Rússia garante que ninguém defende a solução militar para a Venezuela

Sergei Lavrov encontrou-se com Mike Pompeo, que percebeu que essa solução está fora da mesa, afirmou o ministro russo. Moscovo vai expandir colaboração “técnico-militar” com Caracas, diz ministro venezuelano.

Sergey Lavrov e Mike Pompeo em Rovaniemi, antes do encontro
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Sergey Lavrov e Mike Pompeo em Rovaniemi, antes do encontro JOUNI PORSANGER/LUSA

O ministro dos Negócios Estrangeiros russo e o secretário de Estado norte-americano reuniram-se esta segunda-feira em Rovaniemi, na Finlândia, à margem de uma cimeira dos oito Estados árcticos sobre o futuro da exploração do Árctico, para discutir a crise na Venezuela. Segundo Sergei Lavrov, a conversa foi “boa e construtiva” e Mike Pompeo compreendeu que a possibilidade de uma intervenção militar na Venezuela está fora da equação.

“A julgar pelos contactos com o meu colega americano e outros, incluindo da América Latina e Europa, não vejo ninguém a advogar por uma temerária solução militar”, afirmou o chefe da diplomacia russa. “Espero que toda a gente perceba que em termos de política prática, não poderá haver uma solução militar, porque isso significaria uma catástrofe”, acrescentou Lavrov, depois do encontro com Pompeo.

Coube ao ministro russo dar conta das conversações com o seu homólogo norte-americano, que algumas horas depois da reunião ainda não se tinha referido à reunião. Antes da partida para a Finlândia, numa entrevista à ABC, Pompeo tinha preferido não se referir à solução militar, optando por um “temos todo um leque de opções para as quais nos estamos a preparar”.

Na mesma entrevista, Pompeo adiantava que na conversa com Lavrov iria pedir a retirada dos militares russos da Venezuela: “É muito claro, queremos os russos fora, queremos os iranianos fora, queremos os cubanos fora”.

Vontade que não parece colher adeptos entre o Governo de Vladimir Putin, que se mostra preparado para alargar a sua colaboração “técnico-militar” com o Executivo de Nicolás Maduro. Falando em Moscovo, no âmbito de uma visita oficial à Rússia, o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, referia que “sem dúvida”, essa colaboração “poderá ser alargada”.

“Precisamos de receber equipamento de manutenção e trocar informação técnica e militar. Este trabalho já vem sendo feito desde 2001, quando assinámos um acordo de cooperação. Actualmente, uma comissão de especialistas está em território da Venezuela e, sem dúvida, [a cooperação] poderá ser alargada”, afirmou Arreaza em conferência de imprensa na embaixada venezuelana em Moscovo, citado pela agência TASS.

Maduro em Moscovo

De acordo com o ministro venezuelano, segundo a agência de notícias RIA Novosti, Nicolás Maduro deverá visitar a Rússia em Junho, altura em que poderá ficar acordado o alargamento do domínio da cooperação entre os dois países. Maduro seria convidado de honra no Fórum Económico Internacional de São Petersburgo, que se realiza na segunda maior cidade russa entre 6 e 8 de Junho.

Arreaza também aproveitou a sua presença em Moscovo para desafiar Washington, dias depois de uma aparente tentativa de golpe de Estado da oposição venezuelana, liderada por Juan Guaidó, ter fracassado nos seus intentos de derrubar o regime de Maduro.

“Nós somos pela paz e queremos falar com toda a gente sobre a paz, mas se os Estados Unidos preferirem o caminho da guerra, temos as nossas forças armadas, as nossas milícias populares e o povo, e estaremos preparados não só para resistir e ripostar como para superar e destruir qualquer exército, por mais forte que seja”, proclamou o chefe da diplomacia venezuelana.

Um contraste de tom com a perspectiva de Mike Pompeo adiantada aos jornalistas que o acompanhavam no avião: “Esta semana, embora Maduro tenha logrado manter o controlo do exército em alguns aspectos, houve muitos militares que se foram embora, incluindo um oficial de alta patente dos serviços secretos, que lhe era muito próximo e do seu antecessor”, Hugo Chávez.

General leal em fuga

Pompeo referia-se ao general Manuel Christopher Figuera, chefe do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin), que se demitiu criticando o regime venezuelano e que actualmente está em parte incerta. De acordo com o site AlNavio, o general Figuera desmente que tenha aderido à oposição e que instara a um levantamento militar contra Nicolás Maduro.

“Eu propus ao Presidente, evocando a nossa história pátria, que promovesse, através da Assembleia Constituinte, um novo Conselho Eleitoral e, consequentemente, convocasse novas eleições”, disse o ex-chefe do Sebin.

O general Figuera diz que, apesar das críticas constantes na sua carta de demissão, continua a ser leal ao Presidente, que, segundo ele, está a ser manipulado pelo grupo de colaboradores que lhe é mais próximo: Diosdado Cabello, o todo-poderoso presidente da Assembleia Constituinte, normalmente considerado o número dois do regime; Tareck El Aissami, que dirige a economia e tem influência na Guarda Nacional; os irmãos Rodríguez, Delcy, a actual vice-presidente, e Jorge, ministro para a Comunicação e Informação; Maikel Moreno, presidente do Supremo Tribunal; e Vladimir Padrino, o ministro da Defesa.

Por exemplo, em relação a Cabello, o general Figuera questiona o facto de Gustavo González López, próximo do presidente da Assembleia Constituinte, ter sido reinstituído no seu cargo no Sebin depois de afastado no ano passado por um incidente que podia ter “comprometido a segurança” de Maduro.

O militar está escondido por temer as represálias desse grupo poderoso que domina o Governo e até está disposto a responder na justiça pelo seu comportamento, mas só e quando lhe for assegurado um processo justo, algo que neste momento não terá.