Digressões e discos mais caros: “É indiscutível que a música britânica vai sofrer” com o “Brexit”

Músicos pedem “passaporte de digressão” e festivais britânicos começam a antever problemas. Artistas emergentes podem ser os mais afectados.

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MIGUEL MANSO

“Imagine o Reino Unido sem a sua música.” O convite foi feito em Outubro por Bob Geldof à primeira-ministra Theresa May numa carta aberta subscrita por dezenas de artistas, entre os quais Damon Albarn, Jarvis Cocker, Brian Eno, Johnny Marr, Rita Ora ou Ed Sheeran. “Decidimos encerrar-nos numa prisão cultural que construímos!”, exclamavam, resumindo as preocupações do meio musical perante o “Brexit"; em causa, temem, poderão estar digressões com muitas datas próximas entre si, a cobrança de direitos de autor, a circulação de CD, vinis ou guitarras.

“O Brexit vai impactar todos os aspectos da indústria musical. Das digressões aos royalties​, passando pelas vendas e pela legislação de direitos de autor​”, garantiam então os músicos, lembrando que “uns enormes 60% dos direitos de autor pagos ao Reino Unido vêm da União Europeia”. “Até o movimento de instrumentos pode tornar-se mais problemático”, tinha já avisado o compositor Howard Goodall no jornal Irish Times.

Um dos subscritores da carta aberta, Jarvis Cocker, vai actuar no Nos Primavera Sound, no Porto, em Junho. O promotor João Carvalho, que organiza o Primavera e também o festival Vodafone Paredes de Coura, onde em Agosto estarão os também britânicos New Order, diz ao PÚBLICO que nas contratações deste ano “foi tudo absolutamente pacífico” e que o tema não veio à baila nas recentes reuniões em Barcelona com a estrutura-mãe do Primavera Sound. Deste lado do canal da Mancha, não antevê perturbações de maior —​ para já. “O Brexit ainda é uma incógnita”, nota, admitindo que as bandas emergentes possam ser o elo mais fraco, vendo-se especialmente prejudicadas pelo aumento dos custos e dos tempos em viagem. “Enquanto promotor vou fazer as propostas à mesma. As bandas mais pequenas poderão ter dificuldades de circulação, mas não me parece que ponham as digressões em causa. Vai aumentar a burocracia na deslocação das bandas e na sua saída de Inglaterra.”

Este ano, porém, dois festivais britânicos já começaram a notar diferenças. “É mais difícil contratar artistas por causa do ‘Brexit'”, dizia em Fevereiro Chris Smith, director do festival de músicas do mundo Womad, ao diário britânico The Guardian. Muitos receiam não conseguir vistos, o que Peter Gabriel, o fundador do Womad, considera um “alarmante” sinal do “novo medo de não serem bem-vindos”. O mesmo Guardian relatava há um mês que a booker do festival de metal Bloodstock recebeu este ano muitos pedidos das bandas para actuarem mais tarde — temem filas nos aeroportos que as impeçam de chegar a horas, vindas de outros concertos em digressões calibradas para as facilidades do espaço comunitário.

Do lado de quem está no Reino Unido e quer actuar numa Europa continental que foi determinante para o sucesso de bandas como os Massive Attack, por exemplo, Michael Dugher, presidente do lobby UK Music, pede a criação de um “passaporte de digressão” para diminuir burocracia e custos que no pós-Brexit possam afectar músicos, equipas mas também material e merchandising. Al Doyle, dos Hot Chip e dos LCD Soundsystem, lembrava no Guardian que “as margens [de lucro] de andar em digressão são tão escassas que mesmo que se acrescente [apenas] um pequeno elemento de custos burocráticos — vistos, passaportes de digressão para o equipamento — não seria exequível”. “E concluía: “É simples e indiscutível que a música britânica vai sofrer.”  

Nos últimos meses, o sector vem desfiando mais temores: a venda de música em formato físico pode tornar-se mais cara se aumentarem os custos alfandegários e demorarem os prazos de entrega; e há até isenções de pagamento de segurança social para músicos em digressão na UE que podem desaparecer.