Editorial

O problema não é Berardo

Não pode deixar de ser com alguma incomodidade que se vê terminar uma legislatura governada por uma maioria de esquerda sem que se tenham verificado alterações significativas na regulação bancária, nem sequer a mudança de protagonistas.

As declarações de Joe Berardo na comissão de inquérito à CGD continuam a provocar o mal-estar proporcional à falta de vergonha de quem, apesar de ter sido participante no inglório desastre da banca portuguesa, não tem nada melhor para dizer do que “eu, pessoalmente, claro que não tenho dívidas”.

Pois não tem não, porque as dívidas, de uma forma ou outra, acabaram por ser dos portugueses, que continuam a pagar por um tempo em que as instituições financeiras em roda-viva se serviram e serviram especuladores como Joe Berardo, para as suas guerras de poder, para as suas aventuras financeiras, muitas vezes com anuência cúmplice do poder político e de quem tinha a obrigação de as regular.

Mas é bom que não seja só o passado que nos indigne, porque o presente continua a incomodar. E o presente espelha-se na cara sorridente de Joe Berardo perante a incapacidade dos bancos lhe cobrarem 980 milhões de euros em dívida por não conseguirem executar a penhora à associação que detém a valiosa Colecção Berardo, com que ele continua a fintar o Estado.

Não nos podemos por isso admirar que de cada vez que se diz a um professor que não há dinheiro para lhe devolver o tempo de carreira congelado ele responda “e a banca, não há dinheiro para eles”? O argumento básico, com indisfarçáveis contornos ideológicos, é irrazoável numa discussão séria sobre o problema, mas tem a mais que justificável indignação ética de quem sente que a conta, quando chegou, não foi para todos pagarem na mesma proporção.

Esta incapacidade do sistema de fazer pagar os infractores corrói uma comunidade que é suposto agregar-se em torno de valores de justiça e equidade. E não pode deixar de ser com alguma incomodidade que se vê terminar uma legislatura governada por uma maioria de esquerda sem que se tenham verificado alterações significativas na regulação bancária, nem sequer a mudança de protagonistas, como seja o governador do Banco de Portugal.

Esta sensação de que o tempo não passa por eles, de que o problema é bem maior que Berardo, que é do sistema de que ele é rosto, continua a precisar de respostas abrangentes se não queremos assistir passivos ao afundar da nossa vida comum com o agravamento das desigualdades. Talvez seja bom voltar a pegar em Thomas Piketty, perceber o que ele nos explica sobre esta sociedade de herdeiros e discutirmos o que precisamos de fazer para que eles não se continuem a rir com tanta desfaçatez.