Viagens

Seis dicas para viagens mais ecológicas

Transporte e alimentação são as maiores fontes de CO2 no turismo. O plástico é outro problema. Pequenas mudanças individuais podem dar grandes frutos.

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Paulo Ricca/Arquivo

A Holanda tem 17 milhões de habitantes todo o ano. E recebe 18 milhões de visitantes todos os anos. Apesar dos benefícios económicos, a Comissão de Turismo e Convenções da Holanda (NTBC na sigla original) concluiu que a pressão turística nos locais mais populares é tal que já ameaça a vida dos habitantes. E, por isso, anunciou esta semana uma mudança de estratégia para a próxima década. “Sabemos agora que mais não é sempre melhor (...). Em vez da promoção da Holanda como destino, chegou a hora de gerir o turismo que temos”, dizem os responsáveis holandeses.

Não sendo o caso mais extremo de travagem a fundo, o caso holandês é o exemplo mais recente de toda uma governação que está preocupada com a “pegada turística”. Se o crescimento mantiver um ritmo exponencial, a Holanda terá 29 milhões de visitantes em 2030; um aumento de 50% numa década, dizem as projecções.

Antes que seja tarde, a NTBC mudou de rumo, elegendo a sustentabilidade como “uma obrigação”. “Por causa das nossas metas ambientais e para que possamos garantir qualidade de vida a toda a população holandesa, a economia das visitas tem de ser mais sustentável, de reaproveitar recursos, de prevenir a poluição e o desperdício e de minimizar as emissões de CO2”, lê-se no documento divulgado no início da semana (PDF aqui: https://bit.ly/2WElEvG).

Porém, não precisamos de ficar à espera de grandes decisões de governos. Pequenas mudanças de comportamento e de escolhas individuais podem produzir grandes poupanças ambientais. Imagine-se quanto poderíamos poupar em CO2 se cada um dos 4000 milhões de passageiros transportados em 2017 pela aviação comercial tivesse tido esse cuidado. Afinal, o que podemos fazer? Eis algumas dicas, com a ajuda de dois viajantes profissionais.

PÚBLICO -
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1. Evite aviões

O turismo mundial representa 8% das emissões mundiais de gases com efeitos de estufa, segundo as contas publicadas por seis investigadores num artigo de Maio de 2018, na Nature Climate Change. Este número inclui todas as actividades associadas ao turismo (comida, acomodação, compras e transportes). Mas a maior parte da pegada de CO2 “é causada pelo transporte doméstico” e internacional. Por isso, reduza trajectos, distâncias e frequências de viagens sempre que possível.

Dados de 2013 diziam que o transporte rodoviário emitia mais CO2 do que a aviação. Porém, admite-se que esse cenário possa mudar: os carros estão mais limpos, os aviões são cada vez mais. A queda dos preços nas viagens de avião alimenta a ideia de que o número de passageiros vai duplicar nos próximos 20 anos (a IATA prevê 8200 milhões de passageiros em 2037). Seja qual for o cenário real, o que os dados científicos mostram é que o transporte ferroviário é a opção mais ecológica.

Este é um dos cuidados de Ana Mineiro, autora de centenas de viagens ao longo de três décadas. “Enquanto viajante individual, uso o menos possível o avião. Quando viajo em grupos, evito voos internos. Aposto mais no comboio, no transporte público”, afiança. Ana deu a volta à Islândia em bicicleta. Uma decisão que reduziu muito a pegada carbónica e, além disso, teve impacto na experiência, porque “filtra logo à partida o tipo de pessoa com quem nos vamos cruzar”.

2. Reduza escalas

Sabemos, porém, que nem sempre é possível evitar o avião. Nesses casos, impõe-se reduzir o número de escalas, já que descolagens e aterragens aumentam o consumo de combustível. É natural que isso possa fazer subir o preço da passagem aérea. A decisão depende do que valoriza mais: o dinheiro ou o ambiente?

3. Corte na bagagem

Outra dica é cortar na bagagem – quanto menos peso no avião, menos combustível se queima. Essa é uma preocupação constante de Filipe Morato Gomes, que trocou a engenharia pelas viagens há década e meia e que garante que viaja sempre “com uma mochila” e nunca despacha bagagem de porão. A regra é “leva pouca coisa, não sejas esquisito”, aponta.

Ana Mineiro acrescenta: mesmo que a viagem seja mais longa, levem no máximo roupa para uma semana. Daí para a frente, mais vale lavar o que se sujou do que transportar roupa suja de um lado para o outro. E em caso de emergência, pode-se sempre comprar uma peça no caminho.

4. Voe em classe económica

O bilhete de avião costuma indicar a quantidade de CO2 emitido por cada passageiro em cada trajecto. Um cliente em executiva pesa mais nas contas finais do que um lugar em económica, porque à partida tem direito a mais quilos de bagagem e justificará mais peso a bordo graças às mordomias a que terá direito (garrafas, alimentação e outros bens à disposição dos clientes premium)

5. Use uma calculadora, compare opções

É possível ter uma ideia das emissões de CO2 de uma viagem mesmo antes de comprar um bilhete de transporte. Qualquer motor de busca dará numerosas sugestões para uma pesquisa sobre calculadoras de CO2. Como exemplo, pode começar pela ferramenta do site www.carbonfootprint.com que, tal como outras, permite comparar entre meios de transporte. Se quiser aprofundar conhecimentos nesta área da aviação, consulte o estudo de Christian N. Jardine (PDF aqui: https://bit.ly/2Hdru0C), um professor de Oxford que explica as inúmeras variáveis que é preciso ter em conta quando se quer calcular as emissões de CO2 dos aviões.

6. Compre um cantil

Filipe Morato Gomes, autor do multipremiado blogue Alma de Viajante,  tem um texto com 20 dicas para viagens mais ecológicas. Recomenda que se viaje devagar, menos carne às refeições (a pecuária é um forte contribuinte de CO2), um consumo responsável e respeito pelas comunidades locais. Tal como Ana Mineiro, que organiza viagens para clientes na empresa Fotoadrenalina, de Matosinhos, Filipe tem uma grande preocupação actual: a recusa de plásticos. Ambos sublinham que é muito fácil cair na tentação de comprar muita água engarrafada quando se está em viagem. Em vez disso, recomendam que se compre um cantil reutilizável e que se aposte na água pública. A regra, diz Ana, é usar as mesmas fontes de água usadas pelos locais. E, em caso de necessidade, comprar na farmácia pastilhas que desinfectam a água e a tornam potável.