Reportagem

Cláudia e Jorge puseram o azulejo e a calçada portuguesa na moda

Cláudia Antunes e Jorge Amaral criaram uma marca de calçado que pretende exaltar a arte portuguesa, em especial a azulejaria. Começaram com as sapatilhas e já vão nas carteiras e porta-moedas

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Cláudia Antunes e Jorge Amaral estão juntos na vida e nos negócios Adriano Miranda

Gostam do que é português. De produtos genuínos e com identidade. Essa propensão para apostar nas coisas que são tão nossas ajuda a explicar como chegaram à criação de uma marca própria de sapatilhas, a Walk With Art. Mais do que criar uma nova linha de calçado desportivo 100% português, Cláudia Antunes e Jorge Amaral decidiram colocar a arte portuguesa nos nossos pés. Começaram a jogar em casa, com o painel de azulejos do Rossio, em Viseu, e não tardaram a chegar a Válega, Porto, Pinhão, Funchal e Aveiro. A aposta revelou-se um sucesso e aos painéis de azulejos já juntaram a calçada portuguesa e o bordado da Madeira, entre outros motivos portugueses. E ideias não lhes faltam.

“Falta-nos o Alentejo e o Algarve”, reparam, quase que em uníssono. “Também o Coração de Viana”, acrescenta Cláudia Antunes. A marca acabou de lançar dois novos modelos – um dedicado ao painel de azulejos de Aveiro e o outro a Eça de Queirós e Fernando Pessoa – mas as mentes de Cláudia e Jorge não param. Há já alguns anos, confessam, que vivem para a marca. E também para a loja que lhe serviu de berço, situada no centro histórico de Viseu, AndaVer Portugal – carregada de produtos nacionais, claro está. “No fundo, a loja e a marca são o nosso filho, que vemos crescer”, testemunham.

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Sapatilhas a partir 59 euros, porta-moedas a partir de 9 e carteiras a partir de 88 euros Adriano Miranda

Cláudia é designer gráfica, tem 38 anos, e é natural de Outeiro da Vinha, Seia. Jorge é decorador, tem 41 anos, e vive em Viseu desde os 12 anos – nasceu e cresceu em França. Estão juntos na vida e também nos projectos empresariais. Começaram com um espaço que era, acima de tudo, um ponto de encontro, chamava-se PorqueSim. Decidiram, depois, apostar num novo conceito, um espaço que fosse uma montra de produtos regionais e nacionais, lançando-se na loja AndaVer Portugal.

Estavam lançadas as sementes para o casal, em 2016, se aventurar na experiência que viria a alterar o rumo do seu negócio (e também das suas vidas). “Decidimos lançar umas sapatilhas com a imagem do painel de azulejos do Rossio e o sucesso foi surpreendente. As pessoas faziam fila à porta da loja”, lembram. Na altura, a Walk With Art era apenas um slogan, parte integrante da AndaAver – o registo da marca aconteceu algum tempo depois. No ano seguinte, a aposta estendeu-se a outra obra-prima da arte da pintura do azulejo, a fachada da Igreja de Válega, em Ovar e, mais uma vez, não faltaram avaliações positivas.

“Há todo um fascínio, merecido, pelo azulejo português. Essa arte não tinha era ainda sido valorizada da forma como nós o fizemos”, interpreta Jorge Amaral. Seguiram-se mais umas quantas colecções: uma dedicada ao painel de azulejos do Pinhão (que retrata o Douro e as vindimas); outra com a fachada da Fábrica das Devesas, no Porto; a colecção do Funchal (exclusiva da loja Portugal Labels); e a de Sintra (exclusiva do Palácio Nacional da Pena, Sintra). A estas juntam-se também a colecção do Museu Arte Nova de Aveiro (exclusiva do Atelier Pássaro de Seda), bem como as colecções de autor – todos os anos, a marca lança um concurso para jovens artistas e selecciona o melhor desenho (o tema do concurso deste ano foi o fado) – e as da calçada portuguesa e da renda.

Uma forma de levar Portugal bem longe

Cláudia e Jorge não têm dúvidas de que as sapatilhas, e agora também as carteiras e porta-moedas – a gama, entretanto, alargou-se aos acessórios -, ajudam a promover a arte portuguesa e o país em geral. “Temos alguns turistas estrangeiros que compram as sapatilhas e nos perguntam onde estão localizados os painéis para os ir visitar”, afiança Cláudia.

E há um ritual que parece já ter virado moda, “as pessoas gostam de fotografar a sapatilha ou a mochila com a imagem do painel por trás”, referem. Tendência à qual o casal não é totalmente alheio. “O pouco tempo livre que temos é para andar a tirar fotografias. Para alimentar as páginas de Facebook e de Instagram da marca ou então para ver locais que possam vir a ser trabalhados em futuras colecções”, testemunha Jorge Amaral. Menos mal: ambos adoram fotografar. Também gostam de viajar, mas a marca e a loja não têm deixado grande espaço para correr mundo. “A última viagem que fizemos foi à Madeira, em trabalho”, referem.

“Não conseguimos desligar, estamos sempre a trabalhar na marca”, declaram, explicando que o processo produtivo ainda passa todo pelas mãos deles. “Trabalhamos os desenhos das sapatilhas e dos acessórios, escolhemos os materiais, acompanhamos a produção nas unidades produtivas, sempre a tentar melhorar...”, revelam. Fazem questão de manter a produção e os materiais 100% nacionais. “As sapatilhas são produzidas em Felgueiras, as carteiras em Ourém e os porta-moedas em Braga”, desvendam. Acreditam que tão importante quanto divulgar a arte portuguesa é “também promover e ajudar as pessoas que têm esse saber fazer”, vincam.