PSD acusa “lobby familiar socialista” de querer criar cemitério de “elite”

Depois do Familygate ter fragilizado o PS, há uma associação com nove pessoas ligadas ao partido que quer dinamizar os cemitérios lisboetas — sendo um dos objectivos transladar figuras públicas para o Cemitério dos Prazeres. “Um disparate”, diz Medina, palavras que não convencem o PSD.

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Cemitério dos Prazeres, em Lisboa Daniel Rocha

O PSD acusa o PS de querer criar um cemitério de “elite”, nos Prazeres, em Lisboa, para onde seriam transladadas personalidades escolhidas pelo “lobby socialista”.

O protocolo, cuja votação foi adiada na reunião da Câmara de Lisboa de quarta-feira, não prevê essa possibilidade, apenas a “gestão e programação cultural do Centro Interpretativo do Cemitério dos Prazeres, na freguesia da Estrela” e de outros cemitérios que “venham a ser dotados de instalações semelhantes”. Mas o PSD acena com o plano de actividades da Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa (AACL), que terá até uma lista de personalidades a transladar, e critica a composição da entidade, da qual fazem parte pessoas com ligações ao PS e a Carlos César, presidente do partido.

O presidente da Câmara de Lisboa classificou como um “disparate” a ideia de atribuir à AACL a possibilidade de transladar restos mortais. No entanto, esta sexta-feira, em declarações ao PÚBLICO, o vereador social-democrata João Pedro Costa insiste que os socialistas querem criar uma “espécie de panteão número dois em Lisboa”.

João Pedro Costa não tem dúvidas de que a ambição deste lobby, do qual fazem parte três familiares directos de Carlos César, “é criar um cemitério para uma segunda elite de pessoas”. “A ideia é criar uma espécie de panteão número dois em Lisboa para onde seriam transladados de outros cemitérios os restos mortais de personalidades como artistas, políticos, poetas que seriam escolhidos pelo lobby socialista”, critica.

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Cemitério dos Prazeres DANIEL ROCHA

Afirmando que não contarão com ele nem com o PSD “para estratificar os cemitérios por elites diferentes em pleno 25 de Abril”, João Pedro Costa adverte para o facto de que “a opção de haver um segundo cemitério para uma segunda elite é uma decisão do Estado – e não do PS”.

“Mais um lobby familiar socialista”

O caso foi tornado público esta quarta-feira em reunião da Câmara de Lisboa quando o executivo se preparava para votar um protocolo entre o município e a AACL para dinamizar actividades em cemitérios lisboetas, como exposições, concertos ou homenagens póstumas.

“Temos aqui mais um lobby familiar socialista”, resumiu o vereador do PSD João Pedro Costa, depois de elencar os nomes de alguns dos membros da associação fundada em 2017, entre os quais se encontram pessoas com ligações ao PS, que tem sido alvo de muitas críticas por causa do badalado caso Familygate, relacionado com as ligações familiares dentro do Governo.

Apanhando de surpresa, na reunião de quarta-feira, o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, tentou encerrar o assunto: “Ia sugerir o adiamento. A questão é muito simples: dado o adiantado da hora, temos de evitar este debate hoje [quarta-feira]”. Mas João Pedro Costa prosseguiu, enumerando a composição da associação, muitos deles familiares ou com ligações ao Partido Socialista: “Jorge Ferreira, fundador e fotógrafo da campanha de José António Seguro e junta de freguesia do Lumiar; Pedro Almeida, fundador e funcionário do PS na Assembleia da República; a vice-presidente Inês César, sobrinha de Carlos César, funcionária da Gebalis; João Taborda, coordenador da CAF da junta do Lumiar; Catarina Farmhouse, assessora do PS no Ministério da Economia; Filipa Brigola, assessora do PS na Assembleia da República; Patrícia Vale César, deputada municipal do PS e esposa de Horácio César e mãe de Inês César, do PS; João Soares; Diogo Leão, deputado do PS; Horácio Vale César, irmão mais velho de Carlos César. E podia continuar a elencar nomes”.

“Em relação aos cemitérios, deve haver muitas pessoas associadas ao PSD nos vivos e também nos mortos”, respondeu Medina. A discussão sobre a proposta para “aprovar a celebração de protocolo de cooperação” entre a autarquia e a associação foi adiada, tal como proposto pelo vereador signatário da proposta, José Sá Fernandes. “O reagendamento não deve acontecer sem que Fernando Medina dê explicações ao PSD relativamente à intenção da Câmara de Lisboa em fazer aprovar este protocolo e tudo o que ele previa”, afirma João Pedro Costa ao PÚBLICO.

