Crónica

Não é só o tempo que nos transforma. O tempo livre também

Aquelas férias grandes eram transformadoras. Não é só o tempo que nos transforma. É o tempo livre também. Quando podemos, como dizia Agostinho da Silva, “poetar”, vadiar. Depois daquelas férias, regressava sempre com mudanças acontecidas e a acontecer dentro de mim. Chegava outra ao Outono.

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Jeremy Ricketts/Unsplash

Vem-me tudo à cabeça de repente: lembro-me de ficar a ler até às seis da manhã, era começar e acabar o livro no mesmo dia, não havia escola. Lembro-me de ter fumado o meu primeiro cigarro, até me lembro ao som de que música foi, mas não quero contar, lembro-me de nos enfiarmos num café a tarde toda em dias de sol e de acharmos boa ideia ir para a praia à noite.

Nessas noites, havia revelações. Meio às escuras, havia conversas intermináveis e declarações sobre a vida, nunca mais tive disponibilidade para conversas assim, estou sempre com pressa. Parecia tudo tão alinhado de vez em quando, no meio do desalinho que é a adolescência, embora isto das férias grandes também me traga outras tantas memórias da infância.

Lembro-me de amizades a estrear, trocávamos moradas e chegávamos a corresponder-nos. Fiz amigas a sério. Ainda hoje o somos, mesmo que nunca estejamos juntas. Lembro-me de me apaixonar muitas vezes. Lembro-me do baú de metal branco que passava com bolos na praia.

Não me lembro disto, porque não era um episódio, mas tenho a certeza que acontecia: eu era uma pessoa antes das férias grandes começarem e transformava-me noutra, não sei se melhor, se pior, mas com mais experiências e horizontes, ao fim daqueles meses.

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Acontecia tanto que, depois do Verão, até me apetecia voltar à escola. Parece uma contradição, porque eu não queria que as férias acabassem, mas a verdade é que também gostava de comprar os cadernos e de forrá-los com fotografias de músicos e sei lá mais o quê. Dava-me prazer folhear os livros novos, cheirá-los. Não é invenção, ficava com vontade de estudá-los, punha-me a preencher o horário em papel, a organizar estojos e capas com separadores, a secretária.

Desde que deixei de ter aquelas férias grandes, nunca mais voltei a sentir isso. Para tudo, precisamos de tempo. E tempo é algo que não abunda nos dias que correm.

Lembrei-me disto com a chegada do calor, do bom tempo (não é o mesmo tempo, mas os dois cruzam-se no caso). Com esta luz ao fim do dia, parece que não chego tão tarde a casa. Lembrei-me do cheiro a férias, ao bom tempo e a muito tempo. Lembrei-me da cidade meia deserta, das praias cheias. Das noites de janela aberta. Não havia escola e havia muitas tardes e horas. Para ficarmos para ali a ouvir música. Em silêncio, com perguntas repentinas. Havia tanto tempo, mas não havia tempo a perder. Podíamos desperdiçar tempo. No que nos apetecesse. Nunca era desperdiçar, era aproveitar.

Aquelas férias tão compridas traziam-me gente nova à vida, pessoas de outras cidades, de outros países. Com elas, vinham livros, músicas, ideias novas, até roupas diferentes, outros estilos. O Verão e aquelas férias grandes eram transformadores. Não é só o tempo que nos transforma. É o tempo livre também. É a passagem do tempo, sim, nos meses e estações. Mas é também esse tempo em que podemos, como dizia Agostinho da Silva, “poetar”, vadiar. Depois daquelas férias, daquele tanto tempo seguido desocupado, nunca voltava a mesma. Regressava sempre com mudanças acontecidas e a acontecer dentro de mim, chegava outra ao Outono.

A falta de tempo livre tira-nos uma parte de sermos humanos. Tira-nos os momentos em que nos podemos deitar de barriga para cima a olhar para as estrelas. Tira-nos as conversas sobre nada. Tira-nos o tédio. Tira-nos o ócio. Tira-nos os pátios, as sombras, os passeios, as praias. As ideias súbitas, as demoradas, tira-nos muitas vontades. Até de regressar à escola e ao trabalho. E de regressarmos uns aos outros, não porque alguém faz anos ou vai mudar de cidade. Regressarmos uns aos outros só porque sim, porque temos tempo, porque não temos nada para fazer. E, às tantas, não sei, não tenho tempo para pensar nisso agora, mas, às tantas, não haverá nada de muito mais importante para fazermos do que isso, do que essa coisa de nós e os outros.