Opinião

Pelo mar fora, pela terra adentro

O que façamos em terra sentir-se-á no mar, e o futuro da costa, das praias, das ondas, será o resultado da nossa cultura de paisagem, testemunho único da nossa presença.

Reflectir sobre a paisagem portuguesa implica invocar a minha dupla condição de arquitecta paisagista e bodyboarder.

Cumprindo Orlando Ribeiro, constato que o mergulho na paisagem me deu uma percepção muito próxima dos lugares onde me inscrevo. Em qualquer ponto da costa portuguesa, que percorro para a minha prática desportiva, ressalta a simbiose de relações que nos perseguem no dia-a-dia. Está lá tudo o que aconteceu e acontece, o tempo longo e os fenómenos de hoje. Desde há 14 anos que o meu olhar se constrói na complexidade que observo em cada praia que se oferece aos meus olhos. Recorrente e insistentemente descubro, entre o mar e a terra, lugares sempre novos, únicos, mesmo que repita visitas anteriores. Em situações de estreita estrangulação de violentas escarpas bruscamente recortadas ao longo de toda a costa, em enseadas e praias extensas de areia e/ou rocha, em preia ou baixa-mar, surgem linhas de ondas que se desenrolam até aos meus pés, e aí noto a intensa variedade da paisagem portuguesa.

A prática desportiva no mar influenciou a minha percepção da paisagem; e acabei a estudar arquitectura paisagista, na Universidade de Évora. Por sua vez, esta formação fez-me, a cada regresso, e já enquanto profissional de arquitectura paisagista, ainda mais inquieta, ensaiar o que aprendi, participando na procura da qualidade da construção e preservação destes lugares, reconhecendo e trabalhando com todos os sistemas em presença, e muitas vezes, em desequilíbrio interno ou em conflito entre si: água, vegetação, solo, vistas, morfologia, relações sociais.

As múltiplas relações entre todos estes sistemas complexos são também factores determinantes na formação de cada onda – toda e qualquer alteração da qualidade da água, a montante, sentir-se-á a jusante; qualquer construção na orla costeira irá influenciar a direcção dos ventos, varrendo parte do solo, transformando o sistema de dunas, impedindo a fixação de um sistema de vegetação característico destes lugares, essencial à biodiversidade e à consolidação de barreiras de protecção para o interior, assim como permanência ou não da configuração do fundo do mar.

O que façamos em terra sentir-se-á no mar, e o futuro da costa, das praias, das ondas, será o resultado da nossa cultura de paisagem, testemunho único da nossa presença. E, de cada vez que saio do mar, e irrompo terra habitada adentro, fito a linha sinuosa, recortada, irregular, que desenho ao longo da costa, e penso no próximo gesto, no próximo passo.

Um desses passos foi o IV Encontro Nacional de Estudantes de Arquitectura Paisagista, em Évora. Constatei o envolvimento de diferentes gerações, e o trabalho disciplinarmente mais alargado na construção do nosso chão comum. Discutiu-se a necessidade de uma política pública de paisagem, pergunta fundamental deste Encontro: que paisagem somos, como a vemos, qual queremos e qual podemos querer. O próximo passo implica responder a um conjunto de questões suscitadas neste encontro: Como representar e dar a conhecer a paisagem real? Que fazer dos arquivos de que dispomos e como podem ser fonte de trabalho futuro? Compete à arquitectura paisagista estruturar uma efectiva política pública de paisagem, criando redes entre diferentes profissionais e academia, comunidade e poder político? É hora.

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