Após desastre eleitoral, May e Corbyn prometem mais esforço na solução para o “Brexit”

Conservadores e trabalhistas vêem resultados desastrosos nas eleições locais como sinal de que os eleitores querem uma solução para o impasse do processo de saída do Reino Unido da União Europeia.

Foto
NEIL HALL/EPA

A primeira-ministra britânica, Theresa May, e o líder da oposição, o trabalhista Jeremy Corbyn, prometeram redobrar os esforços para conseguir uma solução que quebre o impasse do “Brexit” e aprovar um acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia depois de eleições locais em Inglaterra e Irlanda do Norte em que tiveram grandes perdas.

Os conservadores foram o partido mais castigado, com menos 1300 vereadores do que nas eleições de 2015 (tinha 4838 lugares de vereação em disputa), a sua pior derrota numas eleições destas desde 1995, quando o então muito pouco popular John Major era primeiro-ministro.

Não demorou até que se ouvissem vozes pedindo a demissão de Theresa May: mal a primeira-ministra discursou, ainda na sexta-feira, em Llangollen, no País de Gales, um homem na assistência interrompeu-a: “Por que não se demite? Não a queremos”. Este sábado, o antigo líder dos Tories Iain Duncan Smith voltou a pedir a demissão de May, descrevendo-a como uma primeira-ministra “interina” e classificando as suas tentativas de chegar a um acordo com o partido trabalhista como “absurdas”.  

Se o resultado do Partido Conservador foi péssimo, o do Partido Trabalhista também não foi bom – previa-se que conseguisse aproveitar a queda esperada dos conservadores, mas em vez de ganhar mais lugares, acabou por perder 82 vereadores. “É surpreendente, e um desapontamento, que o Labour não tenha conseguido tirar proveito de um governo tão dividido e caótico” como o de Theresa May, comentou a editora de política da BBC, Laura Kuenssberg.

Subida dos partidos anti-"Brexit"

O Partido Liberal-Democrata de Vince Cable, que apoia a permanência do Reino Unido na União Europeia, foi um dos principais beneficiários da queda dos dois principais partidos britânicos (ganhou 703 lugares, conseguindo mais do dobro de lugares do que na última votação). Cable disse que cada voto nos Lib-Dem foi “um voto para parar o ‘Brexit’”, segundo a BBC.

Também os Verdes tiveram um bom resultado com mais 194 vereadores do que em 2015, quando tinham conseguido 71. A co-líder Sian Berry referiu as eleições como “umas 24h horas espectaculares” e acrescentou que “os eleitores estão fartos da política gasta do passado, que conseguiu deixar o Reino Unido numa confusão com o Brexit”, cita o Guardian.

O antigo deputado conservador e defensor da continuação do Reino Unido da UE, Matthew Parris, escreveu na sua coluna no diário The Times que “os resultados gritam duas coisas: que está a emergir uma clara maioria contra a saída da União Europeia, mas também que a não ser que os partidos que lutam pela continuação na União Europeia consigam esquecer o seu orgulho e trabalhar juntos para tornar essa maioria num resultado real eleitoral, continuaremos a ser divididos e afastados”.

Alguns deputados trabalhistas que defendem um segundo referendo dizem, segundo o Guardian, que os resultados mostram um falhanço da tentativa de Jeremy Corbyn ganhar tanto eleitores que querem que o Reino Unido saia como eleitores que querem que o Reino Unido fique.

Mas não foi assim que Corbyn leu os resultados. “Penso que isto significa que há um grande ímpeto em cada deputado, independentemente de eles próprios serem do campo do Leave ou do Remain, que é preciso um acordo. O Parlamento tem de resolver isto – penso que isso é muito, muito claro”.

O ministro-sombra das Finanças, John McDonnell, disse que a mensagem dos eleitores foi: “‘Brexit’​ – resolvam isso”.

Muito parecido com o que disse a própria Theresa May, para quem os eleitores quiseram dizer algo muito simples: “Despachem-se e concretizem o ‘Brexit’”.

O ministro da Saúde Matt Hancock também defendeu que era essa a mensagem e acrescentou: “as pessoas querem o ‘Brexit’ e não “esta forma particular de ‘Brexit’​”, dando a entender que o partido poderá ceder nas conversações com os trabalhistas.

May e Corbyn têm até 30 de Junho, nota o site Politico, para fazer aprovar o acordo de saída antes da tomada de posse dos eurodeputados britânicos eleitos a 26 de Maio. Estas eleições, inéditas já que servem para eleger representantes para um Parlamento de uma instituição de onde se está de saída, deverão dar resultados ainda piores aos conservadores e aos trabalhistas.

“Deverá ser o pior resultado dos conservadores no Reino Unido desde a sua fundação em 1834”, comentou ao Politico Tobias Gerhard Sminke, do centro de estudos Europe Elects. A mais recente sondagem para as europeias no Reino Unido dá a grande vantagem ao novo partido do “Brexit”, de Nigel Farage, com 27%, seguido de 23% para o Labour, e apenas 14% para o Partido Conservador. Lib-Dem e Verdes conseguiriam 8%.