À porta da Autoeuropa, CDU ouviu críticas pelo trabalho ao domingo

Trabalhadores ainda contestam as regras do horário semanal imposto no ano passado e que os obriga a trabalhar ao domingo. João Ferreira insiste na necessidade de conciliar a vida familiar e profissional. E de a Autoeuropa incorporar mais produção nacional.

Carro
Foto
Paulo Pimenta

Com um calor a roçar os 40 graus à hora de saída do turno da Autoeuropa que termina às 15h30, não seria de estranhar que entre os apartes que os trabalhadores iam fazendo perante as mãos esticadas com panfletos de propaganda da CDU estivesse um desejo de que oferecessem uma “cervejinha”. Ou que uma voz perguntasse por Jerónimo de Sousa e outra lhe respondesse que com este calor deve estar na praia.

Mas o que deve ter doído a alma aos comunistas foram algumas tiradas sobre a recente luta dos trabalhadores da fábrica da Volkswagen contra o trabalho domingo. “Não aparecem quando a malta está aflita"; “Deviam era estar aqui um dia inteiro"; “Ao domingo é que deviam vir para aqui, não era de semana"; “Enganaram a gente aqui dentro"; ou ainda “Lá não fazem nada e depois querem votos”.

Descrito assim, parece que a recepção à comitiva de João Ferreira e de militantes comunistas ao portão da Autoeuropa foi má. Não foi. Durante mais de meia hora, o candidato da CDU distribuiu desdobráveis com as principais propostas para as europeias, repetiu à exaustão os cumprimentos “boa tarde” e “bom descanso”, e os chavões “mais força à CDU para defender o trabalho e os trabalhadores" e “para avançar nos salários e nos direitos, mais força à CDU”.

Mesmo quem recusava o papel respondia boa tarde. Houve meia dúzia de mulheres e homens que pararam para o cumprimentar. E um trabalhador interpelou-o para dizer que não pode ir votar no dia 26 porque trabalha nesse domingo. João Ferreira replicou-lhe que pode pedir o voto antecipado, mas o intuito do interlocutor era diferente e respondeu bruscamente “Onde é que estavam quando tivemos que passar a trabalhar ao domingo?” Ferreira não se ficou e mesmo com o trabalhador já de costas afirmou: “Lutámos para que não trabalhasse ao domingo.”

Minutos depois, questionado pelos jornalistas sobre o empenho da CDU, haveria de dizer que fez “tudo o que era possível e continua a fazer” e que não vai ali só quando há eleições mas sim “com regularidade”. E não quis comentar o mal-estar entre a comissão de trabalhadores e alguns sindicatos que na altura das negociações com a administração da Autoeuropa fez com que houvesse uma nítida guerrilha interna na luta pelo poder sindical e negocial.

O comunista parecia ter anotado de cabeça todas as reclamações. “Queremos assinalar que a produção e a criação de riqueza não são incompatíveis com a valorização do trabalho e dos trabalhadores”, apontou. Lembrou que na Autoeuropa a luta dos trabalhadores levou ao aumento dos salários, à integração de mais de 500 precários - apesar de ainda haver, na empresa e no parque industrial do perímetro “níveis de precariedade assinaláveis”.

Passando um pouco ao lado da questão dos domingos, Ferreira preferiu falar do trabalho “particularmente penoso e com forte incidência de doenças profissionais, que é o dos turnos. Este tipo de trabalho tem aumentado na União Europeia nos últimos anos.

“Ora, não é aceitável que num tempo em que o progresso científico e tecnológico nos permite aliviar o trabalho humano, haja retrocessos na compatibilização da vida profissional com a vida familiar.” Daí que uma das propostas da declaração programática da CDU seja a instituição, a nível europeu, do “princípio do não-retrocesso, ou seja, não admitir retrocessos do ponto de vista dos direitos sociais, e da possibilidade de compatibilizar vida profissional e vida familiar”, descreveu o candidato.

Tirando sectores em que “por necessidade especiais especiais imperativas é obviamente preciso o trabalho por turnos ou ao fim-de-semana, há outros sectores onde isso não se compreende nem se aceita”, como é o caso da indústria automóvel, acrescentou o eurodeputado.

João Ferreira defendeu ainda a necessidade de aumentar o grau de incorporação nacional na produção do sector automóval ao nível das peças, de forma a dinamizar o tecido industrial e a produção nacional.

Também o Bloco escolheu a Autoeuropa para fazer campanha nesta segunda-feira e para fugirem ao constrangimento de se encontrarem ao portão, anteciparam a ida à fábrica de Palmela para encontrarem à entrada os trabalhadores que iam começar no turno das 15h30.