Opinião

Por favor, António Costa, demita-se!

Fica claro que o que se está a passar vai além de uma quezília com os professores. Existem problemas graves, ou pelo menos um desgaste elevado entre os partidos que apoiam o poder. Os professores estão a ser utilizados para algo que está muito acima deles.

É difícil manter um raciocínio equilibrado quando constatamos um ataque cerrado aos professores, com argumentos falsos, que visam manipular e confundir a opinião pública. Mas vamos por partes…

A intenção do Parlamento de recuperar todo o tempo de serviço docente, não irá ter qualquer impacto neste Orçamento do Estado ou nesta Legislatura. O argumento de António Costa de que a recuperação do tempo de serviço não constava do programa do PS é verdadeira, mas também não constava no seu programa o atirar de milhões para o “pobre” setor bancário, seja público ou privado. É, por isso, de uma arrogância extrema, considerar-se afetado por algo que nem sequer sabe se o irá afetar. Ou então António Costa tem algum poder de adivinho que o povo desconhece…

O motivo desta “birra” são os alegados milhões que serão gastos e que até colocarão em causa a nossa credibilidade internacional, pasme-se! Pois bem, os professores já desmontaram todos os números apresentados pelo ministro das Finanças que, de forma demagógica, fala em valores ilíquidos e ignorando os aumentos diferenciados em virtude dos diferentes escalões dos professores. Além disso, o número de professores que irão reformar-se ao longo dos próximos anos é de milhares, o que, só por si, desmente os números de 600 e 800 milhões apresentados. O professor Maurício Brito fez as contas, em parceria com outras entidades e calcula que a recuperação integral do tempo de serviço, custará cerca de 50 milhões por ano, no caso de optarem pela solução da Madeira, que consiste em recuperar os quase dez anos no prazo de sete anos.

Diabolizar os professores, quando estes são credores do Estado, vitimizando quem deve, quem não paga nem quer pagar, é de uma imoralidade inqualificável de um Estado que é suposto ser de bem. Enquanto professor e pai, transmito os valores de que devemos pagar sempre as nossas dívidas, mas neste país à beira mar plantado os credores do Estado são os maus da fita, colocados quase ao nível de parasitas sociais!

Por fim, a falta de equidade que António Costa afirma, dizendo que não é justo para a restante população. Verdade! Subscrevo! A restante população é vítima da incompetência de muitos governos que levaram a uma das mais altas dívidas da União Europeia e consequente intervenção da troika. Esta tentativa de diabolizar os professores perante a restante opinião pública lembra bem o tempo de Maria de Lurdes Rodrigues. Quando os professores se queixam da falta de respeito pelo seu trabalho é disto que estão a falar. Podiam justificar com humildade, pedindo compreensão e paciência aos professores, mas não, chamam-nos inflexíveis, intolerantes, quando estes mesmos senhores e seu respetivo partido assinaram um compromisso e votaram inclusive pela recuperação integral do tempo de serviço. Foi no início, no tempo da lua-de-mel, quando os sorrisos eram muitos e as promessas também.

Para qualquer analista amador, fica claro que o que se está a passar vai além de uma quezília com os professores. Existem problemas graves, ou pelo menos um desgaste elevado entre os partidos que apoiam o poder. Os professores estão a ser utilizados para algo que está muito acima deles.

Por isso, Sr. Primeiro-Ministro, se não está à altura do cargo, se não entende que o Parlamento é a voz do povo e que a democracia tem destas coisas, demita-se, vá-se embora, pois governar não é apenas apresentar défices baixos com cativações atrás de cativações.

E por fim deixo uma questão ao leitor: acha que os professores vão ficar com o dinheiro no bolso ou vão injetá-lo na economia?

Sejamos sérios!

Professor, pai e autor do blogue ComRegras