Meghan teve o filho em casa: é um exemplo a seguir?

Ao contrário dos duques de Cambridge, os de Sussex terão decidido que o primeiro filho nasceria em casa. Em Portugal, o número de partos ao domicílio já foi uma tendência.

Príncipe Harry
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Harry à porta de casa a anunciar à imprensa o nascimento do filho Reuters/POOL

Meghan e Harry mudaram-se para Frogmore Cottage, no castelo de Windsor, e foi lá que o duque de Sussex falou com os jornalistas sobre o nascimento do seu filho, o sétimo na linha de sucessão ao trono britânico, nesta segunda-feira à tarde, fazendo depreender que o casal tinha optado pelo parto domiciliário. William e Kate decidiram ter os filhos no hospital. Antes, também Charles e Diana escolheram um hospital. Portanto, Harry terá seguido o exemplo da avó, Isabel II, que teve os seus quatro filhos no Palácio de Buckingham.

Nos dias de hoje, faz sentido nascer em casa? O serviço nacional de saúde britânico prevê as duas opções – o parto no domicílio e no hospital. Algo que não está contemplado em Portugal e que é firmemente desaconselhado pelos médicos. “Não é aconselhável ter um parto em casa, a duquesa teve porque montaram um bloco operatório em casa. O parto deve ser feito em ambiente hospitalar”, defende Luís Graça, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal ao PÚBLICO. 

Para Francisco George, ex-director-geral da Saúde, “é um mau exemplo o que a família real britânica dá”. O médico lembra que, em Portugal, o parto em casa “era sinónimo de risco”. Por isso, olha para a opção de Harry e Meghan como “uma decisão espectáculo, lamentável e altamente criticável”, lembrando que Portugal é um bom exemplo no que à baixa taxa de mortalidade infantil diz respeito, uma vez que existem todas as condições hospitalares para dar à luz em segurança. Em Portugal, em 1970, 93% das crianças nasciam em casa, situação que, um ano depois do 25 de Abril, já estava invertida. “Devemos muito a Albino Aroso. Não podemos voltar ao passado”, reforça.

Luís Graça acrescenta que há situações de saúde, do bebé e da mãe, que só podem ser acompanhadas no hospital, nos cuidados intensivos. E se montaram um bloco operatório em Frogmore Cottage, certamente que não montaram um de cuidados intensivos, alvitra. O médico recorre à ironia para aconselhar os casais que ponderem essa opção: “Se montarem tudo em casa, podem [fazer o parto no domicílio].” Francisco George reforça esta ideia: “O casal real teve acesso a medidas que não estão ao alcance da maioria dos cidadãos.”

Partos em casa a descer

Por cá, nos últimos anos, o nascimento em casa é uma opção que é tomada por menos de 1% das mulheres. Em 2013, 592 crianças nasceram em casa (0,7%); dois anos depois, o número subiu para 710 (0,82%); e o ano passado manteve-se nos 617 (0,7%). Contudo, há casais que procuram não só médicos e enfermeiros obstetras como outros profissionais, como as doulas — não são profissionais de saúde, mas prestam apoio emocional e físico durante todo o trabalho de parto e também no pós-parto — para levar a cabo o projecto de ter um filho em casa.

Rosália Marques, enfermeira-chefe no Hospital Garcia de Orta, em Almada, e dirigente da Associação Portuguesa de Enfermeiros Obstetras, defende que só quando estão asseguradas todas as condições é que se pode fazer um parto em casa, e uma dessas condições é a saúde da mãe e do bebé. Mas não só, é preciso ter meios de transferência rápida, caso algo aconteça, acrescenta Sandra Oliveira, doula e autora do livro Nascer Saudável, que aconselha o nascimento em casa a “mulheres saudáveis em países onde haja planos de transferência [de casa para o hospital], porque os imprevistos acontecem”.

Há dois anos que a doula deixou de apoiar partos no domicílio precisamente por esta questão e lamenta que não haja regulamentação nesta área da saúde, em que “há pessoas a pagar valores exorbitantes para parir em casa”. Luís Graça e Rosália Marques dão o exemplo da Holanda, onde as mulheres podem fazer o parto no domicílio porque está uma ambulância à porta para ser usada em caso de emergência. 

Por isso, a enfermeira-chefe aconselha as famílias a procurarem instituições hospitalares “que se preocupam com a humanização do parto”. “O movimento dos partos em casa nasceu com a preocupação do excesso da medicalização”, justifica. Também Vítor Varela, presidente do Colégio de Especialidade de Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica, da Ordem dos Enfermeiros, é da mesma opinião: “Quando alguém pensa [no parto em casa], é porque quer a menor intervenção possível e desnecessária.” Por isso, o profissional defende a existência de um plano de parto em que a grávida define com o médico e o enfermeiro obstetra como será o trabalho de parto. “Apesar de termos copiado o sistema de saúde britânico, houve algumas questões que não entraram no nosso, como a possibilidade do parto no domicílio”, lamenta o enfermeiro.