Opinião

A ilha prisão de homens de liberdade

O padeiro Manuel foi preso em Portugal. Preso político. Tinha 25 anos e o seu único crime era pensar diferente. Ele e outros. Presos e deportados para Timor. Sem julgamento. Sem defesa.

O padeiro Manuel com Manuel e ladeado por Marcelino (à esquerda) e João (à direita)
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O padeiro Manuel com o filho Manuel, ladeado por Marcelino (à esquerda) e João (à direita) DR

O navio estava atracado no porto de Díli. Tudo era confusão. Gente apressada. Crianças ao colo. Malas pequenas e grandes. Todos queriam embarcar para a Austrália. Todos queriam fugir à guerra. O Japão invadiu a ilha de Timor. O padeiro Manuel estava entre camaradas portugueses. Na confusão do cais via naquele barco a sua liberdade. A sua dupla liberdade. Fugia da guerra e fugia do desterro que o fascismo português lhe impôs. O padeiro Manuel olhou o grande navio. Viu os amigos a subirem a estreita rampa enferrujada. E o padeiro Manuel rejeitou a dupla liberdade. Voltou as costas ao navio branco. Teria de encontrar os dois filhos. O que adianta a liberdade se o coração está acorrentado? A verdadeira liberdade seria o abraço apertado aos seus pequenos, Manuel e João. O padeiro Manuel partiu à procura desse abraço.

O sol era escaldante. O Manuel de quatro anos e o João de nove anos gostavam de cana-de-açúcar. Perdiam tardes deitados no canavial. O ruído poderoso dos aviões de combate ou os voos rasantes aos coqueiros e às acácias faziam as crianças sonhar com soldados bravos. Os tiros também se ouviam ao longe. Mas, naquela tarde quente, os soldados japoneses apareceram no canavial. Com fúria. O padeiro Manuel gritou. Manuel e o irmão João fugiram. O primo Marcelino chorava. Todos se embrenharam no capim. Choviam balas. A terra saltava. O capim era alto. Perderam-se. Esconderam-se. E num repente a paz voltou. Não se ouviam tiros. Não se ouviam vozes. Num labirinto quase sem fim reencontraram-se. Todos, menos Marcelino. Ali bem perto, estava a terra vermelha. Marcelino fora degolado com uma catana de lâmina afiada. Tinha 11 anos.

O padeiro Manuel foi preso em Portugal. Preso político. Tinha 25 anos e o seu único crime era pensar diferente. Ele e outros. Presos e deportados para Timor. Sem julgamento. Sem defesa. A ilha do outro lado do mundo seria a sua prisão. O seu castigo. Para sempre. Valiam as cartas e as fotografias para sentir o carinho dos pais e dos irmãos. Nunca mais se viram. Nunca mais se tocaram. O padeiro Manuel era um lutador.

Sentado no areal branco, olhava o Pacífico. Sabia que aquele mar eram as paredes da sua cela. Casou, teve filhos e sonhou voltar para Portugal. Para um Portugal livre. Mas aquela tarde quente, em que sentiu as balas no capim e a raiva preencher o seu coração ao ver o rosto do pequeno Marcelino, fez o padeiro Manuel ganhar novamente força. A força que afinal nunca tinha perdido. Entregou os dois filhos aos avós maternos. Estariam em segurança. Partiu para o mato. Ele e os camaradas.

Manuel e o irmão João refugiaram-se nas montanhas. Duas crianças. Esfomeadas. Comiam raízes, ervas, casca de canela, cadaca e batar-ut. Cansadas. Atravessavam ribeiras, subiam penedos, dormiam debaixo das tecas. Perderam-se dos avós. Ximenes, a mãe, estava presa num campo de concentração japonês. A guerra era cada vez mais violenta. Os dois irmãos tentavam a todo o custo sobreviver. Esgotados e doentes, o caminho de pedras roliças da ribeira levou-os até à praia. No horizonte, uma embarcação. Lançaram fogo a uma palhota. O capim e os bambus ressequidos depressa arderam. O navio enviou um bote. Eram marinheiros australianos. Os irmãos Manuel e João estavam salvos. Foram para Ataúro. De Ataúro foram para Bongsfarme. De Bonsfarme para Lourenço Marques. Sempre em campos de refugiados. De Lourenço Marques seguiram para Lisboa. Saíram do grande navio. Na calçada portuguesa ficaram os dois. Sozinhos. Sem ninguém para os receber. Contentar. Até que a polícia os entregou à Casa Pia. Quem eram aquelas crianças? Tinham agora sete e 12 anos.

Sentado na sua cadeira de baloiço na pequena sala, João, homem alto, figura cinematográfica, fumava com prazer eterno o seu cigarro. Como se estivesse a mascar cana-de-açúcar. O prazer era o mesmo. Saboreava com calma cada travamento, seguido de uma bem desenhada bola de fumo. O que aquele coração, aquelas mãos, aqueles pés, aquele estômago, aquela cabeça, teriam para contar. Tanto. Mas nada. Era só silêncio cortado por vezes com um “não me lembro, o Manuel é que deve saber”. O João foi um resistente. O Manuel, um herói.

No cais de Rocha de Conde de Óbidos, a avó Belarmina esperava cada barco que chegava das colónias. Empunhava a fotografia do padeiro Manuel. A esperança era grande. Mas o padeiro Manuel nunca apareceu. Nunca existiu uma breve notícia. Nada. Até um dia.

No século XXI, a notícia chega. No meu email. Um documento. Um telegrama do exército australiano de 7 de Abril de 1943. “O Miranda foi encontrado morto.” Sereno, olho o meu tio Manuel nos olhos e dou-lhe a notícia. Manuel, o herói, deixa cair uma lágrima. João, o resistente, era o meu pai. Enviei a notícia pelo vento. Será que já se reencontraram?

O padeiro Manuel, o meu avô, teve a liberdade à distância de uma rampa de navio. Virou costas. Sem os filhos, não existiria liberdade. Nunca mais se acarinharam. Nunca mais correram entre as bananeiras. O fascismo roubou-lhes o futuro. Ontem, abriu o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, no Forte de Peniche. Pela memória e pela denúncia.

Que se plantem muitas bananeiras de amor e liberdade. A minha vénia a quem luta e resiste.