Opinião

A crise acabou como começou: num malabarismo

Não há que ter medo das palavras: quer Rui Rio, quer Assunção Cristas recuaram. António Costa foi capaz de inverter os tempos sombrios que pairavam sobre a campanha das europeias com a maior dádiva política da oposição em muitos anos.

A crise acabou três dias depois e, como começou em falsete, acabou em falsete no qual ninguém sai bem. Não sai bem o Governo e o PS porque criaram uma dramatização excessiva, claramente motivada pelo oportunismo eleitoral, que ameaçava criar uma instabilidade gratuita e danosa para o país por causa de uma lei anódina e inconsequente. Não sai bem o Bloco e o PCP porque, apesar da sua notória coerência programática, deram sinais de que para eles a defesa dos interesses do seu eleitorado vale mais do que uma visão sustentável a prazo das finanças do país. E, principalmente, não saem bem desta crise artificial o PSD e o CDS, que, viemos a saber, aprovaram o que não queriam aprovar e vestem agora a farda da vítima para nos dizer que tudo era uma mentira do Governo amplificada pela “histeria” dos jornais.

A crise acabou porque, com a exigência da aprovação de uma norma que garanta a estabilidade financeira ou o cumprimento das metas do Programa de Estabilidade, o CDS e o PSD sabem que não haverá pedido de demissão - as alterações aprovadas em comissão estão condenadas a soçobrar no plenário. Mas, o que vai acontecer no hemiciclo que não pudesse ter acontecido na quinta-feira? A pergunta que nem Rui Rio, nem Assunção Cristas responderam é muito simples: por que razão não exigiram a aprovação das alíneas que associavam o reconhecimento do tempo de serviço ao equilíbrio financeiro na comissão, chumbando o diploma após a recusa obstinada da esquerda em as acolher? Como se deixaram arrastar para um cenário que deixava o PS a reclamar para si o facto de ser o único partido responsável em matéria orçamental?

Não há que ter medo das palavras: quer Rui Rio, quer Assunção Cristas recuaram. António Costa foi capaz de inverter os tempos sombrios que pairavam sobre a campanha das europeias com a maior dádiva política da oposição em muitos anos. Mas não é ele que tem a culpa – para lá de, insista-se, lhe ficar mal a forma como transformou uma crise parlamentar num cenário pré-apocalíptico muito longe da realidade. Quem tem a culpa é afinal o frenesim típico dos momentos eleitorais que faz até um homem experiente, sensato e com nervos de aço como Rui Rio a cometer erros de principiante.

Face ao que tinha acontecido, o recuo é apesar de tudo o menor dos males. Nem o eleitorado do PSD, nem o do CDS viveriam bem ao saber que a sua liderança vendeu a alma ao diabo à esquerda mais extrema, ao reconhecer que cederam às pressões de um dos mais poderosos lobbies sindicais do país, ao constatar que trocam a herança de responsabilidade financeira do Governo de Passos por uns milhares de votos de uma classe descontente.

Já aqui tínhamos escrito que as alterações ao decreto-lei do Governo que contabilizava em dois anos a recuperação do tempo de serviço perdido pelos professores era uma farsa. Os partidos, com excepção do PS, estavam a dizer aos docentes que podiam contar com o seu apoio para recuperarem todo o tempo perdido sem que isso tivesse qualquer consequência nas suas carreiras e nos seus salários – pelo menos a médio prazo. O Governo foi mais esperto ao perceber que, apesar dessa inconsistência, o PSD e o CDS lhe davam de bandeja um momento para aparecer aos olhos do país como o porta-estandarte da responsabilidade. Não o desaproveitou.

O Governo acabou por vencer, mas, ainda assim, é uma vitória de Pirro. Ninguém ganhou com o episódio, muito menos os professores. O clima crispou-se um pouco mais. Tudo por causa de uma crise absurda que revelou uma confrangedora imaturidade do Parlamento e dos seus actores.  

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