Opinião

O Ajax de sempre

Mais cedo ou mais tarde, vai chegar o momento em que dizemos: “É agora ou nunca.” É aquele momento em que todos os astros devem alinhar-se, em que o trabalho de uma época (ou de uma geração) vai a exame. O momento findo o qual já nada será como dantes. É como se estivéssemos na trajectória de subida de uma montanha-russa mas já a avistar a curva descendente que se aproxima. Com as ressalvas devidas, este é o sentimento que atravessa actualmente o Ajax, um clube que regressa às origens sempre que um ciclo chega ao fim.

É notável e ao mesmo tempo entusiasmante perceber como uma convicção, mesmo que retocada pela velocidade do avanço da indústria, consegue resistir ao passar dos anos, à vertiginosa evolução do futebol e à ditadura dos milhões. É um ideário enquadrado pela necessidade, é certo, mas não deixa de ser uma escolha. A maioria da concorrência seguiu caminhos diversos. O Ajax agarrou-se à sua matriz.

Numa leitura mais superficial, o que faz do Ajax versão 2018-19 um extraterrestre num futebol de terráqueos é o facto de a desigualdade orçamental de que sofre - quando comparado com as potências europeias - não ter minado a sua capacidade de ir ultrapassando rivais na mais exigente prova de clubes do planeta. Mesmo partindo da cauda da grelha para uma corrida feita (pelo menos) a duas velocidades. Mas o que verdadeiramente encanta nesta fornada de talento é percebermos que a escola continua de portas abertas.

O sucesso deste projecto, independentemente de como terminar a eliminatória com o Tottenham, é a perpetuação de um legado. Hoje brilham Mathijs de Ligt, Frenkie de Jong ou Donny van de Beek no palco onde outrora encantaram Johan Neeskens e Johan Cruyff, Van Basten e Rijkaard, Davids e Kluivert, Seedorf e Van der Sar. O lema formar para ganhar é bem mais do que letra morta em Amesterdão, mesmo quando os troféus demoram a chegar. 

Praticar um futebol-champanhe, que, mais do que atrair, seja capaz de convencer os adeptos é uma forma de estar no histórico emblema holandês. E fazê-lo com os jovens criados na casa-mãe é já uma imagem de marca. Essa filosofia, que permite apenas retoques pontuais no plantel (Dusan Tadic e Daley Blind são os casos mais óbvios na presente temporada), não lhe terá custado o afastamento dos grandes palcos europeus nos últimos anos? Muito provavelmente contribuiu para isso, sim. Mas num clube com dirigentes/gestores financeiramente conscientes e num país cujo mercado nunca conseguirá competir, em termos de receitas, com os Big 5, continuar a investir na formação é apenas um sinal de clarividência. Até porque ninguém aguenta anos a fio apoiado apenas em bicos de pés.

Uma geração como a actual, em que o talento e a maturidade competitiva se cruzam em doses generosas (mesmo tratando-se da equipa com média etária mais baixa da Champions), é uma raridade. Por norma, a academia do Ajax aponta para um ou dois jogadores da formação na equipa principal, todos os anos. A actual constelação vai muito além disso.

Essa qualidade intrínseca e o potencial de rendimento (desportivo e financeiro) que decorre do estado inicial das carreiras fazem destes jovens pérolas difíceis de reter depois de terem reluzido numa montra que todos os anos alimenta os sonhos da elite do futebol - o defesa/médio De Jong, de resto, já foi contratado pelo Barcelona, a troco de 75 milhões de euros.

É por isso que este final de época é seminal para o Ajax. Porque não ficará pedra sobre pedra depois de os miúdos de Erik ten Hag terem puxado o tapete a colossos como o Real Madrid e a Juventus. O clube sabe-o bem, porque o tem sentido na pele inúmeras vezes ao longo da história, e não só encara a realidade como um meio para o equilíbrio financeiro (que lhe permite manter ou aumentar o investimento na academia), mas também como uma janela de oportunidade para a fornada de talento que vem a seguir. Um ciclo virtuoso, mais do que vicioso. Uma forma de estar na vida.

Não há certezas no futebol e não é de descartar que, depois de 2018-19, se inicie outra travessia no deserto europeu para um Ajax que será sempre um anacronismo num universo movido a injecções financeiras. A lei Bosman pode ter concorrido para afastar o clube do ombro a ombro com os recorrentes reis da Europa, mas não lhe apagou o guião desenhado em meados do século passado.

Quando hoje vemos a tomada de decisão de De Ligt ou De Jong na primeira fase de construção e no corredor central, muitas vezes pressionados após a pronta recuperação da bola, concluímos que o ideário de Cruyff está vivo. E esse é o maior elogio que se pode fazer ao Ajax do século XXI, que se esforça, em boa medida, por ser o Ajax de sempre.