Análise

Tancos: armas, mentiras e documentos apócrifos

Agora que sabemos que Azeredo Lopes sabia o “essencial” dos factos do memorando, percebemos enfim os principais contornos do desenho da “nebulosa” denunciada pelo Presidente da República.

No final da manhã de 4 de Outubro do ano passado, o então ministro da Defesa, Azeredo Lopes, convocou os jornalistas em Bruxelas para, numa declaração assertiva e vagamente nervosa, tentar romper o cerco com que o roubo de Tancos estava a apertar o seu gabinete. Dias antes, Luís Vieira, director da Polícia Judiciária Militar (PJM) e o major Brazão, porta-voz da Política Judiciária Militar, tinham tornado público que o seu chefe de gabinete recebera um memorando que dava nota dos detalhes da operação de encobrimento do assalto aos paióis e posterior encenação da entrega das armas roubadas.

Azeredo tinha de falar. E falou nessa manhã para “dizer categoricamente que é totalmente falso que eu tenha tido conhecimento de qualquer encobrimento neste processo”, disse. “Não tive conhecimento de qualquer facto que me permitisse acreditar que terá havido um qualquer encobrimento na descoberta do material militar de Tancos”, continuou.

Sete meses passados, nesta terça-feira, o ex-ministro acabaria por apresentar uma nova versão do seu conhecimento sobre o que se passou. Na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ao roubo e embuste de Tancos, Azeredo Lopes acabaria por reconhecer que sabia do “essencial” desse memorando, mesmo que só o tenha lido no dia em que se demitiu do cargo, a 12 de Outubro.

Comparando a declaração de 4 de Outubro de 2017 com a de 7 de Maio de 2018 resulta absolutamente claro que, nas vésperas da sua demissão, Azeredo Lopes não podia proclamar “categoricamente” o seu desconhecimento de “qualquer facto” transcrito no memorando. Ele, foi reconhecido no Parlamento, sabia “o essencial” da patranha montada pela PJM pelo menos desde Setembro de 2017, quando o memorando foi cair às mãos do seu então chefe de Gabinete, tenente-general António Martins Pereira.

Acreditar que, depois de Martins Pereira ter recebido o memorando, não tivesse dado conhecimento do seu teor ao ministro é o mesmo que acreditar na história da Carochinha. As duas páginas do documento são apócrifas, não são timbradas e foram escritas num português manhoso. Mas tinham datas, nomes e o descritivo das operações que amarravam o corpo judiciário das Forças Armadas a um embuste que, como disse o tenente-general Antunes Calçada, “desonrava” o Exército português.

De resto, tão ou mais importante como a mensagem era a qualidade dos mensageiros — o topo da PJM. Duas folhas colocadas numa carta anónima não têm o mesmo valor de duas folhas entregues pela cúpula da Judiciária Militar.

Mesmo acreditando que, como afirmou à CPI, Martins Pereira leu com displicência o memorando, limitando-se a “passar os olhos” pelas suas letras, mesmo que não tenha sido capaz de descortinar no texto qualquer encobrimento ou encenação, não é crível que nunca “tenha falado disso” com o ministro. A acontecer, esse cenário teria levado Azeredo Lopes a denunciar com justa causa uma quebra grave dos mais elementares deveres de lealdade. O que nunca aconteceu — pelo contrário, o ex-ministro sempre foi simpático com o seu antigo chefe de gabinete. Esta terça-feira, Azeredo Lopes tratou de confirmar o que todos já suspeitávamos: foi o próprio Martins a dar-lhe conta do “essencial” do memorando.

Saber por que razão Azeredo não levou a sério as revelações do memorando, por que não o entregou à PJ, ao Governo ou ao comandante supremo das Forças Armadas torna-se agora uma questão essencial para avaliarmos o seu desempenho político.

Dada a sua inteligência aguda e o seu conhecimento em assuntos de estado, a decisão de manter o memorando em segredo só se explica pela vontade de proteger a imagem das Forças Armadas, exaurida após o roubo das armas. Ora essa estratégia de silêncio tornou-se impossível de conservar depois de Vasco Brasão ter desvendado o segredo. Em poucos dias, toda a estratégia, fosse ela justificada pela negligência ou pelo corporativismo, acabaria por ruir. Num ápice, o chefe de Gabinete de António Costa reclama o documento. E as duas folhas apócrifas são remetidas para o Ministério Público, um ano depois de chegarem ao gabinete do ministro da Defesa.

E é revelador que tenham estado em cima da mesa na reunião entre o primeiro-ministro e o ministro da Defesa que determina a demissão de Azeredo Lopes. O especialista em política internacional ficou aí “com a noção muito clara” que o seu tempo no ministério se tinha acabado. Nenhum primeiro-ministro podia perdoar o que se tinha passado. Um documento entregue pelas altas esfera da Judiciária Militar no gabinete de Azeredo dando conta de uma vergonhosa encenação e embuste tinha ficado na gaveta enquanto o Exército e o Governo eram torrados em lume brando.

Agora que sabemos que Azeredo Lopes sabia o “essencial” dos factos do memorando, percebemos enfim os principais contornos do desenho da “nebulosa” denunciada pelo Presidente da República. Não é coisa pouca e justifica plenamente o investimento que a Assembleia da República fez nesta Comissão Parlamentar de Inquérito.

Sugerir correcção