Margarida Basto
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Margarida Basto

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Todos deveríamos visitar o Aljube

Todos deveríamos visitar o Aljube, mais não seja para compreender que 25 de Abril não é um mero feriado, é o fruto de um movimento político e de um espírito de resiliência e resistência que nunca devemos perder.

Aljube ou, do árabe, al-jubb, significa poço sem água, prisão obscura ou masmorra. A sua utilização remonta a tempos muçulmanos e ao longo dos séculos foi quase sempre sinónimo de estabelecimento prisional — eclesiástico, feminino ou político (de 1928 a 1965). Esse edifício situado na Rua Augusto Rosa, bem no coração de Lisboa, foi transformado em museu e apresenta uma exposição permanente — que nos faz deambular pelos meandros do Estado Novo e da Revolução de Abril — e uma outra temporária.

No piso térreo do, hoje, Museu do Aljube encontramos essa exposição temporária, onde somos transportados até à Ilha de Santiago, em Cabo Verde. O convite é de António Cotrim, que documentou fotograficamente o campo de morte lenta criado pelo governo do Estado Novo em 1936. O objectivo era criar um complexo prisional similar aos campos de concentração nazis, com vista à eliminação dos opositores do regime fascista em vigor. O crime? Delito de opinião, na maior parte dos casos. O castigo? Quase sempre tortura até à morte, pois, nas palavras do director da colónia prisional, quem vem para o Tarrafal vem para morrer”. E assim, ao longo de várias fotografias e do contexto histórico adequado, vemos as condições deploráveis em que os presos viviam, a alimentação carenciada e os trabalhos que eram obrigados a executar.

Subimos a escadaria. Várias são as frases que nos acompanham. Várias são as vozes da resistência cravadas nas paredes, como Natália Correia, que em 1957 escreveu Dão-nos um bolo que é a história / da nossa história sem enredo / e não nos soa na memória / outra palavra que o medo”. Chegados ao primeiro piso é-nos apresentado Portugal de 1890 a 1976 — a ascensão do fascismo e do regime ditatorial, bem como a sua queda. Conhecemos as certezas indiscutíveis de Salazar (“Deus, Pátria e Família”) e o lápis azul da censura, mas também a clandestinidade, a necessidade da resistência e de veicular informações, convicções e ideias livres.

Continuamos a subir. Há uma canção de fundo: “Cada fio de vontade são dois braços e cada braço uma alavanca”, cantam eles. Trata-se do Hino de Caxias, uma canção de resistência entoada pelos prisioneiros. Neste piso vemos como a ditadura se apoia no, corruptível, poder judicial e na polícia do Estado, que actuava por meio de interrogatórios, violência física e psicológica. Vemos exemplos de resistência nas prisões, de jornais clandestinos e dos isolamentos prolongados de que muitos eram vítimas, como é o caso dos curros, que ali mesmo, no Aljube, existiram: eram celas de dimensões pequeníssimas, cujo objectivo era, única e exclusivamente, vergar a resistência e a força de vontade dos opositores do regime.

No último piso da exposição, o terceiro, vemos a luta final pela libertação de vários povos naquilo que constituiu o final da guerra colonial. Há palavras como “Democracia” gravadas na parede, há uma parede com cravos e uma outra com os nomes daqueles que ficaram pelo caminho.

É em memória de todos os que lutaram por um Portugal livre, por valores como a liberdade e a igualdade, que não devemos esquecer Abril. Aquilo que hoje tomamos, muitas vezes, por garantido, não seria possível sem essa luta, sem a resistência, sem a revolução que nos deu o país onde vivemos. Portanto, todos devíamos visitar o Aljube, mais não seja para compreender que 25 de Abril não é um mero feriado, é o fruto de um movimento político e de um espírito de resiliência e resistência que nunca devemos perder.