Biden quer a Casa Branca e aposta tudo contra Trump, mas isso pode ser pouco

Depois de ter sido convencido a dar espaço a Hillary Clinton em 2016, Joe Biden acredita que chegou a sua vez de representar o Partido Democrata nas presidenciais. Falta saber se a viragem à esquerda do partido vai afastá-lo mais uma vez.

Joe Biden foi vice-presidente entre 2008 e 2017
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Joe Biden foi vice-presidente entre 2008 e 2017 LUSA/JIM LO SCALZO

Há quatro anos, quando os eleitores norte-americanos se preparavam para a longa campanha eleitoral que iria levar Donald Trump à Presidência dos EUA em 2016, poucos no Partido Democrata acreditavam que alguém pudesse fazer frente a Hillary Clinton.

Mas um deles era Joe Biden, então vice-presidente e figura importante para a estratégia traçada pelos democratas na eleição de 2008: garantir a vitória do primeiro Presidente afro-americano, Barack Obama, sem ficar muito exposto aos olhares de desconfiança dos mais conservadores no Partido Democrata, principalmente nos estados da cintura industrial, na região conhecida como Midwest.

Para essa estratégia, Biden era a figura ideal: um homem branco, com uma longa carreira política, e que nunca se tinha destacado por ser um radical.

Mas em 2015 e 2016, o país já era um pouco diferente. E com a entrada em jogo de Hillary Clinton, o Partido Democrata viu uma oportunidade para fazer História pela segunda vez – depois da eleição do primeiro afro-americano, chegava a vez da primeira mulher.

Afinal, aquele não era o tempo de Joe Biden. Em Outubro de 2015, após meses de incerteza, o vice-presidente surgiu nos jardins da Casa Branca, ao lado da mulher, Jill, e do Presidente Obama, para dizer que a janela para a sua candidatura estava fechada.

"Ameaça à nação"

Agora, quatro anos depois, Biden voltou a deixar os eleitores em dúvida durante meses, mas desta vez decidiu avançar para a candidatura. Às 6h da manhã desta quinta-feira, o ex-vice-presidente partilhou um vídeo nas redes sociais – primeiro em inglês, depois em espanhol – a anunciar que entrou na corrida para 2020 com a mensagem de que “a América é uma ideia”. E que hoje, mais do que nunca, é preciso recuperá-la.

No vídeo, de três minutos e 29 segundos, Joe Biden não fala ao eleitorado sobre as suas propostas políticas, nem propõe uma visão de futuro ambiciosa; acima de tudo, pede o voto porque só ele pode derrotar o Presidente Donald Trump e pôr fim “à maior ameaça à nação” que ele já viu nos seus 76 anos de vida.

“Acredito que a História vai olhar para os quatro anos deste Presidente, e para tudo o que ele aceita, como um momento repugnante. Mas se dermos mais oito anos na Casa Branca a Donald Trump, ele vai alterar o carácter desta nação de forma fundamental e para sempre – aquilo que nós somos –, e eu não posso ficar a ver isso a acontecer”, diz Joe Biden, enquanto os eleitores são confrontados com imagens do protesto de supremacistas brancos em Charlottesville, no estado da Virgínia, em Agosto de 2017.

Nessa altura, numa reacção aos confrontos entre os supremacistas brancos e os manifestantes que protestavam contra eles – em que uma jovem de 22 anos foi atropelada mortalmente por um carro conduzido por um neo-nazi –, o Presidente Trump disse que havia “pessoas muito boas em ambos os lados”.

Poucas horas depois de Biden anunciar a sua candidatura, e como que a confirmar que o discurso público na classe política norte-americana já foi mais polido, o Presidente Trump deu-lhe as boas-vindas através do Twitter: “Bem-vindo à corrida, Joe ‘Dorminhoco’. Só espero que tenhas a inteligência, que há muito está em dúvida, para venceres as primárias. Vai ser desagradável – vais lidar com pessoas que têm ideias muito doentes e dementes. Mas se venceres, vemo-nos na linha de partida!”

Sozinho ao centro?

Donald Trump referia-se ao batalhão de pelo menos 20 candidatos às eleições primárias no Partido Democrata para 2020, muitos deles – os mais fortes à partida – com propostas marcadamente progressistas, longe do centro em que Joe Biden se movimenta desde que foi eleito senador pela primeira vez, em 1972.

Olhando para as sondagens, que numa altura tão prematura da corrida costumam reflectir mais o reconhecimento dos nomes dos candidatos do que garantias de voto nas urnas, Joe Biden está lá em cima, ao lado de Bernie Sanders – o outro homem branco septuagenário na corrida pela nomeação, num partido em que as mulheres e as minorias têm cada vez mais peso e exigem candidatos e candidatas mais jovens e com experiências de vida semelhantes às delas.

