Crítica

O romance constelação

Um livro que explora o sentido de ser um viajante, um migrante, um evadido em viagem constante, ao mesmo tempo que reflecte sobre o corpo humano, a vida, a morte e o movimento.

Quando achamos que, quanto à forma, já foi feito quase tudo no romance, eis que chega <i>Viagens</i>, da polaca Olga Tokarczuk
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Quando achamos que, quanto à forma, já foi feito quase tudo no romance, eis que chega Viagens, da polaca Olga Tokarczuk Jacek Kolodziejski

O romance como género não tem deixado nunca de nos ir surpreendendo, mas quando achamos que, quanto à forma, já foi feito quase tudo, eis que chega Viagens, da polaca Olga Tokarczuk (n. 1962) — livro vencedor do International Man Booker 2018. Esta é uma narrativa feita de digressões, de interrupções, de dispersões, de desarrumação, de escolhas diante de uma bifurcação — parecendo ter por modelo a ideia de viagem contínua, como se a vida (as nossas vidas), fosse uma viagem constante. A autora, logo de início confessa: “Pelos vistos, não herdei o gene que faz com que as pessoas criem raízes quando permanecem muito tempo no mesmo lugar. Já tentei várias vezes, mas as minhas raízes são sempre superficiais e qualquer brisa é capaz de me arrancar à terra. (…). A minha energia provém do movimento — da trepidação dos autocarros, da zoadeira dos aviões, da oscilação dos comboios e dos barcos.” E é esta ideia cinética, de movimento constante, que alimenta o romance, pois tudo o que pára corre o risco de sofrer os efeitos da decomposição, da degeneração; a mudança é sempre mais nobre do que a estabilidade.