ARCOlisboa estende-se a África para provar que é uma feira “única”

Entre 16 e 19 de Maio, a feira quer continuar a contribuir para um crescimento “controlado e positivo” do mercado da arte contemporânea em Portugal. A grande novidade da quarta edição é a secção África em Foco.

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JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

A quarta edição da Feira Internacional da Arte Contemporânea de Lisboa, ARCOlisboa, irá desenrolar-se sobre dois vectores: crescimento e conteúdo. Crescimento para continuar a ser “um marco na história da arte contemporânea em Portugal”, afirmou Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa; conteúdo no sentido de se reafirmar, tanto na vertente expositiva da feira quanto no que diz respeito ao seu programa de actividades e acontecimentos paralelos, como um evento “único”, como “uma experiência especial” – expressões da nova directora Maribel López, nomeada em Novembro. De 16 a 19 de Maio, marcarão presença na Cordoaria Nacional 71 galerias de 17 países. A grande novidade será a secção África em Foco, que acolhe a participação de galerias africanas.

Na sessão de apresentação da ARCOLisboa, que teve lugar no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa ao início da tarde desta quarta-feira, Eduardo López-Puerta começou por dar conta do “muito gratificante” que tem sido “testemunhar o grande impacto” que a feira conseguiu ao longo da sua ainda curta história. O director-geral da IFEMA (Feria de Madrid), responsável pela organização da ARCOmadrid e da sua extensão lisboeta, destaca-a neste momento como um dos “activos mais importantes” da instituição que dirige. Entre as galerias estrangeiras participantes na edição deste ano encontram-se as estreantes Vera Munro, de Hamburgo, e a Georg Kargl, de Viena. Regressam a Krinzinger, também da capital austríaca, a Greengrassi, de Londres, a Pietro Sparta, de Chagny, e a Vermelho, de São Paulo.

Mantendo a sua organização em volta de três secções – o Programa Geral, com 52 galerias, a Opening, constituída por 11 galerias com, no máximo, sete anos de vida (seleccionadas por João Laia), e a Projectos, que reunirá nove propostas de artistas individuais –, a edição 2019 da ARCOLisboa, afirmou López-Puerta, “dá mais um passo na sua vontade de criar uma feira única”. Referia-se às atenções centradas, pela primeira vez, “num âmbito geográfico concreto, África”. A representar o continente estarão as galerias Afriart, do Uganda, Arte de Gema, de Moçambique, Momo, da África do Sul, e as angolanas This is Not a White Cube, Movart e Jahmek, esta última integrando a secção Opening – as restantes surgem no Programa Geral.

PÚBLICO -
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A série Floating Dreams será um dos trabalhos em destaque na galeria angolana Movart DR

Numa apresentação que contou também com a participação da galerista Cristina Guerra, membro do comité organizador da feira, Catarina Vaz Pinto referiria que, se a ARCOLisboa contribui para a “afirmação de Lisboa como cidade global”, a aposta em África “faz jus à matriz multicultural” da cidade, tendo em conta a sua história e a sua geografia. Em declarações ao PÚBLICO no final da apresentação, Maribel López reúne a essa especificidade a constatação de uma emergência. “Nos últimos anos tem havido muito interesse na arte africana, quer através dos artistas, quer de comissários que a investigam e que nos alertam para coisas importantes que estão a acontecer e a que devemos estar atentos.”

Para a directora da ARCOLisboa, a secção África em Foco cumpre também o objectivo de revelar, de dar a ver, de pôr diferentes universos em contacto: “Um diálogo real que faz parte do verdadeiro sentido do que a arte deve ser, um diálogo universal.” Nesse sentido, a presença africana não se ficará pela dimensão expositiva. Com coordenação de Paula Nascimento, comissária responsável pela secção África em Foco, terão lugar ao longo da feira várias conferências que contarão com a presença de figuras como Raphael Chikukwa, comissário-chefe da Galeria Nacional do Zimbabwe, Azu Nwagbogu, fundador da African Artists Foundation, em Lagos, na Nigéria, Jeanne Mercier, crítica, comissária e redactora-chefe da plataforma Afrique in Visu, ou Marie Hélène Pereira, directora de programas da RAW Material Company, em Dakar.

O debate e o diálogo estendem-se, como é hábito da feira, a outras áreas. Insere-se nesse âmbito o Arts Libris, ciclo de debates e conferências, dirigido por Horacio Fernandéz, no qual se discutirá o estado actual das publicações de arte e em que participarão António Julio Duarte, Susana Lourenço Marques, Mariana Piçarra, José Luís Neves e Filipa Valladares. Na Cordoaria Nacional será também possível ouvir artistas como Bruno Leitão, Pauline Foessel, Irene Campolmi ou Jesper Just, entre outros, abordarem o seu percurso artístico e as suas ideias para o futuro – são as sessões “Em que estou a trabalhar?”.

A ARCOlisboa tem centro na Cordoaria Nacional mas a sua actividade irá estender-se a toda a cidade, estando preparado um programa de exposições que permitirá aos visitantes verem obras de João Onofre na Culturgest, de Francisco Tropa na Gulbenkian, de Sara Chang Yang na Galeria da Boavista, de Ângela Ferreira na Fidelidade Arte, de João Louro no Pavilhão Branco, ou de Carlos Bunga e Carla Filipe no MAAT, que acolherá também o Prémio Novos Artistas da Fundação EDP.

A quarta edição da ARCOlisboa pretende continuar a sua afirmação e vincar uma personalidade única sem rupturas, em continuidade. “Sendo a ARCOlisboa um projecto que tive a sorte de ver nascer, a verdade é que gosto do formato que tem actualmente”, disse Maribel López ao PÚBLICO. “O correcto não será a minha direcção posicionar-se para mudar as coisas. Isso seria fazer algo de pessoal quando a feira é um projecto que trabalha para as galerias, para os artistas, para a cena artística portuguesa”, defendeu. “Mais do que mudanças e ruptura, gostaria de pensar num crescimento controlado e positivo para as galerias”, afirmou.