No Dia da Europa, os jovens estiveram no PÚBLICO a interpelar os candidatos

Ambiente, igualdade de género, migrações, entre outros temas. Um grupo de seis jovens esteve no auditório do PÚBLICO nesta quinta-feira e, de microfone em punho, usou da palavra para fazer várias perguntas a candidatos de diferentes partidos a estas eleições europeias.

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Carolina Pescada

O tema do ambiente teve direito à primeira pergunta e isso haveria de deixar claro, ao longo do debate, a centralidade da tema para quem pôs a questão e para quem a ela respondeu. Foi pela voz de Rita Vasconcelos, estudante de Direito, que candidatos de diferentes partidos às eleições europeias foram desafiados a explicar o que pretendem fazer para combater as alterações climáticas. “Qual a medida mais indicada, no ponto de vista do seu partido, para se atingir a neutralidade carbónica até 2030 e que passos tem dado o seu partido para aplicar a mesma?”

Todos estavam preparados para o combate de perguntas que aí vinha: Maria Manuel Leitão Marques, número dois do PS às europeias, munida de folhas com post-it coloridos; Lídia Pereira, segunda da lista do PSD, com o telemóvel e um bloco à mão de semear; José Gusmão, segundo rosto do Bloco de Esquerda na corrida, de folhas e caneta; pela CDU, o comunista João Pimenta Lopes, número três na lista, com Ipad e papéis. O centrista Pedro Mota Soares haveria de chegar mais tarde e justificar o atraso com o facto de ter ficado retido nos Açores. Quem sabe, questionou, se ele próprio não terá sido já uma “vítima” das alterações climáticas?

“Boa tarde e bem-vindos ao auditório do PÚBLICO, nesta quinta-feira, Dia da Europa.” O mote para iniciar o debate que assinalou o fim do projecto “A Europa que conta” – apoiado pelo Parlamento Europeu e que, durante 25 semanas, trouxe inúmeros temas europeus às páginas e aos formatos multimédia do jornal – estava lançado pelo director-adjunto, David Pontes.

Abria-se a porta para dar voz a seis jovens – Jorge Félix Cardoso, Rita Vasconcelos, Cyntia de Paula, Nora Kiss, Rafael Jacinto e Carolina Mascarenhas – com idades entre os 18 e os 34 anos, ligados a diferentes associações e movimentos, de ambientalistas a feministas, passando pelo activismo dos direitos das pessoas imigrantes ou pelos projectos europeus de combate à abstenção.

Sobre este ponto, não faltaram apelos, ao longo do debate: “Vão votar”, pediu, e repetiu, Maria Manuel Leitão Marques. Lídia Pereira usou uma imagem: se os jovens não deixam que os pais e avós escolham a roupa ou a música que ouvem, por que hão-de deixar que escolham quem os vai representar?

Embora central, a questão do ambiente não foi a única. Falou-se de igualdade de género, regras de transparência no exercício do cargo de eurodeputado, ruralidade, migrações. Houve espaço para perguntas, para as respostas possíveis dentro do tempo adequado e até espaço para os diferentes candidatos trocarem farpas sobre as épocas em que alguns governaram, outros governam, e sobre algumas distâncias que os separam no espectro político.

Os olhos estavam, porém, postos no futuro. Os jovens queriam saber o que pensam, o que vão fazer os candidatos. E, ainda que não podendo detalhar cada medida dos programas eleitorais, todos garantiram que, pelo menos num ponto, há consenso: não se pode voltar as costas ao combate pelo ambiente, mesmo que os caminhos que cada um pretende trilhar sejam diferentes.

Ideias

O Bloco, por exemplo, lançou para a mesa a proposta de se proibir os carros movidos a combustíveis fósseis até 2025. Ou acabar com o financiamento a combustíveis fósseis, promovendo antes o investimento, por exemplo, na ferrovia. E, porque não, declarar, como o Parlamento britânico, o estado de emergência climática, questionou.

Também o PSD garante defender a transição energética, de combustíveis fósseis para energias renováveis; a aposta nas questões da mobilidade limpa; e o combate ao plástico.

João Pimenta Lopes fez questão, no entanto, de lançar para a discussão, aparentemente tão afinada, um ponto de discórdia: a forma como os partidos olham para os sistemas de produção não pode ser desligada da questão ambiental. Ressalva feita, aproveitou para elogiar medidas como a criação dos passes sociais intermodais que favorecem o uso de transportes públicos e, entre outras propostas, insistir na importância da produção nacional.

Caberia a Maria Manuel Leitão Marques voltar a afinar o coro de vozes dos candidatos: “[O ambiente] é um dos temas que nos tornam europeístas. Não tem fronteiras.” Lembrou que, apesar de ser importante reduzir os consumos, também há pessoas que, pela pobreza a que estão sujeitas, precisam é de aumentar o consumo. Só depois desta nota, elencou uma série de medidas: apostar nos transportes públicos, nos passes sociais, na ferrovia; usar a tecnologia a favor do ambiente, trabalhando a partir de casa sem deslocações; criar “um desenho das cidades, do território, equilibrado”, que permita uma “vida individual e colectiva amiga do ambiente”.

Pedro Mota Soares pôs a tónica, entre outros aspectos, na necessidade de se defender o mar, limpando os plásticos, de se “assumir de forma mais robusta” os fundos comunitários direccionados para a agricultura e de se “usar bem” os que são dirigidos à ferrovia.

Outros temas foram, porém, abordados. Alguns exemplos apenas: José Gusmão, que destacou não só o trabalho da eurodeputada Marisa Matias (BE), mas também de Ana Gomes (que já não integra a lista do PS), afirmou que “a Europa não tem um problema de migrações, mas de falta de migrações” e defendeu “coragem para enfrentar o discurso xenófobo” que “não resolve” os problemas com que a União Europeia se confronta. Já Pedro Mota Soares preferiu dizer que “é tão demagógico e populista” defender que as portas se fechem como defender que se devem abrir “para que todos possam entrar”.

Noutros momentos, Maria Manuel Leitão Marques haveria de sublinhar a importância da luta pelos direitos das mulheres e pelo valor “igualdade”. Ao lado, o comunista João Pimenta Lopes concordou não só com o combate, como com a necessidade de ser assumido também pelos homens. Mas voltou a pôr o dedo numa ferida: como se pode conciliar vida familiar e profissional num mercado onde abundam as relações laborais precárias e os baixos salários?

Para todas as perguntas, parece haver, no entanto, uma resposta com que todos concordam. E Maria Manuel Leitão Marques não foi a única a verbalizá-la: “Vão votar. A Europa está perto de nós no nosso dia-a-dia.”

Ouça, no P24, o resumo deste debate:

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