Estados Unidos e Irão: inimigos no mundo, bons amigos do Iraque

Um dia depois de Mike Pompeo aterrar de surpresa em Bagdad, o ministro do Petróleo iraquiano anunciou para “muito em breve” a assinatura de um megaprojecto com a Exxon Mobil. Mas o primeiro-ministro garante que não é contrapartida para poderem continuar a comprar gás natural ao Irão.

Mike Pompeo com Adel Abdul Mahdi, em Bagdad
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Mike Pompeo com Adel Abdul Mahdi, em Bagdad Reuters

A urgência de viajar para Bagdad do secretário de Estado Mike Pompeo, que o levou a cancelar uma visita oficial à Alemanha, terá por trás algo mais que as ameaças à segurança dos americanos no Iraque e que levou John Bolton, conselheiro nacional de segurança, a anunciar o envio de um porta-aviões para o Golfo Pérsico?

Ao invés de explicações concretas sobre ameaças reais e urgentes, o chefe da diplomacia norte-americana falou em riscos velados e, quando questionado sobre a possibilidade de o Governo iraniano estar a manobrar para derrubar o Executivo iraquiano, a resposta foi um “não, não”. “A principal ameaça no Médio Oriente é o Irão”, disse Pompeo, “esta tem sido a nossa posição desde a divulgação da Estratégia de Segurança Nacional, no princípio da administração Trump”.

É verdade que Pompeo, na conversa com os jornalistas a caminho do Iraque, falou em relatórios que mencionam uma “escalada de actividade” do Irão, mas também mencionou “uma série de negócios pendentes”, “grandes negócios energéticos que podem desligá-los [aos iraquianos] da energia iraniana”.

Um desses negócios, aliás um megaprojecto de 53 mil milhões de dólares a 30 anos para aumentar a produção iraquiana de petróleo, está prestes a ser assinado e o embaixador iraniano em Londres, Hamid Baeidinejad, garantia, na segunda-feira, que os Estados Unidos teriam permitido ao Governo iraquiano continuar a comprar gás natural e a importar electricidade do Irão em troca da luz verde para o Southern Iraq Integrated Project (SIIP), que será desenvolvido pela Exxon Mobil e a PetroChina.

O SIIP é crucial para os desejos do Iraque (e dos EUA?) de aumentar a sua capacidade de produção de petróleo até 2025, dos actuais cinco milhões de barris diários para 7,5 milhões (ou seis milhões, na perspectiva mais realista dos analistas), e assim o seu peso na Organização dos Países Produtores de Petróleo, como contraponto a quem a tem dominado desde sempre: a Arábia Saudita.

Na terça-feira, o primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdul Mahdi, adiantava que o Iraque estava prestes a assinar um acordo a longo prazo com a Exxon Mobil e a PetroChina, um negócio que Bagdad espera vir a trazer 400 mil milhões de dólares aos cofres do Estado nas próximas três décadas, de acordo com o primeiro-ministro.

Esta quarta-feira, o ministro do Petróleo do Iraque, Thamer Ghadhban, referiu-se ao projecto dizendo que o acordo preliminar será assinado “muito em breve”. “Conseguimos dar um passo em frente na resolução de alguns pormenores que estavam a atrasar o acordo”, explicou o governante.

Há quatro anos que as partes envolvidas discutem este meganegócio que envolve o desenvolvimento dos campos petrolíferos de Nahr Bin Umar e Artawi, para aumentar a sua produção de 125 mil barris diários para 500 mil. Para isso, as duas multinacionais vão construir uma central de dessalinização para injectar água nos poços de petróleo do sul do país e novos oleodutos de exportação.

Iraque nega contrapartida

Adel Abdul Mahdi negou aos jornalistas que a assinatura do acordo estivesse pendente da luz verde dos Estados Unidos, da autorização para o Iraque continuar a importar gás natural e electricidade do Irão sem sofrer sanções de Washington. “As conversas entre o ministro do Petróleo e a Exxon Mobil e a PetroChina estão centradas em como dividir os lucros em caso de subida ou descida do preço do petróleo”, disse o primeiro-ministro à Reuters, estando o acordo dependente apenas disso.

Ao mesmo tempo, um membro do Governo da área do Petróleo explicava à mesma agência que “as sanções dos EUA são apenas contra países que compram petróleo iraniano e o Iraque não compra crude iraniano. Em relação ao gás, tanto quanto sabemos, [o fim das excepções] não afectam por agora [as importações]. A excepção para o gás mantém-se.”

Questionado pelos jornalistas se o Presidente Barham Salih ou o primeiro-ministro lhe tinham dado garantias que deixariam de comprar gás ao Irão, Pompeo respondeu que “não tinham passado muito tempo a falar de sanções” porque havia “assuntos mais urgentes” a discutir.

“É verdade que há muita electricidade que sai do Irão para o Iraque”, admitiu o secretário de Estado norte-americano, acrescentando que tinha apresentado aos governantes iraquianos alternativas para “assegurar que o Iraque tem independência energética”, nomeadamente a compra de electricidade à Jordânia e ao Egipto.

Relações com o Irão

Mahdi visitou oficialmente o Irão no princípio de Abril, a primeira vez que esteve em Teerão desde que assumiu o cargo em Outubro do ano passado. Nessa altura, tanto o Presidente iraniano, Hassan Rouhani, como o ministro do Petróleo iraniano, Binjan Zangeneh, anunciaram o aprofundamento da cooperação entre os dois países.

“Esperamos que os nossos planos para aumentar o volume das trocas comerciais para 20 mil milhões de dólares se concretizem nos próximos meses ou anos”, referiu Rouhani. Ao mesmo tempo, Zangeneh falava em “potencialidades enormes para aumentar a cooperação Irão-Iaque no âmbito do petróleo, gás, refinação e petroquímico” e que “o Irão está pronto para oferecer essas capacidades à indústria petrolífera iraquiana”.

No sábado, a agência de notícias iraniana Fars, revelava que a National Iranian Oil Company, petrolífera controlada pelo Ministério do Petróleo, vai abrir uma representação no Iraque, que “facilitará a cooperação na indústria petrolífera e a transferência de serviços técnicos e de engenharia”.