Editorial

A vitória de Sánchez e a força do Vox

A eleição de 24 deputados é um espantoso resultado para o recém-nascido Vox, que aliás já conseguiu alguma internacionalização pelo menos dentro da Península Ibérica. É falar com Nuno Melo

Em sonhos e eleições é sabido que não se morre — aliás, essa é a única vantagem. Mas sobreviver à morte política de uma derrota tem sido uma impossibilidade nas madrugadas eleitorais de Lisboa, no país de Sérgio Godinho. Costa foi a excepção, ao configurar a geringonça. Em Espanha — e prova-o a vitória de Pedro Sánchez, como antes o tinha confirmado a resistência de Rajoy – a possibilidade de durar para além das derrotas tem sido uma regra, na qual muito provavelmente Rui Rio se irá inspirar quando chegar a hora.

Se Sánchez resgatou o PSOE da miséria — saltando de 85 para 122 deputados, embora sem maioria — o PP, o vencedor das eleições de 2016, afundou-se a um nível estratosférico. Talvez Pablo Casado dure, como os seus compatriotas já conseguiram noutros tempos.

O Podemos resistiu mal à institucionalização, o que é razoavelmente previsível quando se começa por querer assaltar os céus e se acaba inexoravelmente a tocar no inferno. Perdeu 30 deputados, mas as expectativas eram tão más que Iglésias, embora reconhecendo a derrota, anunciou logo a disponibilidade para apoiar o Governo Sánchez. Só que os dois não chegam. Paradoxalmente, seria mais fácil uma aliança PSOE-Cidadãos, uma espécie de bloco central modernaço mas eventualmente capaz de uma maior estabilidade, se Albert Rivera der o dito por não dito quando fez aprovar a moção que proibia coligações com o PSOE. Sánchez, como deu ontem a entender, está pronto para isso.

Por fim, mas não menos importante — a extrema-direita entrou em Espanha e em força. A eleição de 24 deputados é um espantoso resultado para o recém-nascido Vox, que aliás já conseguiu alguma internacionalização pelo menos dentro da Península Ibérica. É falar com Nuno Melo. Por razões que talvez só o coração explique, o cabeça de lista do CDS ao Parlamento Europeu veio ontem, em entrevista à Lusa, classificar o Vox como um simples “partido de direita”, “semelhante ao Aliança” de Santana Lopes. Para que toda a gente saiba em que mundo vive, incluindo os apoiantes e militantes do CDS liberais, é aconselhável a leitura das 100 medidas que o Vox tem para Espanha. A xenofobia, o securitarismo anti-europeu, a exaltação do nacionalismo, a implosão da Espanha moderna, o machismo, a homofobia e transfobia… Está lá tudo o que caracteriza um partido nacionalista-xenófobo-machista, um tipo de formação política à qual, julgávamos nós, o CDS não se associava. Por acaso, dava jeito que Assunção Cristas dissesse qualquer coisinha sobre o assunto.