Editorial

A juventude não é um cortejo boçal

A academia não pode permanecer passiva diante de casos como estes ou a tolerar as praxes mais aviltantes no seu perímetro.

As queimas das fitas e as praxes que as antecedem e acompanham são a manifestação juvenil mais boçal. Chamar Alcoholocausto a um carro alegórico de um cortejo académico, com o argumento de que se trata de um exercício irónico de liberdade de expressão, não é apenas um acto escabroso de mau gosto ou um insulto às vítimas de um abominável genocídio. É ao mesmo tempo um insulto a toda uma juventude que não se revê na boçalidade que, sazonalmente, toma conta do meio académico. Que esses alunos frequentem um curso de História da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra só agrava a imbecilidade.

Claro que não se pode tomar a parte pelo todo e ainda bem que o dito Alcoholocausto mereceu a pronta reacção de 70 docentes daquela faculdade, apelidados de polícia académica pelos finalistas de uma licenciatura em História tão-só porque se sentiram envergonhados e amargurados com aquela referência inaceitável. Que esses alunos se queixem de censura só agrava ainda mais a ausência de qualquer consciência ética; uma tácita e tonta aprovação do extermínio de minorias étnicas, religiosas e tudo o mais que não fosse normativo ariano.

As queimas das fitas, os seus cortejos e noites de festa não se podem resumir a uma semana de pândega incivilizada, a um negócio sórdido, no qual a nudez se paga em géneros alcoólicos. As associações e federações académicas não podem continuar a perpetuar espectáculos deste calibre sem serem objecto de qualquer consequência institucional. Os vídeos de estudantes a ingerir bebidas alcoólicas nas barracas da queima do Porto e tudo o resto envergonham as associações que a organizam e as universidades a que pertencem. O que fizeram e disseram os 70 docentes universitários em Coimbra é um exemplo a seguir quer pelas associações, quer pelas reitorias.

A academia não pode permanecer passiva diante de casos como estes ou a tolerar as praxes mais aviltantes no seu perímetro. Mais de um terço das instituições do ensino superior já proíbe as praxes e há muitas faculdades que possuem departamentos de recepção ao caloiro com a preocupação de integrar os estudantes na instituição de uma forma civilizada​. D. João V tentou proibi-las também, em 1727, ao determinar que qualquer “estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos”. O mal não é de agora. Mas o espectáculo da boçalidade é sempre o mesmo.