Análise

Uma jornada de decisões que promovem a verdade desportiva

Numa jornada relativamente calma e bem conseguida no que às prestações das equipas de arbitragem diz respeito, destaque para alguns lances nos quais as decisões técnicas e disciplinares foram decisivas para o desenrolar do jogo. Decisões, essas, que, entre o que o árbitro viu no momento e o que viu o videoárbitro (VAR), acabaram por se revelar como boas e assertivas em termos da tal verdade desportiva que é tão badalada, sobretudo pelos clubes.

No Belenenses SAD-Sporting o caso de jogo ocorreu ao minuto 21, quando Raphinha se isolou e, à entrada da área, mas fora desta, foi rasteirado e derrubado por Muriel. Tecnicamente, o árbitro assinalou livre directo; disciplinarmente, por se tratar de uma clara oportunidade de golo, expulsou (cartão vermelho directo) o guarda-redes do Belenenses SAD. Em ambas as decisões, nada a apontar. Relembrar apenas que estamos perante uma clara oportunidade de golo quando a distância entre o local da infracção e a baliza é curta, a direcção da jogada é no sentido da baliza, o jogador tem a possibilidade de manter ou controlar a bola e a posição e o número de defensores não permite intervir em tempo útil. Ora, todos estes factores se conjugaram. 

Quanto ao VAR, neste lance teria, de acordo com o protocolo, de verificar duas situações: se era dentro da área - e aí corrigiria para penálti (não foi o caso) - e se era mesmo uma clara oportunidade de golo - pois o cartão vermelho directo faz parte do protocolo - ou se se tratava apenas de um ataque prometedor (e, nesse caso, seria cartão amarelo).

No jogo FC Porto-Desp. Aves, dos diversos lances ocorridos, destaque para a boa intervenção e correcção do VAR, ao minuto 27, quando deu como acto deliberado e intencional a forma como Jorge Felipe, no interior da sua área, jogou e tocou a bola com o braço esquerdo, impedindo que Corona pudesse recebê-la depois de cruzada por Herrera. Um claro e óbvio penálti, que na zona onde ocorreu era difícil de descortinar pelo árbitro. 

Já não tão evidente - e daí não ter tido intervenção do VAR - foi a carga cometida por Jorge Felipe, com o seu braço esquerdo, nas costas de Soares, quando este estava no ar e sem qualquer dos pés apoiados no solo. O avançado é desviado e empurrado e, dessa forma, fica fora do lance e da possibilidade de jogar a bola de cabeça. Costuma-se olhar para estes contactos e perceber a questão da intensidade, mas quem anda no futebol sabe que quando um jogador está a saltar, sem os pés em contacto com o solo, basta um pequeno toque para o impedir de jogar a bola. 

Sendo um lance de difícil análise em jogo jogado, não deixa de ser uma infracção passível de penálti.Com o actual protocolo do VAR, que apenas permite a intervenção no caso de erro “claro e óbvio”, lances como este vão sempre ficar de fora da alçada do videoárbitro. 

Finalmente, na Luz, no jogo Benfica-Portimonense, o grande destaque vai para as diversas intervenções positivas, em relação aos foras-de-jogo, por parte dos árbitros assistentes (minuto 63, 66, 84 e 87), que em lances que resultaram em golo tiveram o chamado olho de lince, na forma como observaram e decidiram. Para isso, e olhando para as jogadas, muito contribuiu o seu posicionamento, sempre em linha com o penúltimo adversário - a boa movimentação, mas sobretudo a colocação é meio caminho andado para tomar uma boa decisão, pois estar mais à frente ou atrás dá sempre origem ao chamado erro de paralaxe. 

É um facto que, com o VAR, as situações de fora-de-jogo podem ser hoje quase a 100% corrigidas e revertidas, mas o ideal será sempre que dentro das quatro linhas a equipa de arbitragem consiga resolver com acerto todas a situações que se lhe deparam. Contudo, será muito importante que na próxima época o VAR tenha as mesmas condições que o público tem em casa, em relação às linhas virtuais, para aferir o fora-de-jogo, pois não faz sentido que a operadora (e bem) disponibilize as linhas e que na Cidade do Futebol o VAR não as tenha. 

Estou certo, porém, de que este é um assunto de máxima prioridade para este Conselho de Arbitragem e para a federação, que tudo tem feito para que os árbitros disponham de todas as condições para a realização dos jogos numa perspectiva da máxima de mais e melhor futebol.