Carreira de Casillas entre a “força do coração” e o “medo da reincidência”

Terminou a época para o guarda-redes do FC Porto, depois do enfarte que sofreu durante o treino. Especialistas dividem-se sobre o futuro do jogador, mas sublinham que um caso destes “não é normal”.

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LUSA/MANUEL ARAÚJO

Uma carreira de futebolista dependente da “força do coração”, por um lado, e da “coragem” do jogador, por outro. É este o cenário actual de Iker Casillas, depois do enfarte de miocárdio sofrido nesta quarta-feira, durante um treino do FC Porto, no Olival. A pouco mais de duas semanas de cumprir 38 anos, o guarda-redes espanhol tem um enorme desafio pela frente.

O ataque cardíaco ocorreu durante a sessão de trabalho matinal, no Centro de Treinos e Formação Desportiva PortoGaia. O FC Porto confirmaria, em comunicado, que os trabalhos foram prontamente interrompidos e que o jogador foi de imediato transferido para o Hospital da CUF, onde permanece internado. “Casillas está bem, estável e com o problema cardíaco resolvido”, pode ler-se no documento

O futuro, porém, é uma incógnita. Ao PÚBLICO, o cardiologista Carlos Rabaçal foi claro: “Casillas já não vai jogar esta época. Isso é certo. Dizer, liminarmente, que ele não pode jogar mais, ninguém pode dizer. Mas que com isto vai ter limitações, isso claro que vai. Pode pesar na vida futura”, aponta o especialista.

Apesar de não ter dados para detalhar, em concreto, a situação do internacional espanhol, o médico garante que “é completamente crível que Casillas tenha receio” de retomar a carreira desportiva, porque um enfarte “é algo que marca muito os doentes”. “Ele vai ter muito receio, certamente”, reforça.

Vários estudos apontam que, se toda a musculatura do corpo — e o coração é feito de músculos — é muito solicitada num cidadão normal, sê-lo-á mais ainda num atleta de alta competição. Mas Casillas é jovem e controlado frequentemente pelos exames médicos desportivos. À luz dessas premissas, será normal uma pessoa com estas características ter um problema deste tipo? Para o cardiologista, não. “Não é normal. Não é normal um homem jovem ter um enfarte, particularmente um desportista”, nota, analisando: “Possivelmente, são causas hereditárias. Pode haver uma árvore genética que espoleta isto”.

Depois de explicar que um doente, geralmente, fica internado três a cinco dias e demora quatro a seis semanas a recuperar totalmente, o clínico do Hospital de Vila Franca de Xira alertou: “Mesmo ficando bem, ele não pode menosprezar o que aconteceu. Em última análise, o que importa é estarmos vivos. Sabemos que a actividade dele exige muito do ponto de vista físico e fisiológico e isso pode levá-lo a parar a actividade”.

Carlos Rabaçal explica, ainda, que um problema desta índole, mesmo bem resolvido, “implica um período de reabilitação, até com exercícios físicos”, e que essa reabilitação será, também, um bom aferidor do que acontecerá depois. 
Opinião mais optimista tem Manuel Veloso Gomes, cardiologista especialista em medicina desportiva, que, à TVI, garantiu que “no futuro, não está excluído que o jogador possa voltar a competir”. O clínico explicou que o futuro de Casillas “vai depender da capacidade funcional do seu coração”, mas que “com tratamento precoce e acompanhamento de excelência, ele terá condições para fazer exercício de alta competição”. “Nas próximas semanas, naturalmente, não vai poder jogar, mas, na próxima época, poderá estar de volta aos campos”, acrescentou.

A “sorte” entre o azar de outros

Casillas, que tem recebido dezenas de mensagens de incentivo de figuras do desporto, incluindo dos presidentes do Benfica e do Sporting, tem em mãos um problema grave e que pode ditar o final da carreira de futebolista, mas, face ao panorama dos problemas cardíacos em jogadores de futebol, não poderá desdenhar a “sorte” que teve.

Começando pelo evidente caso de Miklós Fehér, que faleceu em 2004, num V. Guimarães-Benfica, o futebol profissional já viu, neste século, vários casos trágicos. Marc-Vivien Foé morreu em 2003, na Taça das Confederações, e, mais recentemente, Adam Nouri, do Ajax, caiu no relvado, esteve mais de um ano em coma e sofreu danos cerebrais permanentes.

Entre paragens cardiorrespiratórias, enfartes ou arritmias, vários jogadores de futebol enfrentaram problemas menos graves. O português Fábio Faria, que passou por Benfica e Rio Ave, deixou de jogar, em 2013, com apenas 23 anos, devido a problemas cardíacos. Também Doni, ex-guarda-redes do Liverpool, teve de deixar a carreira nesse ano, igualmente por anomalias cardíacas, já depois de Fabrice Muamba, do Bolton, ter sofrido um susto que lhe valeu vários minutos de paragem cardíaca, em pleno relvado.

Mais recentemente, Sami Khedira, da Juventus, ou Ivan Strinic, do AC Milan, falharam jogos das suas equipas para examinar e regularizar problemas cardíacos. À luz destes casos, Iker Casillas quererá ser mais um Khedira e menos um Fábio Faria. Mas vai depender do coração e, eventualmente, da coragem.

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