Casa de Garrett no Porto ardeu na semana em que câmara fez proposta de compra

Fogo atingiu esta madrugada edifício onde nasceu e viveu o escritor. Autarquia fez esta semana proposta ao proprietário e mantém o interesse. Em caso de venda, invocará direito de preferência.

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Alerta para o incêndio no centro do Porto foi dado às 2h30,Alerta para o incêndio no centro do Porto foi dado às 2h30 Cortesia: Porto. Lado abandonado da cidade
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Alerta para o incêndio no centro do Porto foi dado às 2h30 Cortesia: Porto. Lado abandonado da cidade
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Alerta para o incêndio no centro do Porto foi dado às 2h30 Cortesia: Porto. Lado abandonado da cidade
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Esta manhã, o incêndio já estava em fase de rescaldo Sofia Neves/PÚBLICO
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Esta manhã, o incêndio já estava em fase de rescaldo Sofia Neves/PÚBLICO
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Esta manhã, o incêndio já estava em fase de rescaldo Sofia Neves/PÚBLICO

A Câmara do Porto fez esta semana uma proposta de compra da casa de Almeida Garrett, que ardeu este sábado, e desencadeou o processo para classificar o imóvel como de interesse municipal, revelou ao PÚBLICO o gabinete de comunicação da autarquia. A câmara terá direito de preferência no caso de uma eventual venda do prédio, garantiu.

Um incêndio que deflagrou na madrugada deste sábado, no centro do Porto, começou num prédio devoluto e acabou por se alastrar para mais duas casas, uma delas onde o escritor Almeida Garrett nasceu, em 1799, e viveu até 1804, no número 37 da Rua Dr. Barbosa de Castro.

Contactada este sábado pelo PÚBLICO, a Câmara do Porto (CMP) afirma que mantém o interesse em adquirir o imóvel, mesmo apesar do incêndio.

A fachada do edifício, que incluiu o brasão, é considerada Património Cultural, mas o seu interior não está protegido. A CMP pretendia alargar este estatuto a todo o imóvel e incluí-lo na rota de celebrações dos 200 anos da Revolução Liberal no Porto, proposta que “foi muito bem acolhida por todo o executivo”, disse o gabinete de comunicação da autarquia.

“Embora não tenha classificação individual, a casa encontra-se em zona de protecção do património e tem, portanto, uma protecção de base que impede que seja destruída e descaracterizada. Caso seja transaccionada, permite o exercício do direito de preferência por parte da CMP”, garante a mesma fonte.

"Ardeu tudo em duas horas"

Dois bombeiros ficaram feridos no combate ao incêndio. Foram reencaminhados para o Hospital de Santo António, no Porto, e, entretanto, já tiveram alta, disse o comandante dos Bombeiros Sapadores do Porto, Carlos Marques, aos jornalistas, no local. No prédio do número 35, um casal e uma senhora idosa foram retirados do último piso durante os trabalhos.

Segundo moradores ouvidos pelo PÚBLICO, o fogo terá começado pela 1h deste sábado num prédio da Rua das Virtudes e alastrado para o prédio onde nasceu e viveu Garrett, situado no número 37 da Rua Dr. Barbosa de Castro.

João Soares estava num café que fica no início da mesma rua quando viu o fumo a sair da uma das habitações do lado da Rua das Virtudes. “Quando vimos que estava a arder chamámos os bombeiros e até fomos chamar alguns moradores para os avisar. Ardeu tudo no espaço de duas horas”, diz.

Uma lápide neoclássica colocada na fachada pela autarquia, em 1864, informa: “Casa onde nasceu aos 4 de Fevereiro de 1799 João Baptista da Silva Leitão Almeida Garrett”. O interior deste prédio foi consumido pelas chamas, constatou o PÚBLICO no local. A fachada sofreu menos estragos (a lápide não foi atingida pelo fogo), com excepção do terceiro e último piso.

Luísa Vieira, moradora do prédio em frente ao que ardeu, ainda estava acordada quando o incêndio deflagrou, mas só deu conta do que se passava quando a polícia bateu à sua porta para a informar que teria que sair por precaução. Viu vizinhos a sair com os animais ao colo e turistas de malas atrás, e só conseguiu voltar a casa quando o fogo foi extinto, já quase de manhã. “Foi muito complicado, foi um susto, e a minha casa ainda fica do outro lado da rua”, contou ao PÚBLICO.

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Tiago Lessa
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Tiago Lessa

As operações envolveram meia centena de operacionais e 16 viaturas de várias corporações e do INEM. A Polícia de Segurança Pública (PSP) e a Polícia Judiciária (PJ) também estiveram presentes no local.

Pelas 9h55, o incêndio já se encontrava em fase de rescaldo e pelas 10h50 ainda se encontravam alguns operacionais no local a efectuar remoção de escombros. Ainda não são conhecidas as causas do incêndio.

Estava “tal e qual como quando Garrett lá viveu"

A Câmara do Porto aprovou em Março, por unanimidade, uma recomendação da CDU, para tentar adquirir a casa onde nasceu Garrett e ali instalar um pólo do Museu do Liberalismo, cuja revolução assinala no próximo ano o 200º aniversário. 

“Vamos, primeiro, perceber o valor que a casa tem. Depois, entrar em contacto com os proprietários e perceber até que ponto conseguiremos chegar a um bom desfecho”, afirmou o presidente da autarquia, Rui Moreira, na reunião camarária pública, citado na altura pela Lusa.

Moreira admitiu “pedir uma avaliação externa para saber o valor comercial” do imóvel, bem como “perceber de que forma está ocupada e até que ponto é possível chegar a acordo com os senhorios e inquilinos” da habitação.

Francisco Alves, que vive na mesma rua do edifício e é director artístico do Teatro Plástico, conta ao PÚBLICO que, no final de 2016, no âmbito do Dia Mundial do Teatro, a companhia foi responsável por uma instalação artística na casa onde viveu Garrett. Desde que tiveram conhecimento que o edifício tinha sido adquirido por um agência imobiliária que continuaram a acompanhar o assunto. 

“A casa tem algumas particularidades muito especiais: além de o seu interior não ter sido modificado e de ainda estar tal e qual como quando Garrett lá viveu, tem duas frentes e entradas, uma na Rua Dr. Barbosa de Castro e outra na Rua das Virtudes, com aquela vista extraordinária para o Douro. É isto que a torna tão apetecível para o mercado imobiliário. A fachada está protegida, mas o seu interior não”, explica Francisco Alves.

O director artístico refere que existia uma agência imobiliária interessada em transformar a casa numa unidade hoteleira, o que seria um “crime cultural” porque aquela é “uma das casas mais fotografadas no Porto”.

“É uma casa do século XVIII, o seu interior já não se constrói assim, com divisões labirínticas e uma escadaria muito interessante e antiga. Quando a mercearia que agora fica na casa do lado estava no andar de baixo, havia uma senhora que tomava conta da casa, coleccionava coisas e tinha um álbum sobre tudo o que sabia do Garrett. A partir do momento em que ela saiu a casa começou a ficar cada vez mais degradada”, refere Francisco Alves.

Em Lisboa, a casa onde também viveu e morreu o escritor, em Campo de Ourique, foi demolida em 2006. Foi o culminar de um longo processo de avanços e recuos na decisão de demolição do imóvel, situado nos números 66 a 68 da Rua Saraiva de Carvalho.

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