Essa ideia foi sublinhada esta quinta-feira em Houston, no Texas, num debate entre alguns candidatos do Partido Democrata organizado pelo grupo She the People, que incentiva a participação das mulheres não brancas na política.

Durante o debate, Bernie Sanders foi recebido com sinais de irritação pela assistência, que não gostou das suas respostas a uma pergunta sobre “o crescimento da supremacia branca” no país. Segundo o relato do Washington Post, o candidato começou por dizer apenas que é preciso “unir as pessoas num programa em que todas se revejam”, mas nem quando recordou o seu longo passado de luta pelos direitos cívicos, desde a marcha de Martin Luther King em Washington, em 1963, a assistência se acalmou.

E quando já se sabia que Joe Biden ia entrar na corrida, a reacção não foi muito diferente: “Fomos educadas para sentirmos que só um homem branco nos pode salvar. Acho que o Biden não é a nossa resposta”, disse a activista Roxy D. Hall Williamson à agência Associated Press.

LaTosha Brown, outra activista e co-fundadora do grupo Black Voters Matter, disse que chegou a pensar que Biden era o melhor candidato, mas entretanto mudou de ideias porque surgiram “alternativas fortes”. “Para entusiasmar o tipo de eleitores que é preciso entusiasmar para derrotar Trump, não sei se ele é o melhor.”

Passado vs futuro

É por isso que a generalidade dos analistas torce o nariz quando alguém afirma que Biden é o grande favorito por se apresentar como a antítese de Trump e ainda ser influente nos estados do Midwest como a Pensilvânia, o Michigan ou o Wisconsin – que o Presidente norte-americano roubou aos democratas em 2016 e que precisa de manter em 2020 para ser reeleito.

“Há uma questão muito importante a enquadrar estas primárias”, disse Ben LaBolt, antigo porta-voz na campanha de reeleição de Barack Obama, ao site Politico. “Será esta a altura certa para se privilegiar um passado com mais experiência, ou uma mudança geracional e uma nova visão no seio do partido?”

Respondendo à sua própria pergunta, LaBolt lembra que “até o Presidente Obama tem falado sobre a necessidade de que este momento seja de mudança geracional, para que outras pessoas liderem o partido”.

Mais uma vez, tal como aconteceu em 2016 por causa de Hillary Clinton, este pode não ser o tempo de Joe Biden. Até ao início das primárias, a 3 de Fevereiro de 2020, os seus adversários vão obrigá-lo a explicar a um eleitorado do Partido Democrata em mudança as inúmeras decisões que tomou em quase 50 anos de vida na política – a sua oposição, na década de 1970, à política de distribuição de alunos por escolas mais afastadas das suas áreas de residência para atenuar a segregação racial; a forma como conduziu a audição no Senado à professora Anita Hill, que acusou o juiz Clarence Thomas de assédio sexual, na década de 1990; o voto a favor da invasão do Iraque, em 2002; ou até o seu hábito de deixar algumas mulheres desconfortáveis com a forma como se abeira delas e lhes cheira o cabelo.

Ainda assim, há quem afirme que é cedo para decretar o fim político de Joe Biden, depois de duas candidaturas falhadas e de uma ameaça não consumada: em 1988 foi forçado a abandonar a corrida no meio de um escândalo de plágio; em 2008 eclipsou-se logo no início, atrás do brilho de Barack Obama e Hillary Clinton; e em 2016 conseguiu reprimir a sua vontade de avançar.

Segundo Nate Cohn, o guru das sondagens do New York Times, o Partido Democrata já não é aquele partido que fechava os olhos ao racismo, à homofobia ou ao machismo para agarrar eleitores em estados mais conservadores, mas também ainda não é aquele partido dominado por progressistas radicais que parece existir nas redes sociais.

Em 1972, quando Biden foi eleito senador pela primeira vez, 40% dos democratas diziam que os brancos tinham direito a segregar bairros e 38% eram contra os casamentos entre brancos e negros. Mas ainda que esse Partido Democrata já não exista, hoje em dia ainda há 47% de potenciais eleitores do partido que dizem ser moderados ou conservadores – uma fatia que pode ser suficiente para garantir a vitória numa corrida longa e cheia de adversários à sua esquerda.

“Em última análise”, diz Cohn no New York Times, “é possível que Biden venha a beneficiar na campanha se o Partido Democrata dividido da actualidade for um pouco mais parecido com o seu passado do que com o seu futuro”.