Maria José Morgado: “Em todo o mundo há histórias de hackers que se transformam em hackers bons”

A procuradora-geral adjunta falou do caso Rui Pinto em entrevista à RTP.

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Miguel Manso

A procuradora-geral adjunta Maria José Morgado diz que o “caso Rui Pinto”, o jovem português que denunciou alegados esquemas de evasão fiscal no futebol cometidos em vários países, conhecido como Football Leaks, a impressiona. “Não posso falar do caso concreto, só em tese geral. Mas devo dizer que este caso impressiona-me muito pessoalmente, porque ouvi a pessoa de que estamos a falar a dizer frases sobre a corrupção no futebol semelhantes àquelas que eu disse numa entrevista em 2002, ao Adelino Gomes, e que está publicada na [revista] Pública.”

Em 2002 eu disse ao Adelino Gomes que o futebol era um mundo de branqueamento de dinheiros sujos, com promiscuidades políticas indesejáveis, alargadas e muito difíceis de combater”, afirmou no programa Grande Entrevista, da RTP, nesta quarta-feira. “Fez-me impressão, porque passaram 17 anos e aparece uma pessoa a dizer aquilo que eu tinha dito. Porque agora são todos paladinos contra a corrupção no futebol, contra as offshores. Toda a gente fala disso, já não vale a pena falar. Mas naquele tempo tive problemas sérios por ter falado disso”, afirmou.

“Volvidos 17 anos, por aquilo que se sabe do Footbal Leaks (e não estou a falar de nenhum clube nem de nenhuma pessoa, mas de um fenómeno), aparentemente no mundo do futebol é-se imune a qualquer espécie de escrutínio.”

Rui Pinto, que foi detido na Hungria, foi entretanto extraditado para Portugal e encontra-se detido preventivamente na zona prisional anexa à PJ, em Lisboa.

A procuradora, que está colocada no Supremo Tribunal de Justiça, acrescentou ainda: “Precisamos das pessoas que estão por dentro do extraordinário mundo do crime, dos criminosos que queiram colaborar connosco. E, em geral, nenhum criminoso colabora com a justiça por razões éticas. É por razões interesseiras, individualistas. Mas isso é humano, normal. Tem de haver uma legalidade para essa compensação, através da delação (ou colaboração) premiada.”

Maria José Morgado admite assim que a delação premiada (que pode permitir, por exemplo, uma redução de pena a quem colabora com a justiça) é aceitável “se for para defender outros valores superiores e se for escrutinável”.

“Em todo o mundo há histórias de hackers que se transformam em hackers bons e colaboram com a justiça. O hacker mau pode transformar-se num hacker bom e trabalhar para a polícia. Tem um know-how que muitas vezes a polícia não consegue ter por si só”, acrescentou.