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Jornalistas da Reuters foram libertados, após 511 dias detidos na Birmânia

“Mal posso esperar por voltar à redacção”, disse Wa Lone, um dos jornalistas detidos pelas autoridades birmanesas por ter divulgado informações secretas numa investigação sobre a perseguição à minoria rohingya naquele país.

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Os dois jornalistas à saída da prisão Reuters
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Os dois jornalistas à saída da prisão Reuters/ANN WANG

Dois jornalistas da agência Reuters, Wa Lone e Kyaw Soe Oo, presos na Birmânia depois de terem sido condenados por divulgarem informações secretas na sua investigação sobre a perseguição à minoria rohingya, foram libertados na terça-feira, após mais de 500 dias detrás das grades.

De acordo com o director da prisão de Insein, Zaw Zaw, os dois jornalistas foram libertados esta terça-feira de manhã depois do Presidente birmanês, Win Myint, ter perdoado 6520 presos – à semelhança do que já tinha acontecido no mês passado. De acordo com a Reuters, é comum que as autoridades birmanesas libertem prisioneiros na altura do Ano Novo, a 17 de Abril.

“Estou muito feliz e ansioso por ver a minha família e os meus amigos, mal posso esperar por voltar à redacção”, disse Wa Lone, enquanto falava aos jornalistas e curiosos que tinham assistir à sua libertação. Kyaw Soe Oo apenas acenou e sorriu. Os dois foram depois levados por colegas da Reuters para junto das suas famílias.

O editor-chefe da Reuters, Stephen J. Adler, reagiu às notícias dizendo que, com a detenção, os dois “corajosos” repórteres se tornaram “símbolos da importância da liberdade de imprensa em todo o mundo”.

Também António Guterres disse estar satisfeito com a libertação, de acordo com um porta-voz citado pela Reuters. A delegação da ONU na Birmânia disse ver esta libertação como um sinal de compromisso do Governo com a democracia.

Wa Lone e Kyaw Soe Oo foram detidos em Setembro de 2017 e condenados, um ano depois, a sete anos de prisão por terem violado a lei do segredo de Estado. Em causa estava a investigação que conduziram sobre a morte de dez homens e rapazes muçulmanos rohingya pelas forças de segurança e civis budistas no estado rebelde de Rakhine, no ocidente da Birmânia, numa operação que começou em Agosto de 2017. Devido à repressão policial, mais de 730.000 membros da minoria muçulmana rohingya fugiram para o Bangladesh, de acordo com as estimativas da ONU.​

Os dois jornalistas apresentaram vários recursos com vista à sua libertação, todos sem sucesso. O último foi apresentado a 23 de Abril deste ano ao Supremo Tribunal birmanês, que o rejeitou confirmando sentenças de prisão.

Nessa acção, os dois jornalistas revelavam provas de uma emboscada policial sem qualquer prova de crime – algo que já antes havia sido confirmado por um dos polícias que testemunhou no julgamento, que admitiu que o encontro durante o qual os documentos secretos lhes foram entregues foi “uma armadilha” destinada a impedi-los de prosseguir o trabalho.

A investigação, assinada pelos dois jornalistas,  e Antoni Slodkowski, conta com testemunhos dos perpetradores, testemunhas e membros da família das vítimas. Recebeu o prémio Pulitzer de reportagem internacional em Maio, uma das maiores distinções do jornalismo.

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