Alba Plaza e Marisa Ferreira, responsáveis pelo projecto Os Azulejos do Porto e por workshops de pintura de azulejos, no Bonfim.
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Alba Plaza e Marisa Ferreira, responsáveis pelo projecto Os Azulejos do Porto e por workshops de pintura de azulejos, no Bonfim. Nelson Garrido

As “caçadoras” de azulejos que só os querem ver nas fachadas — e agora numa exposição

Uma espanhola perguntou a uma portuguesa mais coisas do que ela sabia responder sobre os azulejos que revestem tantos edifícios do Porto. A curiosidade de Alba Plaza e Marisa Ferreira levou-as a criarem um arquivo online dos azulejos portuenses, workshops semanais de pintura à mão e, agora, a inaugurarem uma exposição.

“Azulejo” é a mesma palavra nas línguas de Marisa e Alba. Só a muda, quase de forma inaudível, o ligeiro sotaque portuense da primeira e a pronúncia madrilena da segunda quando as ouvimos explicar o processo de pintura manual de um azulejo a uma mesa cheia de turistas.

Há quase três anos que a produtora cultural portuguesa e a designer gráfica espanhola andam a fazer um levantamento dos azulejos de fachada do Porto. Máquina fotográfica ao ombro, calcorreiam as ruas da cidade numa tentativa de preservarem, pelo menos, os padrões, mesmo que os materiais venham a ser destruídos. Tiram uma fotografia à parede e ao azulejo individual, apontam o nome da rua, o número da porta, as cores, o tamanho, e, caso consigam identificar, ainda a fábrica onde foram produzidos e as técnicas de pintura: esponja, livre, estampilhas (stencils), impressão.

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Alguns exemplares recolhidos por Alba Plaza e Marisa Ferreira para o catálago dos Azulejos do Porto. Azulejos do Porto

O catálogo dos Azulejos do Porto, em constante actualização e disponível online gratuitamente, mapa incluído, já foi distinguido pelo projecto SOS Azulejo. Este ano, Alba Plaza e Marisa Ferreira decidiram celebrar. No sábado, 4 de Maio, antecipam mais um Dia Nacional dos Azulejos, que se assinala a 6 de Maio, com a inauguração de uma exposição na Senhora Presidenta, uma jovem galeria de arte no Bonfim, freguesia onde também têm o seu atelier. Convidaram nove ilustradores, tatuadores e designers a usarem, cada um e alguns pela primeira vez, um painel de quatro azulejos como tela — e as duas também assinam um dos trabalhos expostos.

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Alba Plaza e Marisa Ferreira, responsáveis pelo projecto Os Azulejos do Porto e por workshops de pintura de azulejos, no Bonfim Nelson Garrido

Uma exposição que “trouxesse contemporaneidade à azulejaria” já estava há muito à espera de ser riscada da to-do list da dupla. Agora, se tivessem de ordenar por urgência os próximos passos do projecto, em cima surgiria a conclusão do arquivo digital e, logo depois, outros dois desafios megalómanos: abrir um museu dos azulejos no Porto e obter financiamento para poderem dedicar mais tempo à tarefa de “protecção” a que se propuseram. “Um projecto nobre”, feito de “forma muito científica”, se quiserem também considerar a opinião dos turistas que com elas aprendem mais sobre os azulejos da cidade que visitam (muitas das vezes, por causa deles).

Clorophilla foi uma das turistas a inscrever-se nos workshops da Gazete dos Azulejos. É, também, uma ilustradora italiana​. Alba, 37 anos, e Marisa, 38, encantaram-se com o trabalho dela e a partir daí a artista “passou metade das férias” a pintar azulejos, que também vão integrar a exposição colectiva patente até 6 de Junho.

No workshop que organizam quatro dias por semana (25 euros por pessoa, com materiais e um azulejo incluídos) — a forma encontrada para financiarem a catalogação que lhes rouba muitas horas — Alba e Marisa já tiveram portugueses, mas são os turistas que mais as procuram. Chegam à cidade para verem os famosos azulejos que não se limitam a revestir interiores mas também abrilhantam exteriores e surpreendem-se com a “falta de informação” que encontram. Foi também assim o início da viagem de Alba, cuja curiosidade Marisa, mesmo a viver na cidade desde 2001, não sabia satisfazer.

