Sem pressão dos mercados, Trump volta a jogar ao ataque contra a China

Depois de um período em que satisfez as bolsas com um cenário de aparente entendimento com a China, o presidente norte-americano voltou a ameaçar com uma guerra de subida das taxas alfandegárias.

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Reuters/Damir Sagolj

Uma economia a dar sinais de que está a resistir melhor do que o esperado ao abrandamento global e um clima muito positivo nos mercados com subidas dos índices próximas de 20% durante este ano devolveram a Donald Trump a margem de manobra que precisava para voltar ao seu estilo agressivo de negociação nas conversações comerciais com a China.

Com duas mensagens na rede social Twitter, o presidente norte-americano mostrou este domingo o seu descontentamento com o que disse ser a forma demasiado lenta como estão a decorrer as negociações, acusou a China de tentar “renegociar” os pontos em cima da mesa e disse estar disposto a, ainda esta semana, aumentar de 10% para 25% as taxas alfandegárias sobre o equivalente a 200 mil milhões de dólares (178,4 mil milhões de euros) em produtos chineses importados pelos Estados Unidos. Isto é, ameaçou avançar com as medidas que tinham ficado suspensas quando ele próprio e o seu homólogo Xi Jinping acordaram em Buenos Aires no final do ano passado uma trégua para que as duas partes pudessem chegar a um acordo.

Do lado chinês, não houve para já uma resposta a esta declaração do presidente norte-americano. Inicialmente, surgiram notícias que apontavam para a possibilidade de Pequim cancelar a sua participação na próxima ronda negocial, agendada para Washington nesta quarta-feira, mas rapidamente as autoridades chinesas garantiram que continuavam a preparar-se para esse encontro.

Nos mercados, a reacção à ameaça de Trump foi negativa. Logo pela manhã, as bolsas europeias, incluindo a portuguesa, registaram quedas próximas de 2%. À tarde, registou-se alguma recuperação nos mercados europeus, com o principal índice da bolsa alemã a fechar o dia a perder 1,01%, a bolsa francesa a cair 1,68% e em Itália a registar-se uma descida de 1,63%. Em Portugal, o índice PSI20 perdeu 1,45% face ao fecho de sexta-feira. Como seria de esperar, o ambiente negativo transferiu-se para Wall Street, que apresentava uma descida de 0,57% no índice Dow Jones, a duas horas do fecho.

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 A resposta negativa dos mercados acontece porque, até aqui, a ideia dominante era a de que, mais tarde ou mais cedo, as duas partes iriam anunciar algum tipo de entendimento. Era, aliás, Donald Trump quem mais vinha fazendo para alimentar esta expectativa, dizendo em diversas ocasiões que as negociações comerciais entre EUA e China estavam a correr bem. No entanto, agora decidiu mudar de discurso.

O que mudou para que Trump tenha agora voltado ao seu habitual estilo de negociação, em que tenta colocar o outro lado sob pressão através da ameaça (e em alguns casos concretização) de uma subida das taxas alfandegárias? Se da Casa Branca a resposta que é dada é a de que a China começou a dar sinais de recuo, a verdade é que conjuntura económica dos Estados Unidos e o ambiente que se vive agora nos mercados também constituem uma boa parte da explicação.

Em Dezembro, quando Trump e Jinping decidiram assinar uma trégua e dar sinais públicos de um acordo estaria a caminho, os dois países estavam sob pressão da economia e dos mercados. Na China, vários indicadores económicos apontavam para um abrandamento da expansão da economia, o que tornava um conflito comercial com os EUA ainda mais indesejável. Nos EUA, para além de alguns indícios de abrandamento, os mercados bolsistas passavam por um período negativo, com vários analistas a culparem a política comercial de Trump pelo clima de reduzida confiança. Os dois presidentes tinham por isso motivos para darem ao mundo a boa notícia de um acordo iminente.

Agora, os indicadores económicos melhoraram na China e nos EUA e nas bolsas, especialmente em Wall Street, as últimas semanas foram de fortes ganhos. Desde o início do ano, o Dow Jones tinha, até esta segunda-feira, registado um ganho de 18%.

Isto parece ter dado margem de manobra a Trump (e provavelmente a Xi Jinping) para serem outra vez mais ambiciosos nas negociações. Do lado norte-americano, aquilo que se pede à China é, não só que compre mais produtos provenientes dos EUA, como se comprometa a mudar de forma ainda mais rápida a sua economia baseada nas exportações.

O problema de aproveitar a margem dada pelos ganhos das bolsas e é que este bom momento nos mercados, que gerou por sua vez um impacto positivo na confiança das empresas e dos particulares, é em grande parte devido à expectativa generalizada de que um acordo entre as duas potências económicas estava prestes a ser alcançado, travando o cenário de uma guerra comercial. E, por isso, a margem agora conquistada pode rapidamente voltar a desaparecer.