Crítica

Virginie Despentes: um talento impiedoso

Virginie Despentes apresenta-nos um anti-herói melancólico e desiludido — em jeito de uma ousada e sofisticada radiografia da “comédia humana” dos nossos dias.

Virginie Despentes
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Um talento impiedoso, um registo áspero e cru: Virginie Despentes Jean-François Paga

Vernon Subutex 1 — o primeiro volume de uma trilogia já publicada em França — da cineasta e escritora francesa Virginie Despentes (n. 1969), é um romance audaz e modernamente pícaro, escrito numa prosa vívida e fluída que, numa prova de risco e ousadia, deixaria o senhor Houellebecq lá para trás. Este livro várias vezes premiado — e finalista do International Man Booker Prize 2018 — é uma épica sátira social, um quadro realista da França do século XXI, mas também um retrato dos nossos dias atarefados, do nosso egoísmo, das injustiças a que quase nos tornámos indiferentes. Vernon Subutex 1 é um romance lúcido, com uma clara intenção política, e que ao descrever as consequências de um modo de vida no cenário de uma cidade (Paris, mas podia ser qualquer outra capital europeia) não deixa de radiografar as causas: “as pessoas desta geração foram criadas ao ritmo da Voz da casa do Big Brother: um mundo em que o telefone pode tocar a qualquer momento para ordenar a expulsão de metade dos seus colegas. Eliminar o próximo é a regra de ouro dos jogos que lhes meteram no biberão. Como pedir-lhes, nos dias que correm, que considerem isso doentio?”