Opinião

Um francês na Europa Central

Não há como grandes jornalistas para nos ajudarem a compreender melhor o mundo em que vivemos. Guetta e Almeida Fernandes fazem parte dessa escola.

1. Bernard Guetta, um prestigiado jornalista francês especializado em temas geopolíticos e profundamente comprometido com a defesa do projecto político europeu, acaba de publicar um livro singular acerca do que se está a passar na Hungria, na Polónia, na Áustria e na Itália. Impressionado com o crescimento eleitoral de forças políticas radicalmente nacionalistas e conservadoras decidiu-se a deixar Paris e a percorrer as capitais daqueles países com o propósito de compreender in loco as razões subjacentes a esse fenómeno. Conversou com intelectuais, discutiu com políticos de diversas tendências, reflectiu conjuntamente com colegas jornalistas, dialogou com velhos amigos.

Desses encontros resultou um texto fascinante que tem sobretudo a virtude de conciliar a afirmação de uma convicção pessoal pró-europeia com uma abordagem absolutamente não sectária daquelas complexas realidades políticas. Nós, os leitores, deleitamo-nos com um exercício de inteligência crítica e serena, coisa rara nestes tempos tão marcados pelo culto da indignação estrepitosa e pela exaltação de moralismos apressados.

Guetta procura estabelecer uma permanente tensão entre os factos presentes e um horizonte histórico relativamente vasto. Começa por lembrar-nos que grande parte desta região, incluindo o norte de Itália, pertenceu ao Império Austríaco e que a Polónia, antes de ser estilhaçada por alemães e por russos, estava ligada à Lituânia e constituía uma importante potência europeia. Depois evoca o trágico fim do Império Austro-Húngaro, os traumas de cidades imperiais reduzidas à dimensão de capitais de pequenos países, o dramático percurso percorrido por aqueles povos no período entre as duas Guerras Mundiais. Do pós-guerra salienta a inclusão da Polónia e da Hungria no espaço político de dominação soviética e a neutralidade imposta aos austríacos. Da Itália recorda-nos que foi o berço do fascismo europeu.

Deduz-se da História e percebe-se do teor das conversas mantidas por Guetta com os seus interlocutores húngaros e polacos que o Ocidente suscita naquelas paragens sentimentos muito diversos e contraditórios que vão do fascínio ao ressentimento. Sentem-se simultaneamente menos e mais ocidentais do que essa outra Europa que tem na França e no mundo anglo-saxónico as suas expressões referenciais. Se após a Primeira Guerra Mundial viveram tempos de perplexidade e de humilhação, após a Segunda Guerra Mundial passaram pela experiência do abandono.

Na Europa dividida pela Cortina de Ferro eles ficaram do lado de lá, sob o jugo das tiranias comunistas. Quando se reencontraram com os outros europeus, após o colapso soviético, depararam-se com um mundo bastante mais complexo do que aquele que, em circunstâncias históricas penosas, haviam idealizado. A transição do comunismo para o universo democrático-liberal não foi simples e, muito menos, fácil.

Quer na Hungria quer na Polónia, mau grado as significativas diferenças que separam os dois países, foi-se progressivamente impondo em largos sectores das respectivas sociedades uma concepção do Ocidente de natureza anti-iluminista, anti-liberal e anti-racionalista. Viktor Orbán representa exemplarmente a transição para essa nova conotação da ideia ocidental. Ele que começou por ser um jovem liberal anti-comunista, bolseiro de uma fundação de George Soros em Oxford, transmutou-se no expoente máximo daquilo que designa por “democracia iliberal”.

Nesse conceito está presente uma outra noção do Ocidente: cristão, ultra-conservador e alheio a toda a tradição do racionalismo crítico. Daí o confronto entre Orbán e Macron que, no fundo, corresponde a uma contraposição de duas ideias de Europa. Uma, subsidiária do Iluminismo franco-kantiano – a de Macron; a outra, herdeira de uma mistura de Romantismo germânico, ultra-montanismo e anti-liberalismo (que, em casos extremos, conduz ao próprio anti-semitismo). Significa isto que estes países estão em vias de soçobrar ao apelo fascista? Não resulta esta conclusão das impressões recolhidas por Bernard Guetta.

De resto, há grandes dissemelhanças entre o Governo húngaro que alardeia proximidades doutrinárias e políticas com a Rússia de Putin e o tradicional sentimento anti-russo dos polacos. A própria sociedade polaca revela amplas contradições internas que opõem, entre outras coisas, um fervor catolicista pré-Concílio Vaticano II a uma maioria social e política contrária a qualquer recuo na legislação sobre o aborto.

Olhando para a Áustria e para a Itália constataremos idênticas incongruências e contradições. Apesar de tudo, o risco do regresso do fascismo não deve ser sobreavaliado. Num texto admirável Jorge Almeida Fernandes esclarece-nos sobre esse assunto. Não há como grandes jornalistas para nos ajudarem a compreender melhor o mundo em que vivemos. Guetta e Almeida Fernandes fazem parte desse escol. Não fazem fretes, não se subordinam a agendas políticas de quem quer que seja, não hipotecam a independência por motivo algum. O que não significa que não sejam homens de causas. Guetta acaba de assumir uma candidatura ao Parlamento Europeu. Fê-lo, contudo, com toda a clareza. Em Portugal, infelizmente, continua a praticar-se em larga escala um certo jornalismo de Corte dominado pela preocupação fundamental de agradar ao Príncipe.

2. A Direcção do PÚBLICO entendeu que dada a minha condição política se justifica a interrupção destes artigos até à realização das eleições europeias. Assiste-lhe inteira razão. Por mais imparcial que pretendesse ser não deixaria de estar condicionado pelo meu empenhamento numa clara e expressiva vitória do Partido Socialista.