos anteriores — com reconhecimento de artistas como Joana Vasconcelos, Leonor Antunes, João Maria Gusmão e Pedro Paiva ou Gabriel Abrantes —, sublinha a relevância do galardão e o seu impacto na carreira dos artistas, bem como o seu significado no panorama artístico português. “Neste momento, tendo a EDP um espaço museológico, eu acredito que essa importância sai ainda reforçada”, acrescenta o curador.

Para Delfim Sardo, a lista dos vencedores é indicativa da inserção institucional e desenvolvimento de carreira daqueles que alcançaram o reconhecimento: “Desde João Maria Gusmão e Pedro Paiva, passando pela Joana Vasconcelos ou Leonor Antunes, são todos artistas que têm tido uma carreira impressionante, em termos nacionais e internacionais. É um prémio que tem efectiva consequência, mesmo para aqueles que são short-listed”, diz o ensaísta, professor e curador responsável pelas exposições da Culturgest.

Essa visibilidade é ampliada pela escolha dos membros dos júri internacionais, habitualmente composto por curadores e críticos de arte “com importância e com peso”, o que permite, frisa Delfim Sardo, “uma exposição importante aos artistas, em termos do que é a massa crítica internacional”. Acrescenta, ainda, que “não é um prémio que tenha só uma consequência portuguesa, é um prémio que acaba por se vir a reflectir em termos internacionais”.

Experiências nórdicas

Henrique Pavão tem 27 anos e vem de Escultura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa​. Depois da formação universitária, procurou um programa de mestrado prático, focado no trabalho em atelier e na partilha com outros artistas. Entre 2014 e 2016 foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e da Royal Academy of Arts de Estocolmo, fez mestrado em Artes Visuais na Malmö Art Academy, com o artista dinamarquês Joachim Koester, e expôs na KHM Gallery, em Malmö, na Suécia, onde venceu o prémio Edstrandska Stiftelsens Stipendium.

Ao PÚBLICO, diz que a sua jornada no Norte da Europa se revelou um “momento de mudança” a partir do qual passou a desenvolver temas de “perda, nostalgia, destruição e entropia”, que permeiam a sua obra. O jovem artista explora ideias e relações complexas que envolvem o tempo e o espaço, a duração e a efemeridade, adoptando vários formatos, como a fotografia, a escultura, o vídeo e a instalação — questionando a noção de perecimento.

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Henrique Pavão fez mestrado em Artes Visuais na Malmö Art Academy. Os dois anos que passou na Suécia foram "um momento de mudança" dr

Entre realidade e ficção

Já em Portugal, teve exposições individuais na galeria Uma Lulik, em Lisboa, com curadoria de Sérgio Mah, bem como na Culturgest Porto, com curadoria de Delfim Sardo, com quem também trabalhou quando participou na colectiva Anozero’17, da bienal de Coimbra.

A sua primeira exposição institucional, na Culturgest Porto, com curadoria de Delfim Sardo, era um trabalho site-specific, em diálogo com o edifício onde estava exposto. Montou uma instalação de 15 canais de vídeo composta por esculturas minimais de asfalto e madeira que sustentavam monitores a exibir um circuito de vídeo em tempo real e em loop.

O curador descreve Henrique Pavão como “um artista que tem uma consciência muito clara do rigor do trabalho que vai desenvolvendo, tem muito claras as linhas de trabalho que pretende desenvolver, e é um artista que tem uma inquietação que a mim me interessa”. Delfim Sardo destaca ainda a “poética muito própria” de Pavão e a sua “persistência e forma muito precisa como vai desenvolvendo os projectos”.

Now I Became Aged, a exposição individual na galeria Uma Lulik, com curadoria de Sérgio Mah, incluiu três trabalhos: um vídeo a preto e branco, que deu nome à mostra; uma projecção de slides de 35 mm, acompanhada por uma peça sonora gravada em vinil, The Future is but the Obsolete in Reverse; e sete imagens de pedras, To Erase Time One Requires Mirrors, Not Rocks — a mostra, no seu conjunto, explorava os limites entre realidade e ficção.

