Agricultura de frota
Alfonso Navarro/Unsplash

Universidades já reutilizam copos, mas faltam ecopontos — e a esferovite ainda chateia

Alunos e professores concordam: as academias precisam de “fazer mais e melhor” pelo ambiente. Associações académicas não querem ficar pelos copos reutilizáveis e, em alguns cursos, como Arquitectura, há um desperdício “evitável”.

Cartazes em riste, avisos criativos neles inscritos e palavras de ordem: no último 15 de Março, milhares de jovens de todo o mundo inundaram as ruas das suas localidades para defenderem o planeta de hoje e o que lhes será deixado. Por Portugal, o cenário repetiu-se um pouco por todo o continente e ilhas, rua acima e calçada abaixo. O ministro do Ambiente considerou-a “a mais justa das causas”, Guterres elogiou os jovens no The Guardian. É como se de um despertador se tratasse: desta vez, a juventude não o quer calar. Seja nas ruas, em casa ou até mesmo nas suas escolas e universidades.

Leonor Cerezino, estudante de Arquitectura na Universidade de Lisboa, escreveu ao P3 e lançou o assunto: não existem ecopontos suficientes nas faculdades, “como é o caso da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa [FAUL]”. A estudante já se tinha manifestado antes e noutras plataformas. “De pouco servem greves do clima se depois não existe qualquer resposta”, acrescentou na mensagem. É que no seu curso gasta-se “imenso material” que acaba “no lixo comum”: dos recicláveis, saltam à vista o cartão e o papel, por exemplo. Sónia Rodrigues, coordenadora do núcleo de comunicação da faculdade, afirma que a FAUL “não desperdiça material”. “O papel é reciclado há muitos anos” e segue num total anual de “16 camiões de 20 metros cúbicos” para o posto de triagem — muitas vezes em períodos de férias, pelo que os alunos não assistem a esse momento. “O problema pode passar pela falta de informação, mas a fase seguinte consiste em divulgar acções pelas redes sociais”, clarifica.

PÚBLICO -
Foto
Banco de material da FAUL.

Contudo, mantém-se a questão da falta de ecopontos na FAUL. De facto, existe apenas um contentor para a separação de lixo na faculdade, que tem um total de seis edifícios. “Já tínhamos encomendado mais cinco, um para cada edifício, por concursos públicos”, esclarece Sónia Rodrigues. “Estamos à espera dos ecopontos há um ano”, acrescenta. E o desperdício não passa ao lado, por exemplo, do agora presidente da FAUL, Carlos Dias Coelho. No documento “Linhas Gerais de Actuação e Gestão”, disponível para consulta, o então candidato à presidência daquela instituição apontava o seguinte: “A utilização de papel, cartão, esferovite, madeira e outros materiais no processo de formação em Arquitectura é incontornável, mas o desperdício a que se assiste actualmente é evitável.” A Associação de Estudantes da FAUL eleita para este ano lectivo também procura essa redução: os alunos propõem o banco de material sustentável

A procura por costumes e medidas ambientalmente sustentáveis na faculdade já era tida como prioritária pela antiga direcção. Num e-mail de 12 de Novembro de 2018 a que o P3 teve acesso, o então presidente João Pardal Monteiro aconselhava os alunos, docentes e não docentes da FAUL a serem “consumidores mais conscientes e motivados” a partir “da redução de utilização de papel, fotocópias, esferovite, copos e outros produtos de plástico”. As recomendações surgem após a Resolução do Conselho de Ministros nº 141/2018, publicada em Diário da República, “que promove uma utilização mais sustentável de recursos na Administração Pública através da redução do consumo de papel e de produtos de plástico”. 

PÚBLICO -
Foto
Só um dos seis edifícios da FAUL tem ecopontos.

Há material reutilizável a circular

A aposta em parcerias com empresas de recolha de lixo também acontece mais a Norte, na Universidade do Minho — e a Escola de Arquitectura encontra aí um canal para reciclar. No final de cada semestre, acontece uma “limpeza geral” de materiais e maquetes, depois “encaminhados para a Resinorte”, entidade que opera na triagem, valorização e eliminação de resíduos urbanos no concelho de Guimarães. Quem o refere é Paulo Cruz, o pró-reitor para a Qualidade de Vida e Infra-estruturas da UM. Ainda assim, já houve alunos de Arquitectura que viram diferentes materiais colocados em contentores comuns, como Vânia Cardoso.

A ex-estudante da UM, que terminou o curso já em 2019, recorda um episódio: um dia, perdeu “umas folhas necessárias para uma entrega”, que acabariam por ser encontradas “num contentor comum” por um funcionário da escola. “Não me parece que seja feita reciclagem. Há apenas um caixote em cada sala que serve para todos os lixos”, acrescenta. O director do curso, Ivo Oliveira, explica que “os baldes do lixo são sempre esvaziados” e “os lixos separados” pelos “serviços de limpeza” da academia, para posterior entrega à Resinorte. Mais um caso de “falta de informação”, como acontece na faculdade lisboeta? Talvez, mas este “é um processo gradual”.

