Opinião

A culpa é de Eduardo Ferro Rodrigues

O discurso que Ferro Rodrigues proferiu na sessão solene dos 45 anos do 25 de Abril foi verdadeiro, desassombrado, livre.

1. Não sou dada a nostalgias, mas 45 anos sempre são 45 anos. Passaram num ápice. A minha geração, moldada pela crise de 69, ela própria uma emanação do Maio de 68, foi demasiado libertária, demasiado rebelde, demasiado radical em todos os sentidos da palavra, demasiado individualista, para se deixar ficar imóvel no tempo ou prisioneira dele. Cada um seguiu o seu caminho. Cada um fez contas consigo próprio à sua maneira. A única herança particular que ficou desses anos que precederam o 25 de Abril – a marca única da crise de 69 – foi a ruptura com o domínio do PCP nas associações de estudantes, abrindo as portas à luta frontal contra a guerra colonial, que não fazia parte dos seus objectivos, limitados às reivindicações por melhores cantinas, por melhores professores e outras coisas razoavelmente modestas e devidamente compartimentadas das lutas operárias. Essa ruptura radical acabou por transformar-se, com o tempo e a maturidade, numa convicção democrática e liberal que, apesar das circunstâncias da vida e dos inúmeros caminhos que cada um seguiu, nos é ainda hoje bastante comum.