O vereador do PSD disse ainda na reunião pública que o plano de actividades de 2018 da associação prevê um conjunto de supostos compromissos da câmara: “a cedência de jazigos, a transladação de corpos para jazigos situados no Cemitério dos Prazeres”, havendo já uma lista de personalidades a ser transladadas, “várias a partir de outros cemitérios da cidade”. Algo que Fernando Medina disse ser impossível acontecer em Lisboa, “um disparate”.

Carlos César, o nome mais visado nas críticas do PSD, não vai comentar o caso, disse ao PÚBLICO fonte do gabinete do presidente do PS.

Câmara vai reunir-se com AACL

O vereador José Sá Fernandes, que tutela o pelouro do Ambiente, disse ao PÚBLICO que vai convocar a AACL para uma reunião na próxima semana para se inteirar do que se passa.

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Cemitério dos Prazeres DANIEL ROCHA

“Não quero que a gestão cemiterial, que é uma das actividades mais nobre que a Câmara de Lisboa presta, seja beliscada ou confundida com qualquer outra questão e, por isso, vou chamar a associação para esclarecermos tudo”, afirmou o vereador que tem a tutela dos cemitérios.

Eleito pelo PS, José Sá Fernandes garantiu que o protocolo, que deverá ser assinado entre Câmara de Lisboa e a AACL, “não prevê a gestão de absolutamente nada, a não ser promover homenagens de pessoas que se encontram lá enterradas, como aconteceu com a exposição de Mário Soares”. “O que o protocolo prevê é que a Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa fica com responsabilidade a nível da parte expositiva”, reforçou, lembrando, a propósito, a exposição de Mário Soares.

Este não é o primeiro encontro do vereador do Ambiente com os responsáveis pela associação. O autarca adiantou que já participou em duas reuniões com os representes da AACL e disse ter “boa impressão” das pessoas que dela fazem parte.

Segundo o jornal Expresso, que avançou a notícia, o protocolo previa ainda que a câmara cedesse um espaço no cemitério de Carnide para sede da associação. O vereador social-democrata disse ainda que “a entidade já terá recebido um apoio da autarquia no valor de dez mil euros, mesmo sem o protocolo ter sido aprovado”.

Já o vereador do CDS, João Gonçalves Pereira, estranha o silêncio de Fernando Medina e desafiou-o a prestar “todos os esclarecimentos” sobre o caso. “Depois de ouvir o que ouvimos, o presidente da Câmara de Lisboa tem de falar sobre o que se está a passar. Se isso não acontecer, o protocolo de cooperação com a autarquia deve ser enterrado”, acrescentou, em declarações ao PÚBLICO.

Afirmando que nada tem contra as pessoas que decidem organizar-se em associação, João Gonçalves Pereira considera, no entanto, que a questão passa a ter relevância quando são suscitados dinheiros municipais para essa mesma actividade”. E acrescenta: “O primeiro passo é aprovar o protocolo no qual não constam valores a atribuir à associação, o que me leva a concluir que daqui a um, dois ou três meses haveria um apoio financeiro”.

Que associação é esta?

Quanto à associação, pouco se sabe. O site oficial está inacabado: há secções inacessíveis (como a secção de notícias), páginas em branco (as ligações úteis, a história da associação e contactos, por exemplo), páginas com textos próprios de um site em construção. No site, não é possível ver quem pertence à direcção, nem os estatutos, nem a assembleia geral, nem os associados. Há ainda secções como “o cemitério do mês” ou “a personalidade do mês” que reencaminham o utilizador para páginas da Wikipédia: Cemitério dos Prazeres no primeiro caso, Alfredo Keil no segundo.

No site, é dito que se trata de uma associação sem fins lucrativos que “tem como objectivo principal a preservação, divulgação e valorização do património histórico, artístico, material e imaterial dos cemitérios de Lisboa”.

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Quando se tenta saber mais sobre os cemitérios de Lisboa no site, carregando-se na secção “Cemitério dos Prazeres”, surge a informação “O seu carrinho está vazio”; quando se carrega em “Cemitério do Alto de São João”, pede-se que sejam introduzidas as credenciais para fazer log in no site. Não se sabe ao certo quando é que o site foi criado. As duas primeiras publicações são de 2015, mas podem estar erradamente datadas: uma está em inglês a dar as boas-vindas ao site e outra é referente à morte de Mário Soares, que só aconteceu no início de 2017.

No Facebook, é referido que a associação foi criada a 17 de Abril de 2017. Nesta rede social, a associação também parece parada: a última publicação é de Janeiro deste ano; antes disso, a página só fora actualizada há quase um ano, em Fevereiro de 2018. Muitas destas publicações estão relacionadas com a exposição de fotografias do funeral de Mário Soares.

O PÚBLICO tentou contactar o presidente da Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa, Jorge Ferreira, mas não obteve qualquer resposta até à hora de publicação deste artigo.