Comentário

Enfim, uns Dias da Música apelativos

E sim, na infindável teia das relações entre Shakespeare e a música, eis que, após estes anos todos, se proporcionam enfim uns Dias da Música com nexo, perspectivas e expectativas

If music be the food of love, play on
Shakespeare, Twelfth Night/ A Noite dos Reis

Foi em 2000 que Miguel Lobo Antunes – o melhor administrador com o pelouro da programação que houve no Centro Cultural de Belém – conseguiu um feito: impressionado com o êxito e qualidade da Folle Journée que René Martin organizava em Nantes, logrou convencê-lo a “replicar” o evento em Lisboa. Chamou-lhe Festa da Música, curiosamente desconhecendo ser esse também o nome do evento de todas as músicas e nos mais diferentes espaços que em França, desde os tempos de Jack Lang, ocorre no equinócio do Verão, a 21 de Junho.

Mas Lobo Antunes fez mais: em parceria com o PÚBLICO foi editado um livro sobre Bach, que era o tema dessa 1.ª Festa, e mais tarde até houve também um CD de apresentação. O sucesso foi imenso: sucesso impressionante de público mas também de grandíssimos momentos de programação musical: Bach em 2000, Haydn e Mozart em 2002, De Monteverdi a Vivaldi em 2003, Chopin, Schumann, Liszt e Mendelssohn – Geração de 1810 em 2004 ou A Harmonia das Nações – A Europa Barroca em 2006 foram eventos que deixaram indeléveis memórias, por muito que isso pese ao provincianismo e mesmo rancor de alguns músicos portugueses.

Todavia, desde a saída de Lobo Antunes, e com a eventual excepção da breve passagem de Miguel Vaz em 2004, a programação do CCB decaiu muito. E em 2007 ocorreu a “catástrofe”: discricionariamente, António Mega Ferreira, então presidente do CA, pôs termo à Festa da Música, argumentando com os custos – que efectivamente seriam um problema, mas que não deixava de ser controlável já que o CCB era o efectivo produtor do evento.

Infelizmente há que dizer que, de modo surpreendente, o consulado de Mega Ferreira foi o de desastre no CCB, em parte por razões alheias, a saber, o facto de ter ficado amputado do Centro de Exposições por a tutela ter imposto que ficasse aí a colecção Berardo, mas também por razões próprias: com a sua inegável mente fervilhante, Mega quis tudo programar.

A mesma pessoa que tão brilhante tinha sido na concepção e programação da Expo’98 – e que por isso é merecedora da nossa gratidão – promoveu a descaracterização e mesmo a mediocridade na programação do CCB. E assim, a partir de 2007 deixou de haver a Festa da Música substituída por uns empacotados (estes sim!) Dias da Música. Mas que nexo e substância musicais tinham eventos como Para Muitos Pianos e Orquestras, em 2007, ou Duos, Trios, Quartetos e Outras Boas Companhias no ano seguinte?!

Mas há mais a dizer, dessas coisas tão frequentemente opacas das instituições culturais, e que foi um espantoso caso de ascensão da mediocridade.

Desde os inícios do CCB que o director do centro de espectáculos era Miguel Leal Coelho. Sucessivas administrações mantiveram-no a nível técnico. Com Mega Ferreira, eis que, primeiro apareceu como efectivo programador e depois mesmo como administrador com o pelouro da programação, funções que continuou a exercer nas presidências de Vasco Graça Moura (mas o Vasco, ele próprio, teve intervenções importantes, passando o CCB a abranger também a área de humanidades e acolhendo o Há Fado no Cais, enquanto a outra administradora, Dalila Rodrigues, abria a Garagem Sul como espaço para exposições de arquitectura), António Lamas e mesmo o actual presidente, Elísio Summavielle, nomeado já por este governo, pelo ministro João Soares.

Se Summavielle é um exemplo máximo do carreirismo clientelar maçónico-socialista, foi já com Castro Mendes como ministro que o mandato de Leal Coelho não foi renovado, tendo sido substituído por Luísa Taveira, que no CCB já fora assessora para a dança e que para aí transitava depois de um excepcional trabalho como directora da Companhia Nacional de Bailado, nomeação feita pelo ministro mas obviamente sugerida pelo secretário de Estado Miguel Honrado, que agora lhe vai suceder no cargo – é assim a endogamia dos aparelhos da nomenkultura, mas, enfim, apesar do desastre que foi como secretário de Estado, ficam os votos de que no CCB Honrado venha a fazer bom trabalho!

Com Luísa Taveira o CCB voltou a ter uma linha de rumo na programação, porém com um espartilho no modelo que ela escolheu, o de um mote trimestral. Assim, no ano passado, num trimestre a partir de Hieronymus Bosch, o tema dos Dias era Castigos, Culpas e Graças Divinas, algo de demasiado extemporâneo para um festival musical. O nível da programação era melhor – até porque o CCB tem um bom consultor para a música erudita, André Cunha Leal – mas faltava o nexo.

For Goodness Sake – Ciclo William Shakespeare é o envelope do presente trimestre. E sim, na infindável teia das relações entre Shakespeare e a música, eis que, após estes anos todos, se proporcionam enfim uns Dias da Música com nexo, perspectivas e expectativas, com intérpretes como Ian Bostridge e os magníficos Tallis Schollars, essa obra maravilhosa que é The Fairy Queen de Purcell, uma evocação desse superlativo compositor contemporâneo do “Bardo” que foi John Dowland, etc.!

A apresentação foi ontem feita nestas páginas por Cristina Fernandes e para ela remeto. Apenas gostaria de acrescentar alguns pontos:

1 – É absurdo apresentar em concerto apenas os Actos I e IV do Otello de Verdi, obra que, para mais, exige um tenor de características excepcionais;

2 – Há uma ausência grave, a de um recital de lute songs, isto é de canções com alaúde ou outro instrumento de cordas dedilhadas, que não só era um género maior na época de Shakespeare, como tem praticamente um subgénero, o de canções com textos de peças dele que logo começaram a florir;

3 – O DSCH – Schostakovich Ensemble faz um concerto que justifica grande curiosidade, dedicado a um autor, Korngold, que, como cada vez mais vai sendo reconhecido, esteve longe de ser apenas o exilado compositor hollywoodiano que até ganhou um óscar por As Aventuras de Robin dos Bosques;

4 – Enfim, o principio, isto é o concerto inaugural, com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida por Pedro Amaral, com um programa singular em qualquer parte do mundo, duas obras de Berlioz extremamente originais, que são as mais raras de se ouvir, o monodrama Lélio, ou le retour à la vie, concebido como um complemento da Sinfonia Fantástica (directamente citada, aliás) e que se conclui com uma Fantasia sobre “A Tempestade”, e Tristia, tríptico inspirado no Hamlet – que coincidência esta: quando se assinalam os 150 anos da morte de Berlioz, o mais shakespeariano dos compositores, um eminente intérprete, o maestro John Nelson, dirigiu esta semana o Coro Gulbenkian em A Danação de Fausto em… Estrasburgo, mas essas originalíssimas raridades que são Lélio e Tristia podem sim ser ouvidas no CCB!