Tal como a FAUL, a Escola de Arquitectura da Universidade do Minho aposta na reutilização. “Já há alguns anos foi implementado o projecto ‘Faz Circular’, com a colaboração do Núcleo de Estudantes de Arquitectura”, relembra o pró-reitor Paulo Cruz. Assim, “os alunos podem encontrar material de desenho e de maquetes não danificados para utilizar no ano seguinte”, acrescenta o professor universitário Ivo Oliveira. Do lado dos professores, o apelo aos alunos “para optimizar ao máximo os materiais” — como voltar a utilizar a mesma maquete para um próximo projecto, “substituindo o que for necessário”. Sónia Rodrigues garante existirem os “bancos de material para reutilização” que a Associação de Estudantes da FAUL prometeu. O que sobra dos projectos dos alunos é colocado “em espaços existentes em cada edifício”.

PÚBLICO -
Foto
Protótipo dos copos que vão ser utilizados na Queima das Fitas de Évora 2019, de 24 de Maio a 1 de Junho.

Copos de plástico reutilizáveis — e não só

“Temos sempre a consciência de que é possível fazer mais e melhor”, reconhece o pró-reitor da academia minhota. Porém, os esforços das universidades portuguesas (e das associações académicas ou núcleos de estudantes) não se restringem à reutilização de materiais escolares. “A muito breve prazo”, anuncia a mesma fonte, “serão instalados na Universidade do Minho quatro contentores de recolha, tratamento e valorização de roupa usada”, nos campus de Azurém (em Guimarães) e Gualtar (Braga). Na mesma universidade, procedeu-se à “eliminação de copos e talheres de plástico nas cantinas e bares”. Na fase final dos Campeonatos Nacionais Universitários, que decorreram em Guimarães, aboliram-se as garrafas de plástico, que foram substituídas por cantis. 

PÚBLICO -
Foto
Estudantes de Arquitectura no campus de Azurém da Universidade do Minho.

A Associação Académica da Universidade do Minho (AAUM) tem, agora, “um director para as áreas da Qualidade e Sustentabilidade”, conta Nuno Reis. O presidente da AAUM indica que a consciência ecológica “está no topo” das preocupações dos estudantes: por isso, já se adoptou o copo reutilizável nas festividades académicas. O mesmo aconteceu, pela primeira vez, na semana académica de Vila Real. José Pinheiro, presidente da Associação Académica da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, apelou “ao bom senso de todos no que toca a esta matéria”. Em Coimbra, houve estudantes a chorar nas monumentais serenatas — mas não pelo fim do uso de copos descartáveis. E estes são apenas alguns exemplos.

Em Évora seguiu-se o mesmo caminho: em todas as festividades organizadas pela Associação Académica da Universidade de Évora (AAUÉ), só haverá copos reutilizáveis. Em 2018, a AAUÉ já tinha adoptado esta medida, mas “havia a alternativa do copo descartável”; a partir da Queima das Fitas deste ano, não mais. Mas Miguel Lopes, vice-presidente do organismo, conta que os estudantes não pretendem “ficar por aqui”. Por isso, apresentaram uma moção em Assembleia Geral, entretanto aprovada, para se introduzirem “medidas para a redução da utilização de plástico nas cantinas e bares” da universidade, até que, finalmente, se alcance a “total exclusão de plásticos descartáveis”. Nos eventos organizados pela própria universidade, conta Miguel, “também já não se utilizam plásticos descartáveis” — por exemplo, “as garrafas de vidro substituíram as de plástico”. E nos bares, “que são concessionados”, já se começou “a fazer pressão para que se utilizem outros materiais mais sustentáveis”.

PÚBLICO -
Foto
Exemplo de copos reutilizáveis usados em festas académicas.

Procura-se substituto para esferovite (e outros materiais)

As exigências dos estudantes não resultam, por si só, em medidas ou actos concretos. Existe um diálogo com as reitorias — e os representantes das associações académicas tentam expor as ideias dos alunos. Para Miguel, a relação entre a AAUÉ e a reitoria da sua universidade “foi sempre pacífica”, para além de notar que “existe vontade em adoptar medidas ambientalmente sustentáveis, como as que foram apresentadas na moção”. Já Nuno Reis refere a repercussão que a mudança de hábitos pode ter: “A AAUM representa um público de 19 mil estudantes, mas não se extingue nesse número. Através dos nossos eventos, temos um potencial que supera as 100 mil interacções sociais.”

Mas não é só o plástico que “tem de desaparecer” (ou ser reduzido drasticamente) das universidades portuguesas. Voltemos ao ensino de arquitectura. Um dos materiais mais utilizados é a esferovite — “muito fácil de moldar e esculpir” e “muito barato”, explica Ivo Oliveira. No entanto, “não é desejado” e poderia ser “substituído por gesso, mas esse material pede outras coisas que acabam por não justificar o seu uso”. “É algo que nos apoquenta frequentemente, porque a esferovite não é reciclável”, diz.

Na FAUL, pensa-se o mesmo: não se quer a esferovite, mas é difícil arranjar um substituto. “Acabar com o seu uso é o mais difícil de implementar, mas tem-se apostado na mudança e educação dos próprios professores”, explica Sónia Rodrigues. O futuro deste material nas aulas de arquitectura não tem ainda final anunciado — mas já se sabe que, em 2020, as couvettes branquinhas vão desaparecer dos estabelecimentos comerciais. Ivo Oliveira é optimista: “Mais tarde, irá desaparecer.” Para o bem da arquitectura — e do planeta.