LUSA/Domic Lipinski / PA
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Megafone

Para mim é um príncipe, para os “Dannys” deste mundo é um chimpanzé

É preciso ser-se intolerante contra a intolerância, perdoem-me o pleonasmo. Porque enquanto o ser humano procurar exercer o seu poder contra outros homens e mulheres, a guerra não está ganha, longe disso.

Era inevitável. Era uma questão de tempo. E não, não é uma piada nem tem piada nenhuma, mesmo sabendo ser essa a intenção inicial de Danny Baker, comediante inglês e radialista na BBC. E se uma coisa é ter graça, outra é ser engraçadinho, e o Danny foi engraçadinho quando teve a peregrina ideia de publicar um tweet com a imagem de um casal dos anos 20 a dar as mãos a um chimpanzé enquanto parabenizava o Harry e a Megan pelo nascimento do novo rebento real

Tal facto num país onde 52% dos votantes mostraram o seu pouco apreço para quem é imigrante, diferente, estrangeiro, de outra cor, em suma, diferente, não surpreende e peca por defeito. E sim, Archie, o novo príncipe, é mestiço. Como a mãe, Megan, ela própria filha de uma afro-americana e de um pai caucasiano. 

Danny, e muitos como ele, no entanto, não concordam. Filhos de um racismo primário, recusam a ideia de sangue negro onde antes havia apenas sangue azul, sangue loiro, sangue de olho azul e claro onde a melanina é um atestado de inferioridade que não se consegue lavar da pele, como uma marca, uma culpa sem perdão e um castigo constante, justificando o inferno em vida, um inferno ao serviço do homem branco, superior, magnífico, endeusado, senão mesmo Deus reencarnado.

Felizmente, e porque dar o exemplo não é apenas preciso, é crucial e urgente, a resposta da BBC foi imediata através do despedimento sumário de Danny da sua rádio.

Não contente, como se a mensagem contra a intolerância não fosse suficientemente clara e óbvia, eis que Danny Baker procura justificar o seu tweet, como se fosse possível justificar o injustificável. Era uma piada classicista, diz Danny. Desconhecia ser o bebé filho da Megan e do Harry, acrescenta Danny, procurando, literalmente, fugir com o rabo à seringa quando a seringa já lá está. A culpa foi da sua ingenuidade, reforça, afirmando ignorar as consequências de uma “brincadeira inocente”, só para rir, para que todos pudéssemos gozar um pouco. “Assim que me apercebi do erro da revolta, apaguei logo o tweet", finaliza, como se apagar um tweet corrigisse esta aversão primária contra quem se apresenta com um tom de pele diferente do tom de pele do Danny, ariano de excelência.

Furioso com a resposta da BBC, Danny ainda disse aos seus patrões para fazerem o que vocês sabem. Mas, Danny, lamento imenso a tua fúria quando furiosos estamos nós, os negros e mestiços, asiáticos e ameríndios, brancos e albinos. Há um mundo para além do teu umbigo.

E quanto mais fala, mais o Danny se enterra, num mundo nem por isso tolerante, e ainda bem, para quem se revela intolerante. Porque entretanto evoluímos e aprendemos o significado do respeito mútuo, da igualdade na diversidade, da inclusão, integração, aceitação, do amor pelo próximo, da convivência em sociedade, da igualdade de direitos independentemente da cor da pele, do credo, do género ou orientação sexual.

Infelizmente, tal discurso de aceitação do outro parece agora legitimar movimentos extremistas, modos de pensar extremistas, onde o racista, o misógino, o fascista, o violador, o pedófilo, só para citar alguns exemplos, se acha no direito de expressar o seu ponto de vista em nome da mesma liberdade, se acha no direito de ter voz quando o próprio acto de ter voz é um crime para com o seu semelhante.

É preciso ser-se intolerante contra a intolerância, perdoem-me o pleonasmo. Porque enquanto o ser humano procurar exercer o seu poder contra outros homens e mulheres, a guerra não está ganha, longe disso. De caminho, não nos esqueçamos como até há bem pouco tempo se perseguiam (e em muitos países ainda se perseguem) os defensores dos direitos e liberdades fundamentais de hoje e o mundo dá muitas voltas.

Atentemos, sem medo, contra os poderosos, contra os “Dannys” deste mundo cuja ignorância não é senão a ignorância dos lobos com pele de cordeiro. E não nos cansemos de gritar contra um racismo não apenas latente mas bem presente nas fronteiras e nos muros, nos rostos fechados e nas armas nas mãos de quem não procura perceber nem aceitar que estamos todos no mesmo barco. Um barco onde só metade irá ao fundo — e essa metade não somos nós.