As duas começaram a investigar a história do património azulejar de fachada da cidade, “porta a porta”, “muita rua”, a pé e de carro. Falaram com artesãos, atiraram-se aos arquivos das bibliotecas municipais, encontraram-se com coleccionadores, ouviram as histórias dos edifícios contadas pelos donos e por quem já lá vive há muitos anos. Visitaram algumas das antigas fábricas nos arredores da cidade, agora “todas abandonadas, em ruínas”. Mostram-nas numa parede no atelier, debaixo de um dramático letreiro onde escreveram, a maiúsculas: “RIP FACTORIES” — estão lá Devesas, Miragaia, Carvalhinho, Santo António do Vale de Piedade e a mais antiga, Massarelos.

Desta (1766-1936), restam dois fornos junto ao rio onde Alba e Marisa confessam que gostavam de organizar actividades, como o workshop onde estamos, no atelier arrendado no Bonfim. Ali, ensinam como replicar um dos 20 azulejos dispostos em cima da mesa comprida e que também podem ser vistos mais tarde, num passeio pela cidade. Ou outro padrão qualquer. Descansam quem opta por pincelar livremente: “Reinventar também é preservar.” “Estamos a fazer isto porque a cidade está a perder muitos azulejos”, alertam. "E achamos que isto é um crime porque estão a destruir património.” Espalhados pela cidade, estimam, “há cerca de mil padrões”, mais se forem consideradas todas as pequenas variações. Elas já mostraram quase 300. 

PÚBLICO - Os workshops decorrem na Rua Comandante Rodolfo de Araújo, 162, 2º andar, no Bonfim. Custam 25 euros por pessoa.
Os workshops decorrem na Rua Comandante Rodolfo de Araújo, 162, 2º andar, no Bonfim. Custam 25 euros por pessoa. Nelson Garrido
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O processo é este: primeiro, fotografam o azulejo isolado na fachada — são “caçadoras” de azulejos, sim, mas daquelas de câmara na mão. Depois, vectorizam a imagem para fazerem as estampilhas (os stencils) de plástico transparente que permitem reproduzir mais facilmente o padrão. Basta pousá-las em cima do azulejo branco, poroso, e pintar por cima. É preciso escorrer bem o pincel antes, mas o óxido misturado com água e em contacto com a cerâmica seca quase imediatamente. Quando se levanta o stencil, pela primeira vez a medo, o padrão revela-se em tons pastel, baço. Só depois de os azulejos irem, pela segunda vez, a cozer — mil graus no forno que Alba e Marisa têm em casa, durante quase 20 horas — é que ganham o aspecto vítreo e as cores que lhes reconhecemos. O azul-cobalto que pinta o Porto, por exemplo, em pó é lilás.

“Percebemos, em conversa com artesãos, que o azulejo pintado à mão está a desaparecer e que as pessoas não conhecem o processo de fabrico”, acredita Marisa. “E se calhar por isso é que não os estão a preservar.” No ensino secundário profissional, Marisa estudou pintura decorativa, em Lisboa. “Aprendi todas as técnicas, menos azulejaria. Porquê? Não sei. Não consideram uma arte muito nobre, se calhar.” As duas já foram várias vezes confrontadas com esta visão do azulejo, não como “uma obra artística, mas [só como] um material de construção.”

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Joana Abreu preenche alguns espaços vazios da cidade com poemas ou citações. @preencher_vazios

Ainda há um mês, resgataram de um contentor alguns pedaços de azulejos que foram removidos e deitados fora aquando da reabilitação de um edifício no Porto. “A lei diz que se a câmara não achar que os azulejos têm muito valor patrimonial, eles podem ser retirados. Então é como se não houvesse lei”, lamenta Alba. Estavam todos partidos, mas Alba e Marisa conseguiram rapidamente perceber de onde vinham. O truque é olhar para a parte de trás, o tardoz, onde leram: AA Costa, F. Das Devezas – a fábrica de cerâmica e de fundição em Vila Nova de Gaia, que fechou no final da década de 1980. Aqueles exemplares escangalhados, que para já guardam numa caixa de cartão, estimam, “deverão ter cem anos”. 

Quando o workshop acaba, um casal estrangeiro, jovem, aguarda ansiosamente por entrar. Alba e Marisa cumprimentam-nos e dispõem na mesa, quase com se fosse um puzzle, um painel de azulejos, azul e branco. Os cantos, revestidos com uns dos motivos mais antigos que é possível encontrar na cidade, emolduram uma frase em inglês, retirada de uma conhecida música de Elvis Presley. Vai, brincam os noivos, “aparecer em todas as fotografias do casamento”. “Alguma coisa que precisamos de saber?” O noivo refere-se à manutenção. “Só que dura para sempre.” Alba refere-se aos azulejos.