Ligações que se vão descobrindo

Em relação ao prémio para o qual é finalista, o artista ecoa as declarações de Delfim Sardo: “[vencedores anteriores] conseguiram construir uma carreira sólida, e isso diz muito [sobre o prémio]”. Encara a selecção como oportunidade para voltar a trabalhar com uma instituição e “com meios a que, geralmente, artistas mais novos não têm acesso”. Diz que Inês Grosso, da equipa de curadores, foi uma figura presente cujo apoio, pela troca de ideias e pelo acompanhamento, foi parte importante do processo e “valorizou muito o trabalho”.

“É uma obra nova, mas há sempre referências anteriores”, diz o artista. Nesta mostra, dá continuidade a uma investigação artística anterior, havendo sempre “ligações que se vão descobrindo e abrindo caminhos”.

A sua instalação lida com algumas das questões que Henrique Pavão tem vindo a explorar: “A fetichização pela destruição e pela perda, e uma mistura temporal entre vários elementos, neste caso um hotel e uma zona arqueológica” no México.

A instalação que apresenta parte de um levantamento feito no decorrer de uma viagem durante a qual passou pela Cidade do México, por Teotihuacan (um arcaico centro urbano na Mesoamérica pré-colombiana) e pelo Hotel Palenque — que reflecte a sua relação com o trabalho do artista norte-americano Robert Smithson, que fotografou o hotel durante uma viagem ao México em 1969.

Robert Smithson começa por ser importante para Henrique Pavão pelos seus textos, até mais do que pela obra, sobre “destruição e entropia”, algo que Pavão também explora. Smithson pertence a um grupo de artistas que deixaram a prática de atelier e se aventuraram no exterior no encalce da land art, o que “atrai profundamente" Pavão porque "não deixam de ser actos de destruição”.

O finalista explica que, na concepção e construção da obra feita para o Prémio Novos Artistas, utilizou vários suportes: “Do som, da imagem projectada (ou da não-imagem, também), da luz, do filme... e não deixa de ter uma presença escultórica”.

A instalação é composta por dois grupos, brincando com noções de tempo e destruição. Um grupo é composto por uma dupla projecção de slides, com 31 slides cada um. Um dos projectores mostra uma mapa de Teotihuacan, outro, uma imagem da Pirâmide do Sol, fotografada pelo artista. A projecção é sincronizada e o artista utilizou uma técnica de “queimada dos slides”: à medida que o slideshow passa, quem observa vai vendo o processo de destruição da imagem do mapa, sendo que o inverso acontece com a imagem da pirâmide. Simultaneamente, um gira-discos que toca um vinil em silêncio amplifica “a respiração dos projectores e a mudança de slide para slide”, indica o artista.

Noutro grupo, há uma outra projecção que sofre a mesma amplificação sonora do gira-discos. A diferença é que a imagem é a do Hotel Palenque, que se vai destruindo ao longo da exposição. Ao contrário do primeiro grupo, esta não é uma imagem que Henrique Pavão manipule mas antes uma imagem em contínua destruição pela luz do projector — e projectada numa laje de betão. “A imagem vai sofrendo alterações e o slide vai-se apagando ao longo da exposição”, embora o resultado final ainda esteja “em aberto”, avisa o artista.

Pavão aprofunda a sua utilização do hotel detalhando como, quando o visitou, Robert Smithson testemunhou o mesmo processo que ocorria nas ruínas de Teotihuacan: havia sempre “partes em ruína, em desconstrução, e partes em construção” ou reconstrução.

“O meu intuito quando escolho o hotel como um destino da minha viagem de pesquisa é o mesmo com que escolho a pirâmide. Eu vejo o hotel quase como se fosse um monumento, porque Smithson mo mostra como se fosse um monumento. E visito o hotel com o mesmo ímpeto com que visito as pirâmides de Teotihuacan”, explica o artista.

O equipamento que usa, geralmente analógico, obedece a uma opção “completamente funcional”, uma vez que “todos os suportes são veículos para chegar a uma ideia, para materializar essa ideia”, diz o artista.

“Esse equipamento permite-me resultados que o digital não me permitiria, como a perda da própria imagem. São equipamentos muito temporais e muito frágeis que, no fundo, também se relacionam com esse lado efémero do meu trabalho, que não deixa de ser bruto, mas é frágil ao mesmo tempo”, diz o artista.

A exposição do Prémio Novos Artistas Fundação EDP é inaugurada durante a feira internacional de arte contemporânea ARCOLisboa, e fica patente até Outubro deste ano, na galeria da Central 1, do MAAT.

A série de apresentação dos finalistas do Prémio Novos Artistas tem o apoio