Faz sentido diabolizar os vaporizadores de nicotina? Há 20 anos “fez-se o mesmo com a metadona”

Subdirector-geral do SICAD, Manuel Cardoso, avisa que “mais dia, menos dia” autoridades de saúde vão ter que “tomar uma decisão” quanto à inclusão das novas formas de ingestão de nicotina nas políticas de redução de danos associadas ao consumo de substâncias.

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As novas formas de ingestão de nicotina vão "tornar obsoleto" o gesto de acender um cigarro, defendeu especialista norte-americana jfc joao cordeiro

Quando, há 20 anos, Portugal começou a usar a metadona, um narcótico do grupo dos opiáceos, como tratamento de substituição para os consumidores de heroína, as resistências foram muitas. “Toda a gente, médicos incluídos, diziam que a metadona era uma droga, como todas as outras. Hoje, usámo-la como medicamento”, recuou Manuel Cardoso, o subdirector-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e nas Dependências (SICAD). Hoje, a comunidade médica e científica usa as mesmas reservas para se referir aos cigarros electrónicos e vaporizadores de nicotina. “Talvez esteja na altura de mudar”, admitiu Cardoso.

Na prática, aquilo a que se assiste hoje é a um fenómeno de “diabolização” destes novos produtos, como em tempos se “diabolizou” a metadona. “Na altura, o uso da metadona foi uma revolução. Hoje percebemos claramente que houve ganhos – sociais e para a saúde, em termos gerais e em termos individuais”, acrescentou o subdirector-geral do SICAD, para quem “é incrível ver como uma pessoa que usava drogas e que estava completamente desorganizada consegue, tomando a sua dose de metadona, usar fato e gravata e trabalhar arduamente, ser útil socialmente”.

Perante uma pequena plateia que se reuniu esta segunda-feira, no Porto, no segundo dia da 26.ª Conferência Internacional de Redução de Danos, para ouvir falar sobre as vantagens da inclusão do tabaco nas políticas de redução de danos associados ao seu consumo, tal como vigora para as substâncias ilegais, Manuel Cardoso descartou responsabilidades na matéria - a dependência tabágica não se inscreve na esfera de actuação do SICAD. Mas, avisando que, “mais dia, menos dia”, as autoridades de saúde “vão ter que tomar uma posição”, Cardoso não descartou que as novas formas de ingestão de nicotina com que as diferentes tabaqueiras têm invadido o mercado possam ser incluídas nesta lógica de redução de danos. “Se centrarmos a preocupação nas pessoas e verificarmos que é o menos lesivo para elas, e penso que não deveria haver dúvidas quanto a isso, faz todo o sentido. O contrário não bateria certo com o que nos venderam durante muitos anos: que o grande malefício do uso do tabaco era produto da combustão”, sustentou.

“Parem de envergonhar os fumadores”

A posição foi, de longe, mais cautelosa do que a defendida pela norte-americana Helen Redmond, professora universitária e fundadora da Nicotine Harm Reduction Consultants, uma organização dedicada à redução de danos associados ao consumo de nicotina, para quem está na hora de as autoridades governamentais e de saúde pararem de “estigmatizar e envergonhar os fumadores, culpando-os se adoecem”.

A lógica de Helen pode resumir-se deste modo: se, entre as sete mil milhões de pessoas que em todo o mundo têm dependência tabágica, muitas não vão deixar de fumar, há que as ajudar a consumir a nicotina – a substância que, no cigarro, provoca dependência - de formas menos lesivas para a sua saúde. “Se a British Medical Association reconhece que estes novos dispositivos são muito menos lesivos do que acender um cigarro, então parem de mentir às pessoas, e ajudem-nas a fazer a mudança”, desafiou, defendendo que os cigarros electrónicos deviam ser distribuídos nas instituições de saúde mental – entre os esquizofrénicos, a prevalência do tabaco varia entre os 64% e 74%, segundo referiu – e nos serviços de apoio aos utilizadores de droga, tal como são distribuídas seringas esterilizadas.

A especialista considerou, de resto, que estas novas formas de ingestão de nicotina vão tornar “obsoleto” o gesto de acender um cigarro, num potencial de mudança, em termos de saúde pública, equiparável ao desenvolvimento da seringa. “Parem de dizer às pessoas que a nicotina provoca cancro, doenças respiratórias, ataques cardíacos, quando sabemos que a nicotina é, na verdade, uma droga terapêutica, com propriedades estimulantes e sedativas, que funciona como ansiolítico e antidepressivo para muitos, e que ajuda a aumentar a memória e a concentração.”